20.1.19

DREAMS


Estreou no Brasil o novo filme de Ted Kholman. Dreams (2016). Com um elenco praticamente desconhecido, com a aparente exceção da excelente Amy Adams (do filme A Chegada), esta produção canadense de médio custo marca a volta de Kholman após quase uma década longe das telas. 

Ambientado numa pequena cidade do interior, o filme começa mostrando a vida pacata de Mary (interpretada por Amy Adams), uma mulher de uns 40 anos casada com um professor do ensino médio e grávida de 7 meses do seu terceiro filho. As imagens se alternam em preto e branco e em cores. Aos poucos, vamos compreendendo a trama e a sua relação com o uso de imagens coloridas ou em P&B. A realidade, em preto e branco. Os sonhos, em um colorido quase sobrenatural. 

Quando o espectador já consegue interpretar corretamente este artifício de cores e sua ausência nas cenas de sonho e vigília, somos apresentados a uma passagem, obviamente um sonho, em que Mary está numa cidade grande, solteira, sem filhos, ainda na faixa dos vinte e poucos anos e trabalhando numa lanchonete, onde ela conhece Philip (interpretado por um dos atores desconhecidos do elenco), um belo jovem estudante de negócios e finanças em uma prestigiosa universidade.

As cores estouram diante dos nossos olhos, mais e mais intensas a cada segundo, tornando-se irreais quando Philip a convida para um jantar. Kholman utiliza filtros, beirando ao psicodélico, para dar maior percepção de irrealidade quando ambos  estão num muito refinado restaurante, decorado em estilo do século XIX, para o qual o rapaz  a leva.  Em seguida, uma breve cena de amor no pequeno apartamento onde ela mora, mas já em preto e branco, não o colorido intenso dos sonhos.

Daí em diante, temos a vida de Mary casada com Philip, um jovem rico e promissor. Passagens com os filhos, a linda casa onde moram, as festas, o grupo de amigos, ilustrando a ideia de um mundo de riqueza, conforto, luxo e felicidade, na ausência completa de cores. Ou seja, a realidade. A ideia da realidade sem cor não é nova e já foi experimentada por vários cineastas, e parece ser mais convincente, alegam alguns, do que quando em cores. 

Chegamos a nos acostumar com tal mundo onde as diferenças se dão apenas no contraste entre mais claro e mais escuro, nas gradações do cinza em combinação com o negro e o branco. Mesmo porque torcemos pela boa vida da protagonista. Por que estragá-la? Contudo, como em outros filmes de Kholman, temos um salto, uma virada. Mary, já uma mulher de quarenta anos, toma chá com uma amiga.

 - Eu queria que a minha vida tivesse mais cores - diz a amiga, uma grã-fina da roda de ricos que frequenta. 

A câmera mostra a expressão de Mary e, neste momento em particular, enche a tela com o belo rosto de Amy Adams, em preto e branco, um pequeno sorriso em seus lábios, a dizer que ama sua vida, os filhos, a estabilidade, o esposo e tudo que ele a proporciona. 

- Desde quando o conheci, minha vida parece um lindo sonho - ela diz. 

Em seguida, sem aviso, as cores estouram diante dos nossos olhos, já desacostumados, quando o celular dela toca e é avisada de que o marido havia sofrido um infarto.  Kholman, um mestre no uso da câmera, mostra a agitação das ruas intensamente coloridas, sons de buzinas, a protagonista dentro de um táxi, a tensão e as lágrimas em seu rosto (Amy Adams, numa atuação primorosa, consegue passar aquela mesma tensão das expressões sutis do filme A Chegada). Lá fora, na avenida larga, as placas e seus letreiros luminosos chamativos das lojas. 

Ao chegar ao hospital, corredores em cinza, o branco dos médicos, as paredes alvas, não há cor alguma. O melhor amigo do esposo se aproxima. Entretanto, tal personagem é alguem mostrado apenas no início do filme, num pequeno jantar, quando Mary está grávida e traz à mesa  uma tigela de macarronada, a barriga imensa da gravidez do terceiro filho. Mary é logo avisada por uma médica sobre o marido dela estar fora de perigo, pois havia sido apenas um mal-estar repentino.

Enquanto a médica a tranquiliza numa voz muito doce a chamar a nossa atenção, a câmera enquadra o rosto da protagonista enchendo a tela. Mary parece destruída, sem vida, sua expressão é de total desapontamento. O olhar não mira a câmera, desvia-se para o lado, como se não pretendesse ouvir explicação alguma, sua vontade é a de não estar ali naquele mundo onde não Philip. O som doce da voz da médica torna-se aos poucos inaudível, muito tênue e sem resolução, permanecendo apenas a imagem nítida e em preto e branco do rosto de Amy Adams na cena final. E termina. 

Antes dos créditos, lê-se a dedicatória de Ted Kholman à sua querida esposa recentemente falecida. 

Eu indico.



Marco Antonio.

PERMANÊNCIA


"Você nunca está só"  - Hubmann.


Pediu uma bebida e recostou-se em um balcão recuado. Minutos depois, ela chegou. Ela e mais três amigas. Chamou-lhe a atenção o azul do vestido e o verde dos olhos. Das quatro moças, somente ela sorria; e, mesmo sob o som alto da música que tocava bem ritmada, dava para ouvir a risada aberta e ampla que dela vinha. Passado um quarto de hora, ela não parecia tê-lo notado de modo algum, mesmo quando seus olhos abarcavam o balcão onde ele se debruçara.

Depois foram só pensamentos.

Começou quando ele, ao entrar numa livraria, pegou um livro e mirou a capa, o título e o nome do autor. Em seguida, abriu-o numa página interna e, ainda no primeiro parágrafo, imaginou o que ela pensaria sobre o que estava escrito ali na folha aberta. Após o que, comprou o volume e o leu lentamente, intercalando frases e pensamentos, um processo vagaroso e constante de breves leituras e longas paradas. Não aquele pensamento reflexivo sobre o que se lê, ou a refutação da ideia exposta ou ainda a busca de alguma correlação com a realidade e com outras obras lidas. Um diálogo, não com o autor, mas com um segundo leitor imaginário a ler em paralelo as mesmas palavras, seguindo a mesma marcação das vírgulas e o ritmo das frases, uma após a outra, páginas após páginas, até o final. No fim de tudo, a certeza de que ambos haviam lido e comentado aquele livro singular.

Mas não parando por aí. Também muitos outros, por meses, uma variedade de autores, músicas, compositores, obras de arte, experiências as mais diversas, desde as meramente intuitivas e espirituais, indo até os desdobramentos de natureza religiosa, passando pelas percepções visuais, por um cabedal de viagens, amizades, relações pessoais e amorosas, sentimentos os mais diversos, sonhos, mentiras, frustrações e insucessos, alegrias e os pequenos momentos doces de vida.

Não foi sobrando sequer um pequeno espaço onde houvesse somente ele e sua alma única neste mundo. Nada daquele isolamento próprio que recai sobre cada um de nós desde o nascimento. Nem resquícios da solidão particular à todo ser humano jogado no seio da Criação. Ao seu lado, sempre presente aquela mulher de azul, olhos verdes e sorriso largo. Sempre acompanhado, antes mesmo do raiar do dia, desde o sono mais profundo e confuso das noites pesadas; desde a manhã do dia anterior;  desde muitos dias anteriores.

Estava à beira de, por nunca estar a sós consigo, isolar-se de tudo o mais.

Até o dia em que a viu novamente e de verdade. Foi quando virou o rosto na rua movimentada. O sinal lá adiante fechou -  e lá estava ela atravessando sozinha a larga avenida na faixa de pedestres, somente ela, como naqueles filmes em que se pretende marcar e alongar uma breve cena.

O momento transcorreu em câmera lenta -  pesado em seu ritmo, longo e denso em sua duração. O vento forte batia no vestido solto, não o azul da festa, mas um de várias cores alegres e misturadas em desenhos geométricos. Soprava em curtas rajadas nos cabelos negros pesados à altura dos ombros. Por detrás da cena, uma fila de carros alinhados na faixa, todos parados, um ao lado do outro, os faróis acesos, luzes intensas, os motores em baixa rotação fazendo aquele zumbido grave e constante de potência contida, e os motoristas paralisados ao volante na longa espera, enquanto ela passava, tendo para isso todo tempo que restasse neste mundo.

Quando já perto do outro lado rua, ela virou o rosto para ele;  e o mirou por um instante breve e limitado, mostrando que o  reconhecia, desejando que a visse. E, pela primeira vez, ele pode ter para si o belo sorriso a ele dirigido, agora a sua alma  liberta.

Marco Antonio.

TERRA PRIMATA ESTRÉIA NO NETFLIX



Chegou ao Netflix o filme Terra Primata (1974), a única obra de ficção científica do diretor Ted Kholman, o mesmo do famoso Canção do Oeste. A história se passa ali mesmo, no ano em que o filme foi rodado, quando a humanidade faz seu primeiro contato com uma espécie alienígena. Eles, os extraterrestres, chegam numa nave gigantesca e de formato estranho. Não são humanóides. E Ted Kholman não os mostra em momento algum. Os visitantes permanecem no interior da nave a orbitar o planeta, e tentam se comunicar através de sinais de rádio. As tentativas são em grande parte frustrantes, dada a dificuldade de se conseguir decifrar as mensagens enviadas por uma civilização totalmente distinta da nossa, apesar do enorme esforço da comunidade científica mundial em decodificar os sinais.
Mas o enredo não fica só nisso. Um pouco antes da chegada dos extraterrestres, o mundo já havia entrado numa crise econômica sem precedentes, ruína do sistema financeiro, crash das bolsas, queda brutal do consumo, desemprego, colapso da indústria, desabastecimento, saques, fome, caos.
Não podemos esquecer que, em 1974, a União Soviética ainda existia. Os russos posicionam tropas e tanques na fronteira com a Alemanha, com o argumento de que precisam proteger sua esfera de influência de uma eventual invasão daqueles que fogem da fome no Ocidente. Em resposta, a OTAN coloca suas bases de mísseis em estado de alerta máximo.

A chegada dos alienígenas acrescenta mais instabilidade ao cenário. Não se pode descartar a possibilidade de invasão. Mas, por outro lado, acima da atmosfera, a nave gigantesca permanece pacificamente enviando continuamente sinais, apenas sinais que nos são obscuros e incompreensíveis, quase beirando o ruído.

A personagem principal é interpretada por Caroline Peterson, a musa dos filmes de Kholman. Assim como em Canção do Oeste, ela é uma dona de casa, e assiste a tudo pela TV, não ousando sair. Lá fora é caos e violência. O marido saiu para tentar comprar mantimentos e ainda não voltou. E nem voltará. Kholman faz várias tomadas em "close" do belo rosto de Peterson, seus olhos e cabelos negros. As cenas externas de convulsão nas ruas são magistrais. Tem aquela famosa de uma mulher sendo violentada num supermercado, as prateleiras totalmente vazias.
O filme vai se tornando, passo a passo, cada vez mais estreito em sua narrativa, e minimalista na forma. Se, no início, se desenrola amplo com a chegada de uma imensa nave interestelar em meio a um caos global de proporções bíblicas, vai aos poucos descendo para os detalhes e dramas pessoais.

Os últimos 20 minutos são de tomadas internas no interior da casa de Samantha (Caroline Peterson). O foco está nela e em seu filhinho de 3 anos, ambos diante da TV à espera do marido que não voltará. A TV alterna imagens da nave, fotografias tiradas de telescópios e satélites, declarações de autoridades civis e comandantes militares, apelos de líderes religiosos, multidões em fuga, choques brutais e sangrentos entre forças da ordem e a turba nas ruas.
Em determinado momento, a TV perde o sinal, só chuvisco. E permanece ligada por um tempo, só mostrando chuviscos, mãe e filho diante dela, na esperança de que volte a transmitir notícias sobre o mundo lá fora. Em seguida, falta energia. Na escuridão, a criança começa a chorar, também de fome e medo. Samantha cantarola uma canção de ninar. Ela vai até a janela, na tentativa de mostrar a nave para seu filho.

E o filme termina nesse ponto exato, a câmera mostrando o céu negro, vazio, e sem estrelas; e, em seguida, mudando para o belo rosto de Caroline Peterson, em uma de suas melhores interpretações, só perdendo para o papel na pele de uma personagem de mesmo nome em Canção do Oeste.
Em Canção do Oeste, Kholman faz as duas ou três muito conhecidas reviravoltas na trama, uma técnica de narrativa integrante dos melhores manuais de cinema. Já aqui, em Terra Primata, temos um contínuo estreitamento do foco de visão. Há quem diga ser uma metáfora sobre o que de fato interessa ao ser humano - o indivíduo lutando pela sua vida, a rotina doméstica, mesmo que lá fora o mundo seja uma confusão total; mesmo que, um pouco acima, uma civilização avançada, um viajante interestelar, esteja tentando nos dizer algo e talvez no tirar do pó.
Eu indico.

Marco Antonio.

NOITES BRANCAS



No dia seguinte, ela procurou-me e disse que iria embora e não voltaria mais. No sábado, pegou as roupas e se foi. Desapareceu. Eu também não fiquei naquele lugar. Mudei-me, em seguida. E a vida tomou um rumo diferente. No entanto, por mais que o tempo fosse lavando a estrada que fica para trás e jogando lembranças no esquecimento, ela não cessava de aparecer nos meus sonhos.

Noite após noite, meses sem fim - não falava, nada dizia, apenas sua imagem, como uma cena gravada sem áudio. Sempre a mesma coisa, o vestido florido, ela dando voltas, rodando e sorrindo, até cair sobre a grama verde sob um imenso céu azul e iluminado até onde ia o horizonte. Não havia o que eu fizesse para afugentá-la, nem bebidas, remédios, nem mesmo o trabalho extenuante. Até que, num dia qualquer, já acostumado com o irremediável, o sonho se foi de todo, e nunca mais voltou. E, com ele, qualquer outro.

Vieram as noites brancas, vazias, o sono como uma ausência completa deste mundo. Tentei até mesmo mentalizar a imagem dela, na esperança de voltar a sonhar, mas sem sucesso.

Hoje, moro em frente para o mar. Na maré alta, as ondas são fortes, pesadas, violentas; batem nas pedras e os respingos se elevam metros acima. É um lugar muito bom, eu acho, há uma vizinhança espaçada e discreta, as pessoas caminham diariamente na areia da praia e não incomodam. Há cães também. Eles correm de um lado para o outro, pulam, latem e nadam.  Eu os observo da minha varanda, conheço até seus nomes

Nas noites sem nuvens, as estrelas preenchem completamente o céu, um mar de estrelas; e é fácil identificar constelações, se você tem algum conhecimento sobre tais coisas. Nas minhas noites, sem sonho algum, acordo em horários espaçados, e fico ouvindo o som das ondas na praia, olhando enxames de estrelas, até elas começarem a esmaecer sob o sol, e adormeço ali, sentado na varanda.

Ontem, no meio da noite, acordado, ouvi o som de uma voz. Era ela dizendo que voltaria. Não  teria como me enganar, apesar do tempo que já se passara desde aquele dia. Quando ouvi, a minha mente logo a identificou. Não poderia ser a de outra pessoa. Era ela. Era a voz dela.

Pela manhã, na cidade próxima, fui ao supermercado e comprei suprimentos de cozinha, além de vinho e cerveja. No final da tarde, preparei um jantar, e aguardo ainda a hora de servi-lo. Coloquei na varanda duas cadeiras em frente para a praia. Ouço o som das ondas esmagando-se contras as pedras. Mas já são quase onze horas.

Sei que ninguém virá. Ora, eu sei.

Qualquer pessoa racional, e com o mínimo de juízo, sabe que a voz da noite anterior fora fruto da imaginação e de certas coisas que o cérebro faz por si só, uma máquina independente da vontade, uma parte do corpo dada a produzir sensações, visões, sons, esperanças, a reprisar memórias, como se fosse uma outra pessoa ocupando uma parte de nós. É assim que somos.

Há pouco, de repente, aparentemente do nada, veio-me uma lembrança da mocidade, algo do qual não lembrava mais, de quando a vi pela primeira vez, de quando vi pela primeira vez os seus olhos verdes, o sorriso aberto, os cabelos loiros brilhando ao sol. Ela usava um vestido azul claro e curto, as unhas estavam pintas de vermelho. Como se nunca tivesse saído da memória - no pulso direito, ela usava uma pulseira de plástico cor-de-rosa com detalhes em dourado.

Marco Antonio.

EU AMO VOCÊ, JULIANA.



O taxista deu a volta em torno do carro e abriu a porta do passageiro. De dentro saiu uma mulher carregando uma criança grande nos braços. Ela dizia, repetidamente, que o marido viria logo e pagaria a corrida, enquanto o taxista a ajudava a carregar a criança para dentro da clínica. Havia sangue escorrendo e ficou uma trilha vermelha no chão. Ao voltar, o taxista olhou para dentro do veículo e balançou a cabeça. Teria que lavar tudo aquilo. Fechou a porta do passageiro, limpou as mãos numa flanela que pegou lá dentro, ajeitou o boné, cruzou os braços, deu a volta e entrou pelo outro lado. Estacionou o táxi embaixo de uma árvore e esperou.

Vinte minutos depois, o pai chegou. Estacionou o carro meio atravessado e entrou correndo na clínica. Nessa correria, errou a porta, deu meia-volta e acertou o lugar. Retornou com passos lentos e recurvado. Tinha um ar meio perdido, enquanto tentava localizar o táxi. O taxista colocou o braço pra fora e acenou. O pai tirou uma cédula de cem reais da carteira e disse que ficasse com o troco. O taxista agradeceu e não quis perguntar nada, ligou o motor e saiu. O pai deu a volta, sentou-se num banco de ferro sob uma árvore imensa e começou a chorar.

Era um fim de de tarde e o céu ainda estava claro e muito azul. O vento arrancava flores das árvores e o piso do estacionamento estava cheio delas. Eram flores amarelas, flores daquela época. Aquelas flores vinham de ano em ano, em todos os anos, um espetáculo bonito, as pétalas sendo carregas pelo vento e forrando o chão. Mas o pai estava com os olhos voltados para baixo e só fazia passar uma das mãos na cabeça, indo da testa e descendo até o pescoço. 

Ele ficou repetindo esse gesto, parecia um robô fazendo a mesma coisa, programado pra passar a mão direita nos cabelos.

Mas algo o fez parar. Do outro lado da rua, um grupo de mocinhas vestidas com uniforme escolar passou cantarolando e rindo - riam muito e alto, e seus sorrisos e brincadeiras, umas com as outras, preencheram o espaço. Ele levantou o olhar e ficou ouvindo a algazarra que elas faziam.

Nisso, veio de lá um médico. Muito alto e jovem, jaleco branco. Por baixo do jaleco, usava uma gravata vermelha sobre uma camisa azul. Ele aproximou-se do pai, sentou-se ao lado,  no mesmo banco de ferro pintado de branco. Falou qualquer coisa pra começar, deu uma explicação rápida e simples e silenciou. Ficou ali por uns minutos, e começou a prestar atenção na algazarra e nas brincadeiras das meninas voltando da escola. Quando elas já estavam longe,  o médico levantou-se. Nesse tempo, o pai não olhou para ele, não teve coragem, nem disse uma palavra sequer. Só repetia o gesto automático de passar as mão nos cabelos, sempre começando pela testa e indo até a parte de trás do pescoço.

Uma enfermeira aproximou-se trazendo um copo d´água. Ele não notou a presença dela de imediato, deixando-a, sem querer, parada com um copo plástico na mão e sem dizer nada. Uma flor caiu em sua cabeça e ele levantou a vista, limpou o rosto, deu um sorriso e estendeu a mão para pegar o copo. Uma outra flor pequena caiu, só que, dessa vez, dentro do copo. Ele a tirou com um dos dedos. Mas não bebeu nada, ficou apenas segurando o copo.

A enfermeira esperou um pouco e afastou-se, em seguida. Já estava no meio do imenso estacionamento, quando ouviu um ruído grave e que foi se tornando mais intenso a cada segundo. Vinha de cima, do alto, de trás do prédio da clínica, mais para o lado esquerdo. E foi ficando muito alto, como se estivesse ali ao lado deles. A enfermeira parou no meio do estacionamento e vasculhou o céu tentando encontrar a fonte daquele som potente. O pai levantou o rosto e limpou as lágrimas para enxergar melhor, e deixou o copo cair. A luz do céu intensamente iluminado o cegou por um instante. Mas logo pode enxergar bem e nitidamente, quando apareceu, por cima do prédio, um pequeno avião de duas cores, amarelo e laranja, contrastando com o azul do firmamento, e voando bem baixo, puxando atrás de si uma faixa ondulante onde se lia em letras vermelhas: EU AMO VOCÊ, JULIANA.

LUÍZA


Atympal trabalha, como chefe da contabilidade, na companhia de abastecimento de água e rede de esgotamento sanitário de Santa Marta. Tudo muito organizado e registrado em detalhes, as faturas emitidas rigorosamente na data, sem erros, sem inadimplência, vez ou outra um atraso no pagamento, por conta de um esquecimento qualquer, coisa tão fácil de resolver.

A água da cidade, desde sempre, é retirada do subsolo, de um aqüífero profundo e de grande extensão, sugada por bombas enormes e possantes. Exceto, quando por algum problema de vazamento numa tubulação, há a rara interrupção temporária do fluxo. Afinal, é o orgulho do lugar. Água mineral e limpa, com os teores certos de sais minerais, é o que atestam os estudos de laboratório. Água limpa - e uma vida limpa -, é o que todos esperam de um bom lugar para se morar, criar os filhos e envelhecer com tranqüilidade.

No final de cada mês, fechada a contabilidade mensal, os livros e relatórios devem ser enviados para o lugar certo. Tudo no prazo, com exatidão e eficiência. Atympal não sabe dizer para qual lugar vão a papelada e o dinheiro. Não há motivos aparentes para se preocupar com isso – é o argumento convincente -, pois a água jorra permanentemente, as faturas e os salários são pagos, enfim, o que importa para a companhia e seus empregados.

Contudo, apenas para si, indaga sobre a existência de algum lugar fora de Santa Marta, "algum lugar, sabe lá Deus, além do deserto e das montanhas". Imagina pessoas que ele não conhece a analisar o seu trabalho e a conferir os balanços. Mesmo porque, embora pouco se comente a esse respeito, fica evidente a impossibilidade de se produzir em Santa Marta tudo que nela se consome - enlatados, medicamentos, filmes, carros, roupas de malha e perfumes.

Mas se os balanços e o dinheiro vão para algum lugar – ele conclui -, secretamente a cidade é abastecida. Por outro lado, se tudo corre normalmente e o sistema nunca falhou; se a vida é tranqüila e dócil com todos, por que insistir em saber mais do que é dado a saber?

Em sendo assim, Atympal desempenha bem o seu papel como chefe da contabilidade, mantendo seus subordinados ocupados em registrar, organizar e conferir, mesmo sabendo que eles podem fazer o mesmo tipo secreto de indagação sobre a realidade. Por sua vez, os seus superiores o mantém alheio e protegido dos demais detalhes e aborrecimentos sobre o completo funcionamento da empresa. O funcionamento da companhia de água e esgoto é o reflexo do restante da vida em Santa Marta, da sorveteria à loja de cosméticos.

Em seu círculo de relacionamentos, apenas Luiza, sua esposa, exterioriza o ponto de interrogação para a existência. Ela vive a perguntar sobre isso e sobre aquilo, até mesmo irrelevâncias de como e onde são feitos os filmes. E ele, como bom burocrata da companhia de abastecimento de águas, procura mantê-la longe dos desvarios, do vício do inconformismo e dos perigos do pensamento sem freios, de forma semelhante ao método rigoroso utilizado para manter seu departamento contábil em ordem.

No hobby da pintura, sempre uma tela nova a terminar, Luiza expressa sua interrogação sobre o mundo. Ela não trabalha fora e tem tempo de sobra. Como não tem filhos, dedica-se a pintar quadros, dia após dia. Os temas se repetem – o deserto, as montanhas, paisagens verdes de campos e florestas além das montanhas e do deserto, oceanos, vilas longínquas, cidades enormes, avenidas compridas e largas repletas de carros, edificações grandiosas em praças iluminadas por luzes intensas penduradas em postes muito altos, pessoas reunidas em eventos esportivos com animais nunca vistos, fábricas a produzir filmes em máquinas estranhas, multidões em conflito e pessoas sorridentes em balões sobrevoando Santa Marta – tudo isso encarado por todos como fruto da imaginação fértil de artista amador, aceitável apenas como passatempo de uma dona de casa ociosa.

Atympal a conhece bem e a protege. Estão juntos desde a escola primária. Naquela época, já distante, mas ainda presente na lembrança de ambos, foi ele quem desviou o olhar de Luiza de um imenso balão prateado que tão logo sumiu no horizonte.

Marco Antonio.

O EMBAIXADOR


"Pôde-se então ouvir a voz do deserto que avançava." 
Dino Buzzati - O Rei Em Horm El-Hagar.

O embaixador chegou pontualmente às 19:30. O carro oficial veio precedido por uma descomunal fila de enormes viaturas negras e brilhantes, e uma equipe de segurança formada por mais de cem homens fortemente armados. Todo o quarteirão do teatro fora esvaziado cinco horas antes. Os convidados chegaram com pelo menos uma hora de antecedência e tomaram seus assentos, não sem antes passarem por rigorosa revista. 

Chegou num pequeno carro de cor cinza fosco. Era um veículo de aspecto nada especial, mais próximo ao comum e vulgar dos carros de rua, embora de marca desconhecida e provavelmente fora de linha de produção, sem qualquer brasão, bandeira ou placa oficial. O próprio motorista foi quem abriu a porta, e o embaixador desceu com nítida dificuldade; em seguida, a bela e jovem senhora embaixatriz num vestido vermelho-claro, joias cintilantes em torno do pescoço e nos braços.

À frente dela, claudicante, caminhava recurvada a altíssima autoridade diplomática num terno preto de aspecto gasto. Seu rosto, repleto de rugas, parecia com o de um cágado. Seguindo a ambos, uma ampla comitiva de oficiais da embaixada. E o séquito foi adentrando o enorme teatro, a figura principal em pequenos passos incertos, aturando padecimento após cada uma das pisadas, embora seus pés parecendo quase não tocar o chão, tal era a leveza do seu corpo diminuto.  Os sapatos, algo de aspecto e formato incomuns, muito grandes e desproporcionais. 

Ao ser anunciado, todos puseram-se de pé e, reverentes, o aplaudiram por intermináveis minutos até que enfim chegasse ao palco. Ajudado pela equipe de oficiais em trajes militares de gala, funcionários de sua estrita confiança, subiu os poucos degraus de escada com visível e constrangedora dificuldade. E, finalmente, sentou-se atras de uma enorme mesa forrada com uma toalha de veludo cor de bronze e adornada com arranjos exóticos de flores naturais. Após o que, a plateia, formada em sua totalidade por autoridades dos mais diversos países e potências, foi autorizada a poder novamente sentar-se.

Visto de longe, o embaixador era ainda mais minúsculo, a cabeça calva e pequena, os braços curtos postos sobre a mesa; as mãos, trêmulas, uma sobre a outra. Ao seu lado, contrastando, a belíssima embaixatriz, alta, garbosa e jovial, o sorriso gracioso em sua expressão serena e plácida, os cabelos negros caídos sobre os ombros nus. Um portento. Majestosa em si e em seus atributos e em dissemelhança com a aparência singular do seu esposo.

A apreensão era visível no rosto de todos no seleto auditório. Nenhum ruído se fazia ouvir sob silêncio absoluto, respeitoso e denso. A espera parecia não ter fim. Quando, de repente, sem nenhum anúncio prévio, o embaixador, sem uso de qualquer sistema de som, deu início à tão aguardada palestra sobre os destinos dos povos e nações dos quatro cantos da Terra.

E a sua voz, como que um estrondo vindo de mil corredeiras e quedas d'água, ecoou e reverberou pelo amplo teatro. E os magníficos lustres de cristal acima da audiência puseram-se a vibrar. 

Marco Antonio.

EU JURO QUE VI


"Não ouvi o menor som, porém a presença das coisas incompreensíveis me perturbava."
There Are More Things - Jorge Luis Borges.

Na manhã seguinte, as nuvens se adensaram. A meteorologia anunciou dias fechados. Choveu muito naquelas duas semanas. Foram ruins, úmidas, embaçadas e frias. A minha rua foi aos poucos invadida por uma lama vermelha que descera das encostas e, no entrar e sair, sujava-se facilmente as roupas e a casa. A TV anunciou a ocorrência de tempestades e um fluxo intenso de umidade do oceano em direção ao interior do continente, explicando aquela invernagem em pleno verão. Num domingo, choveu durante vinte e quatro horas ininterruptas, e o rio transbordou, provocando uma enchente só comparável à de 1962. A água subiu setenta centímetros dentro de casa e ficou lama sobre o sofá, cadeiras, camas e por dentro de gavetas.

Não é fácil descrever o que se sente numa situação como aquela, quando se descobre, no dia seguinte, sob a luz de um sol que ainda não se vê, em meio à sujeira inevitável, haver coisas já irremediavelmente irrecuperáveis. Enquanto a água não desce, não é possível conhecer exatamente o que está ocorrendo, como se a nossa compreensão estivesse também submersa. Mas tem-se aquela certeza, no íntimo, de que certos móveis, objetos, papéis e fotos estão perdidos para sempre.

Após aqueles quinze dias, a chuva se foi de todo; e a cidade, de um jeito ou de outro, foi lentamente voltando à normalidade. De resto, divulgaram e arquivaram em números e tabelas as estatísticas dos prejuízos, perdas, desaparecidos e mortes. Nas mentes, a perplexidade. Um jornal reconhecidamente sensacionalista publicou uma matéria, com desaprovação imediata das autoridades, sobre certas mortes não poderem ser explicadas simplesmente por afogamento, desabamento de casas ou avalanches de lama. Havia nele umas fotos perturbadoras, contudo de pouca ou nenhuma credibilidade.  

Mas quando o sol volta a preencher o espaço com seu calor -  e o céu azul se abre iluminadando plenamente um dia após o outro -, somos obrigados a aceitar que não se pode viver o tempo todo como se ainda houvesse água barrenta do rio penetrando em tudo.

No mês seguinte, revi os amigos nos bares da orla. Da praia, avistei um belo e enorme navio branco de bandeira estrangeira navegando em águas tranqüilas.

No retorno à plena normalidade, numa dessas noites quentes do verão que havia finalmente voltado, olhando pela porta aberta, prescrutava as sombras e a penumbra lá fora. Foi de relance, muito rápido. Não sei o que era aquilo. Mas eu vi. Eu juro que vi. 

Marco Antonio.

GRAÇA



Chovia. O sinal fechou. Na faixa de pedestres, ela deu o passo para atravessar, e se  foi, com aquele seu jeito bem bacana e sensual de caminhar, somente ela na faixa, balançando levemente os quadris, enquanto olhava fixamente para o namorado que a esperava do outro lado da rua. Ela não viu que vinha de lá um carro veloz  no asfalto molhado e liso, só ouviu o som agudo do atrito. Não deu tempo de parar, o veículo foi diretamente em suas pernas e a jogou para cima e para o lado. O carro parou lá adiante. Ela ficou caída no chão molhado, desacordada, o sangue no rosto e escorrendo.

O motorista abriu a porta do carro e não teve coragem de ir vê-la. O namorado gritou e correu para prestar socorro. Outras pessoas apareceram imediatamente depois, um monte de gente, pessoas saídas dos mais diversos lugares parecendo surgir do nada. Em seguida, a polícia e uma ambulância.

Um policial perguntou pelo motorista, apontaram para um homem jovem recostado no carro verde parado no meio da pista e de cabeça baixa. Dois fardados o abordaram, um deles começou a fazer anotações, mas o motorista nem se mexeu, respondia às perguntas em voz baixa, sem nem mesmo levantar um braço. A chuva continuava caindo e ele estava todo encharcado. A ambulância logo saiu em disparada. A multidão foi dispersando aos poucos, ao tempo que a polícia tirava fotografias do local e do veículo, o qual também foi retirado para liberação do trânsito.

No início, como é comum nesses casos, o trânsito rodou lentamente, os motoristas tentando entender a causa do congestionamento, olhares curiosos. Depois, fluiu no ritmo normal. E a chuva foi diminuindo, até que passou de todo. No dia seguinte, saiu no jornal que a moça havia sofrido um traumatismo craniano e acabou não resistindo.

O inverno se foi. Veio o processo contra o motorista, depois as chuvas torrenciais de verão. A cidade esquentou muito. Mas depois, um outro inverno, e o tempo foi passando. O motorista pagou com uns trabalhos sociais numa creche na periferia. Sem antecedentes, tinha emprego certo, era trabalhador, filho único adorado pela mãe. Não bebia muito, tinha bons amigos e bastante camaradas das partidas de futebol das quintas à noite.  Na creche, conheceu e passou a namorar uma moça bem bonita. Sandra.

Três anos depois, casaram. Tiveram um filho e, após um ano e meio, uma filha. E a vida foi seguindo. Ele saiu do emprego e botou um negócio próprio e, tão logo a coisa se equilibrou, construíram uma casa bonita. Mais adiante, os negócios no caminho certo, compraram uma casa de praia, para aonde iam quase todos os finais de semana com as crianças.

Ela, a mulher, muito alta, tinha o corpo esguio sob um rosto largo e bonito; pele morena, costumava criar os cabelos negros à altura do ombros. E tinha um jeito afável de lidar. Ele a amava e pensava nela como uma bênção em sua vida.

Trabalharam e prosperam  muito e continuamente. Chegaram àquele padrão que se confunde com a riqueza, enquanto os filhos, já adolescentes e saudáveis, estudavam em boas escolas. Até que ficaram adultos e chegaram à idade de também construírem suas famílias. Depois vieram os netos.

Formavam um casal admirado no seu meio, um exemplo para os demais, sempre convidados para aniversários, batizados, casamentos e festas. Tudo em suas vidas dava-se numa sequência de bons ventos, sem contratempos, numa escalada contínua de passos certeiros, decisões felizes, consequências no espectro do previsível e do esperado. Em nenhum momento a sorte os abandonou, nada veio de ruim de verdade,  nem mesmo aqueles soluços do acaso e que podem recair sobre qualquer vivente. Nenhum infortúnio os afligiu. Tudo fluiu em suas vidas como se num barco seguro em mar tranquilo à mercê da brisa soprada pelo bom Deus. Nada de de grave chegou a afetá-los material ou espiritualmente. Até mesmo a morte da mãe dele, já muito velhinha e frágil, não fugiu ao plano de normalidade de como as coisas devem ser - a morte para os velhos -, tudo no seu devido tempo e na hora certa.

Temia apenas perder a esposa. E orava para  ir antes dela. 

Até que veio o dia. Para ele. Chegou sem dor, sem desconforto ou angústia; sem aviso algum, nem mesmo uma ponta daquela agonia no momento em que nos separamos do que somos e a alma nos é arrancada para sempre.


Marco Antonio.

A VISÃO DE DEUS



Ele teve uma visão de Deus. Foi num sonho. Num capinzal, final de tarde, seus olhos estavam abertos, voltados para o firmamento; o vento em seus cabelos parou de soprar, e a relva iluminou-se totalmente. Deus o olhava, os olhos em sua exata direção, e também para todas as outras coisas. O rosto não parecia humano, nem de animal, nem de qualquer outra coisa conhecida, mas tinha olhos, apesar de tudo. E desapareceu logo depois, quando o campo escureceu, restando apenas  a fraca luz difusa do sol já sob a Terra.

No dia seguinte, pela manhã, no colégio, ficou a observar os demais e a pensar sobre quantos ali, em segredo, como ele, já teriam vivenciado a visão do Criador.  Afinal, não se achava em nada especial. Era um rapaz de religiosidade moderada; nem feio e nem bonito. Pouco inteligente, é o que se achava; mas não um parvo. Era bom, ajudava em casa, ágil nos serviços. Bons pais, bons irmãos. E uma namoradinha, Jessica.

Pensou em contar para ela. Afinal, mantinha com a namorada segredos mútuos, sonhos, esperanças; compartilhavam também a promessa de um futuro casamento. Mas algo dizia, dentro de si, que não deveria fazê-lo.

Afinal, o que significava poder olhar diretamente a Face Iluminada do Senhor? Nada foi-lhe revelado; nenhuma voz interior deixou-o mais valente ou sereno, muito menos alguma sabedoria  viera daquela experiência milagrosa e extraordinária. Permanecera apenas a lembrança do que sonhara; e a certeza de não mais poder esquecer. Sentia-se como sempre fora. 

Dois dias depois, durante uma partida de futebol, houve uma briga. Então pareceu-lhe um bom momento para desafiar alguém mais forte, quem sabe talvez agora pudesse mostrar uma força escondida e que lhe fora secretamente entregue naquela visão em sonho. Uma tentação apossou-se do seu coração. Disparou então em direção ao maior de todos e deu-lhe um murro no meio do rosto. Todos se afastaram, um espetáculo impressionante e inesperado do mais fraco enfrentando o mais robusto dos rapazes da turma. Mas foi somente um murro, o outro apenas pego de surpresa. Os demais foram obrigados tirá-lo dali para que não fosse covardemente espancado. Dois dentes quebrados. 

Jessica, envergonhada, afastou-se. Pouco tempo depois, o pai anunciou que se mudariam para outra cidade. 

Na despedida, foi ao capinzal. Quem sabe pudesse vê-lo mais uma vez. Não em sonho desta vez. E dirigiu-se solitário ao campo aberto e plano. A planície imensa se perdia no horizonte na  quase noite. O som intenso da ventania na vegetação abundante dava sensação de estar sob uma imensa cachoeira. De repente, o vento selvagem sobre os seus cabelos parou de soprar. Do firmamento, em silêncio absoluto, desceu uma luz como que iluminando o mundo inteiro. Era leitosa, fria, como se nela se pudesse pegar e beber, parecendo uma água muito leve e ondulante. Dava para sentir seu cheiro de coisa doce. Ao dirigir o olhar pra o alto, viu aquela face do tamanho de mil mundos. Não era humana, nem animalesca, nem de qualquer coisa conhecida; infinitamente distante, majestosa, não estando somente ali, mas abarcando todo o céu, embora olhando fixamente dentro dos seus olhos. E, como veio, se foi, restando somente a escuridão em torno de si, o vento de volta a agitar a relva;  no firmamento, as estrelas cintilando, a imensa Via Láctea cortando uma faixa central do céu. 

Ao chegar em casa, todos se admiraram quando o viram. A mãe paralisou-se diante dele. Seu rosto estava queimado de sol, os olhos esverdeados como pedra preciosa, as feições jovens  lembrando os traços de uma pantera. 


Marco Antonio. 

MÚSICA NA PRAÇA


Não há como saber o que se passa na cabeça de outra pessoa. Você pode até tentar adivinhar. Se acertar, será como um chutar uma bola para o meio de uma floresta e, sem controle algum sobre a trajetória, conseguir derrubar uma fruta doce no galho de uma árvore distante. As pessoas são assim, seus pensamentos são assim, um amontoado de galhos numa floresta fechada, onde a luz do sol pouco penetra. Coisas novas nascem todos os dias, as sementes caem, e delas brotam novos espécimes, um emaranhado de plantas de tamanhos, formas e cores variadas nascendo, crescendo e morrendo sem parar.

Ela foi até o carrinho de pipoca e voltou com dois pacotes. A pipoca estava quente, salgada, crocante, saída da hora. Olhou pra mim e disse que me amava. Estávamos na praça, a praça cheia de gente, barracas vendendo pratos tradicionais e variados tipos de bolos e doces. Do outro lado da rua, sobre um palco baixo e enfeitado, uma banda tocava sem parar. Ela olhou pra mim e eu vi alegria em seus olhos, a  pipoca estalando entre seus dentes, o sorriso em seu rosto. Que sorriso lindo ela tinha. Meu Deus, que sorriso lindo ela tinha. Acho que foi o dia mais feliz da minha vida. Soprava uma brisa leve e as pontas dos seus cabelos oscilavam pra lá e pra cá, cabelos castanhos claros, finos, cortados um pouco abaixo dos ombros. Do outro lado da rua, a banda executava a repetição contínua de um batida cadenciada e melodiosa. Mas isso foi no dia anterior. 

Quando acordei, já um pouco tarde, pois era domingo, ela não estava ao meu lado. O quarto havia sido tomado por um cheiro forte de fumaça. Muita fumaça entrando pelas frestas. A reação imediata foi a de abrir a porta e sair correndo pra fora e respirar. Era ainda manhã, eu supunha, mas o céu estava encoberto, tufos negros e selvagens sopravam do norte. A luz era pouca e não dava pra enxergar o sol. Olhando na direção da praça, via-se um clarão vermelho que se elevava enorme por trás de redemoinhos violentos de nuvens densas. E o vento trazia de lá ecos de uma batida cadenciada e melodiosa, langorosa, lenta e hipnótica. 

POMADA NO ROSTO


A balconista entregou o medicamento dentro de uma cestinha azul e pediu para dirigir-se ao caixa. Ele tirou a carteira do bolso e pagou com cartão de débito.

Já dentro do carro, distorceu a tampa da bisnaga e passou a pomada no lado direito do rosto, guiando-se cuidadosamente pela imagem refletida no retrovisor interno. Não tinha cheiro algum, mas deixou uma oleosidade nos dedos. Antes de ligar o motor, limpou insistentemente a mão na calça e, só depois, saiu do estacionamento. Aproveitou a noite tranquila para dirigir pelas avenidas largas, tranquilas e iluminadas da orla. Já era tarde. Embora fosse verão, não havia movimento algum, bares e restaurantes fechados. Sem querer, repetidamente, passava a mão no rosto e sentia a oleosidade incômoda da pomada. Tornava a limpar os dedos no jeans, antes de voltar a segurar novamente o volante com as duas mãos. As horas foram rolando noite adentro e o relógio do veículo já mostrava mais de três da manhã. O sono não viera. Então achou melhor ficar circulando pela beira-mar, os vidros abaixados, a brisa amena da madrugada contra o rosto. 

Não demorou muito para avistar os primeiros raios de sol e, aos poucos, o avanço da manhã. Continuava guiando em ritmo lento, já agora pelo centro comercial. Mas não havia ninguém circulando nas ruas. Pensou, de início, que o relógio do carro estivesse errado. Mas, com o passar de quase uma  hora,  sem avistar ninguém, a cidade completamente vazia, os carros parados, as portas dos estabelecimentos fechadas, foi tomado por aquela estranheza de que algo errado estivesse acontecendo, não no mundo aparentemente vazio e ainda em sono profundo lá fora, obviamente nada com a realidade em si, mas com ele. Teve a nítida sensação de algo errado consigo próprio. Aquilo provocou-lhe um sobressalto, quase um pavor, e passou nervosamente a mão no rosto sem querer, sentindo a pomada grudando mais uma vez na palma da mão. Foi então que teve a ideia de ir para a farmácia onde havia comprado o medicamento. Era daquelas vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana sem fechar. Teria que estar aberta e pessoas por la.

Estava aberta, as luzes internas acesas. Estacionou o carro, mas não o desligou de imediato. Ficou observando com cuidado se havia algum movimento lá dentro. Ninguém entrava, ninguém saia. Decidiu então abrir a porta do veículo. Fazia muito calor do lado de fora e o sol forte do verão feria a sua visão.

Ao entrar no estabelecimento, deu para ver a balconista que o atendera na noite anterior, enquanto a moça do caixa teclava atentamente numa calculadora. 

- O que o senhor deseja? - A balconista perguntou. Era uma negra de compleição atarracada e com jeito mal humorado.
- Lembra de mim? Você lembra de mim, de ontem à noite? - Ele indagou, nervosamente.
- O que o senhor deseja comprar?
- Por que não há outros clientes aqui?
- O que o senhor deseja pedir, afinal, ou só veio para perguntar isso? Há mais gente, além do senhor, para atender. O senhor não está vendo?

Ele virou-se.  Havia três pessoas atrás esperando para serem atendidas. A mais próxima, um homem gordo, parecia estar com pressa e o olhou com desprezo. Ele passou mão no rosto e sentiu mais uma vez o incomodo da pomada oleosa. Esfregou nervosamente os dedos na calça, enquanto a atendente esperava com uma cara feia, os braços dela jogados sobre o balcão. 

Sem respostas, andou de volta até porta. Havia enlouquecido. Foi o que pensou. 

Lá fora, nenhum carro a passar. Olhou fixamente em volta. Abriu e fechou os olhos para ter certeza daquilo que estava vendo. Não havia dúvidas, não estava louco, ele concluiu, pois não se via uma alma sequer circulando, apenas umas poucas pessoas dentro da farmácia. Somente a ausência completa de pessoas e carros do lado de fora, mas o resto estava perfeito, os prédios, os sinais de trânsito, o letreiro das lojas, conhecia aquilo muito bem, tudo no seu devido lugar. Lá dentro, as pessoas comportando-se normalmente. Não poderia ser alucinação. Ou, se fosse, seria um efeito colateral extraordinário da pomada?

A sinaleira da esquina fechou. Decidiu ficar ali mesmo na porta esperando alguém passar. O sinal abriu um minuto depois. O homem gordo foi até o caixa, seria o primeiro a pagar e logo sair. Nenhum carro transitando na avenida larga de três pistas. O gordo colocou a carteira no bolso e caminhou lentamente carregando um saco plástico contendo o que parecia ser varias caixas de remédio. Passou por ele lançando mais uma vez aquele olhar de desprezo. 

- O que está acontecendo? - Perguntou insistentemente, seguindo o outro pelo estacionamento. 
- Você não deveria andar debaixo do sol com essa coisa aí em seu rosto sem proteção. Tem um aspecto muito feio, muito desagradável. Você nem deveria sair por aí com essa coisa horrível. 
- O que está acontecendo? Você vê o mesmo que eu vejo? Não há ninguém!
- Sim! Claro!

O gordo desvencilhou-se e entrou no carro, mantendo os vidros levantados. Deu a partida, manobrou, dobrando a esquina. O sinal estava aberto. Um outro cliente da farmácia passou pela porta, entrou no carro e seguiu adiante antes do fechamento do semáforo.

Sob o sol quente, a pomada passou a incomodar muito, uma queimação na pele e nos olhos, o que o fez entrar no carro, ligar o motor, e o ar-condicionado no frio máximo. Pegou a caixa da pomada e começou a ler a bula à procura de algum efeito colateral para explicar o que via. Nada. Apenas possibilidade de irritação e algum queimor, estava escrito. De dentro do veículo, a temperatura já bastante amena, não mais sentindo incômodo algum no rosto, olhava pela janela a  observar as pessoas entrando e saindo da farmácia, duas, três, quatro, cinco, dez, vinte e cinco, muitas, uma farmácia movimentada. Mas somente elas pareciam estar nas ruas, somente elas. Só Deus sabe o porquê.

Tentou conversa com um ou outro, mas olhavam para o seu rosto e o evitavam. Saiu dali e voltou a circular pelas avenidas completamente silenciosas, sem avistar ninguém mais. E o sol já estava bastante baixo, a tarde avançando lentamente sobre a cidade. Pela indicação do médico, estava se aproximando a hora da outra dose.

Marco Antonio.

O POÇO




Minha tia chegou com as meninas e já passava das três da tarde. Deixou as gêmeas para que minha mãe tomasse conta delas durante a noite. Estava com pressa, e meu tio nem desceu do carro, pois teriam que pegar estrada para o casamento de uma parente numa cidade mais ou menos longe dali. As meninas estavam em vestidos de cores diferentes. Uma, de azul; a outra, de carmim. Modelos diferentes também. Um com um laçarote atras; o outro, na frente. Minha tia defendia a ideia de não serem criadas como idênticas,  além do que já eram, pois bastava o fato de serem praticamente iguais na concepção, gêmeos univitelinos, igualmente loiras, cabelos lisos, pele clara, sorriso amplo, olhos castanhos amarelados, idênticas. Tinham uns três anos, Gabriela e Gardênia. Não dava pra saber quem era quem. 

Logo se soltaram a correr alegremente pelo amplo quintal. Morávamos um pouco afastados do centro da pequena cidade num sobrado antigo numa propriedade herdada do meu avô. Um quintal enorme. Gramado, jardim, hortas, um pequeno laranjal e muitas mangueiras.

- Meninas, fiquem por perto, fiquem onde eu possa olhar pra vocês duas. E não tentem subir nas árvores. - Disse a minha mãe, naquele seu tom habitual de dar ordens aos filhos.

- Sim, titia - respondeu a primeira - sim, titia - ecoou a segunda. E não paravam de sorrir.

Pouco depois, recebi ordens pra comprar pão. A padaria ficava um pouco longe, e a minha mãe  não gostava de que eu fosse já perto do anoitecer. E falou bem explicadinho para  que trouxesse mais do que de costume, pois as meninas jantariam e tomariam o café da manhã conosco. Na época, eu tinha uma bicicleta nova, uma Monark que ganhara de presente no Natal. Fui e voltei como num avião a jato. Andar velozmente de bicicleta era uma das cosias que mais gostava de fazer na infância, um dos motivos de sempre me dispor a ir comprar o pão. E fui bem veloz, pedalando num ritmo constante, só descansando nas descidas, embalado voando ladeira abaixo. Alem do que, também tinha medo de voltar já escurecendo, medo dos mendigos, dos vagabundos, andarilhos e bandidos que circulavam pelo mato, dos bêbados, loucos e de toda a família de seres que povoam a cabeça das crianças. 

Na volta, joguei o pacote de pão sobre a mesa e  vi que a minha mãe não estava na cozinha a preparar a janta. Ouvi sua voz vindo de longe:

- Gabriela, Gardênia, meninas, onde vocês estão? Meninas, onde vocês estão? 

As gêmeas sumiram. Ajudada por alguns vizinhos, minha mãe vasculhou cada pedaço de chão da propriedade e nas outras casas próximas. E, tão logo escureceu, meu pai chegou em sua velha caminhonete Ford. Quando viu aquilo tudo, ao deparar-se com a minha mãe em prantos contando sobre todos os lugares já revistados, tratou logo de apanhar cordas e uma lanterna elétrica que levava na caminhonete. 

Ao observar os preparativos do meu pai, a minha mãe gritou:

- Meus Deus, o poço! - Sua voz e seus olhos só mostravam desespero, quase terror em sua expressão - O que vou dizer para os pais delas? Ajude, Senhor!

Tínhamos um velho poço, uma cacimba, uma minação de água salobra de uns cinco metros de profundidade e revestido de pedras não trabalhadas. A boca na abertura era de mais ou menos um metro e pouco de largura, por onde dava pra passar facilmente um adulto, e o poço ia se estreitando aos poucos. Usávamos a água para lavar roupas, serviços de limpeza e a puxávamos com um balde. Tinha seu maior valor nas épocas de estiagem, quando a cisterna de captação de água da chuva secava. Nem o meu pai sabia quando e como haviam feito o poço, de tão velho que era. 

Meu pai iluminou a escuridão através da abertura e curvou-se um pouco para dentro, mas não dava para saber se as meninas estavam ou não ali só de olhar de de cima, poderiam estar sob a lâmina d’àgua, ele falou. Amarrou firmemente a corda em torno da cintura e pediu para que alguns vizinhos o segurassem na lenta descida. E foi com cuidado com a sua lanterna acesa. A minha mãe só chorava. Abracei-a em torno da cintura, dava pra sentir o tremor em seu corpo.

Não demorou muito e ele gritou, sua voz vindo de lá de baixo como se falando de dentro de uma caverna, grave e forte, repetindo:

- Não, não tem ninguém aqui. Não estão aqui. Não estão aqui. Elas não estão aqui.

A voz do meu pai ressoou em mim. - Não estão aqui, não estão aqui, não estão aqui - Esperava outra coisa, não aquilo. E veio a decepção. Eu não gostava delas. 

Marco Antonio.