28.11.25

NÃO É NADA AINDA

Quando anunciaram o fim do mundo, ninguém ligou. Quer dizer, a imprensa inteira alardeou a previsão, mas a vida continuou como antes. No dia seguinte ao anúncio quase solene, as escolas e as empresas funcionaram normalmente, o trânsito fluiu com guardas e semáforos em atividade, nem mais e nem menos buzinas. Duas noites depois, estreou uma nova novela televisiva, e a previsão seria para durar meses, parecia ser o acontecimento do ano, mas o jornal do mesmo canal passou duas horas comentando sobre o fim dos tempos. Já no outro dia, o apresentador dedicou pouco mais de dez minutos ao assunto e, no tempo restante, apresentaram entrevistas com atores, diretor e autor do roteiro.

A normalidade era até exagerada, com os mais comuns dos meus amigos afirmando que “coisas acontecem, mas depois passam”. Na terça-feira, veio a notícia de que um maremoto invadira a Índia, a Tailândia, Malásia, Camboja e Vietnã. Mas as notícias em nada pareciam abalar a serenidade dos meus colegas de trabalho. Quando chamei-os para conversar sobre os fatos recentes e extraordinários, o supervisor de área enviou-me para o departamento de recursos humanos, quando fui imediatamente informado de “que não era por aquilo”, mas estava dispensado. Sem emprego, aproveitei para ir ao psicólogo. Perguntei sobre o que ele achava de tudo aquilo, a plenitude da normalidade frente ao fim de todas as coisas. O psicólogo Cássio olhou-me com relativa indiferença e escreveu num papel o nome e o telefone de um psiquiatra, caso eu preferisse uma ajuda médica robusta, o mais aconselhável para o meu caso, segundo palavras dele. Sempre confiante nas opiniões do psicólogo Cássio, fui visitar o médico por ele indicado.

Impressionou-me o consultório. Amplo, imenso, eu diria. Quatro sofás forrados de fino tecido formavam um retângulo no centro. Poltronas numa extremidade e, na outra, uma pia de bronze fosco. Na parede frontal à porta de entrada, logo atrás da mesa do doutor, um imenso quadro, uma pintura em óleo, um tanto abstrata, mas dava para ver ali o que poderia ser o retrato do homem que estava a me receber gentilmente.

- ė o senhor?

- sim, sim…

E foi logo ao assunto da consulta, afirmando que estava sempre pronto a atender pacientes do psicólogo Cássio. Fez inúmeras perguntas, bem como questão de dizer que sua agenda era um pouco corrida, que a próxima consulta seria para “daqui a dois meses”, bastando que eu fizesse o uso correto da medicação que acabara de anotar no receituário.

- dois meses? E o fim do mundo, doutor?

- não há com o que se preocupar, por enquanto.

No dia seguinte, o presidente dos Estados Unidos, o próprio, da Casa Branca, do Salão Oval, falou em rede de televisão e internet, com tradução simultânea para todas as línguas do planeta.

- senhores, isto ė muito sério – iniciou o poderoso homem de cabelos e bigodes grisalhos, um discurso de quarenta e cinco minutos -, o mundo vai acabar.

“Agora vai”, pensei.

Após o discurso presidencial, ficamos sabendo que vulcões enormes em três continentes expulsaram chamas, lavas e cinzas até a estratosfera. Dois dias depois, não víamos mais o sol, menos ainda a lua e as estrelas, e o brilho do dia não durava uma única hora inteira, nem mesmo ao meio-dia nos trópicos. Mas as escolas, supermercados, postos de saúde, hospitais, clínicas odontológicas e até mesmo as clínicas de emagrecimento continuavam abertas e frequentadas pelos seus clientes. Os bancos recebiam investimentos e ofertavam empréstimos como se sempre houvesse o amanhã para pagar, consumir, trabalhar e viver.

Retornei ao Dr Michel, expliquei para a recepcionista na antessala, também enorme, que o meu caso era grave e urgente, que estava numa crise de nervos. Ele veio pessoalmente receber-me, apesar do olhar severo, a dizer que estava abrindo uma exceção por eu ser paciente do psicólogo Cássio. Ao sentar-se, com calma, atrás da imensa mesa de madeira sólida, apontou para o quadro logo atrás, e perguntou:

- quem o senhor vê?

E entabulamos uma conversa franca.

- o senhor, doutor Michel.

- olhe melhor, observe-o com mais atenção e interesse redobrado neste suposto retrato.

- sim, sim, sou eu, doutor.

- muito bem, muito bem. Já ė um bom início para o seu caso. Achamos que tudo gira ao nosso redor, sentimos o centro, o umbigo, que os nossos sentimentos valem mais e alcançam mais do que podem de fato ser.

- doutor, o senhor não vê que não há mais dia neste mundo? As cinzas caem sobre tudo e todos, olhe pela sua janela, veja as ruas, elas estão forradas por centímetros de cinza vulcânica, mal conseguimos respirar, fui obrigado a utilizar uma máscara para chegar até aqui.

E, antes do final da consulta, vieram os trovões, também os raios. Tudo tremia, o quadro vibrava em sua moldura sob aqueles estrondos vindos do alto. A pequena estatueta de bronze sobre a mesa tombou e rolou até o chão. Enquanto o doutor parecia impassível, inabalável, seus lábios esboçavam um leve sorriso.

- não sei como o senhor pode reagir assim, doutor. O senhor também vai morrer…

- sim, mas não é nada ainda.


Novembro de 2025

 


9.8.25

INVASÃO

Quando os alienígenas chegaram, ninguém estava minimamente preparado. Não houve aviso prévio algum, as estações astronômicas que monitoravam asteroides não detectaram qualquer objeto em aproximação. Foi um vexame para agências de vigilância espacial, sociedades científicas e toda a sorte de observadores do espaço. Como eles chegaram sem ser minimamente notados? Aliás, até ali, era quase um consenso a impossibilidade de sermos visitados por objetos advindos de outra civilização, haja vista que não há nenhuma em nosso sistema solar e nem na vizinhança estelar. Mais ainda, de qual lugar vieram, o que comem e respiram? O que se sabe é que chegaram, suas naves ou assemelhadas, fossem o que fossem, aportaram em pontos ao redor do planeta, dava para vê-las, a olho nu, coisas enormes no céu, e havia umas menores, bem rápidas, praticamente invisíveis, movendo-se entre as maiores. As redes de TV de então passaram a cobrir a invasão vinte e quatro horas por dia, além dos canais da internet, uma imensidão daqueles antigos podcasts de palpiteiros, toda a sorte de opiniões sobre os invasores, que poderiam ser agressivos máximo da aniquilação total da vida na Terra, até o outro extremo, pacíficos e  amigáveis para nos salvar. As gravações pelos celulares da época, onipresentes, de qualquer vôo das menores movendo-se entre as gigantes eram acompanhados de especialistas que traçavam hipóteses e explicações as mais diversas e  mirabolantes. Aqui, no rés das ruas, caos, saques e violência. E essa primeira fase durou exatos quatro dias.

No quinto dia, enxames de objetos menores desgarraram-se das gigantes e começaram a fazer vôos de baixa altitude sobre as cidades. Como as coisas começaram a desmoronar nos dias anteriores, desde o primeiro, no quinto dia pouco havia de força policial ou militar organizada para dar algum suporte ao nosso modo de vida.

No sexto dia, eles sumiram, tão rapidamente como chegaram, não deixando rastros e nem mensagens. Mas a presença dos visitantes, fossem quem fossem, marcou-nos tão poderosamente, no estabelecimento do caos generalizado, que os dias seguintes foram muito piores num crescente de selvageria talvez nunca vista. Tornamo-nos incapazes de controlar e conter o medo de que retornem.

Foram assim os primeiros acontecimentos do novo mundo.

Agora somos a consequência deles. Os sinais do passado recuam no tempo. Liberdade, redes sociais, comunicações instantâneas em grande escala, negócios globais, satélites, exploração espacial, desenvolvimento de tecnologias,  qualquer coisa que possa precipitar um retorno do inimigo é combatida pelo senso comum e  proibida pelas autoridades de defesa.

Tenho um bar.

Vendo cervejas produzidas aqui na região, pouquíssimas mercadorias vêm de fora. Submeti-me a um processo rigoroso para poder comercializar o produto, e a um outro e ainda mais complicado para ser autorizado a armazenar utilizando um refrigerador. Equipamentos, por mais antigos que sejam, são considerados itens de segurança. Nada é fácil, o da refrigeração levou um ano.

As pessoas gostam do meu bar, somos discretos, amigáveis e simpáticos, abrimos crédito para aqueles que não podem pagar logo após o consumo. Mas não tenho autorização para oferecer carnes. Faço um arranjo com tomates desidratados, queijo e pão. E as conversas? São reservadas. Como já passou muito tempo desde aquela fatídica semana, há versões as mais diferentes e conflitantes entre si. Um grupo defende que eles vieram, desceram das naves e nos disseram para viver assim, da forma como estamos hoje. Um outro, mais radical, diz que tudo não passou de uma farsa, os chamados negacionistas, negam a possibilidade de vida alienígena e argumentam que estamos apenas cumprindo uma agenda criada por uma elite que nos controla nos mínimos detalhes. Mas eu finjo que não ouço. As mais aceitáveis têm a ver com o tempo, as colheitas, casamentos, funerais e festas paroquianas, 

Como tenho esse bar e vivo dele para o meu sustento, não posso deixar que grupos organizados utilizem o meu estabelecimento para conspirar. Já expulsei vários indivíduos inconvenientes e brigões. Dono de bar é  assim, desde o início tempos, você é obrigado a impedir tudo aquilo que irá prejudicar o seu negócio. E confesso que cresci no ramo de vendas de cervejas geladas por saber, além de tudo, manter a harmonia em meu estabelecimento, sou o único num raio de duzentos quilômetros. Pensei em expandir para outra freguesia, mas já há um outro concorrente com autorização e que não irá abrir mão dos seus privilégios.

Todo este nosso modo de vida tem como objetivo evitar a mínima ameaça aos invasores e, para isso, é necessário manter uma rotina que denote uma atividade pacata, de baixa prosperidade e de baixo avanço tecnológico, a estagnação. Seja certo ou não, eles nunca mais voltaram. Aqueles que a defendem,  argumentam que é fato inquestionável o não retorno dos invasores. E essas pessoas se autodenominam defensores da ordem, da paz, do bem-estar e da manutenção da própria existência humana no futuro, mesmo que incerto. 

As novas gerações, aqueles que não viveram o passado e já nasceram num mundo habituada à forma de como procedemos  atualmente, validam esses argumentos, pois todos, velhos ou novos, recusam o caos e a anarquia que se seguiram após os primeiros anos da vinda dos forasteiros.

A repressão é feroz. Recentemente, caiu aqui na América do Sul um meteorito, o bólido cruzou o céu e veio a se espatifar na floresta. Trezentas pessoas foram presas. Cinco mortos. Julgamentos sumários. Os poucos jornais deram essa notícia em poucas linhas e sem detalhes.

Há um grupamento, embora não identificado, muito em voga nas conversas de pé-de-ouvido, o dos reacionários. Eles advogam um modo de vida ainda mais simples e antigo que remonta à Idade Média. Se bem que já vivemos em feudos, a autoridade regional, inquestionável, pessoas invisíveis e cujos nomes nos são desconhecidos, mantém as alternativas de pensamento sob controle, e nem desejamos qualquer substituição de poder de um grupo por outro. A minha autorização para refrigerar cervejas e comercializar o produto é o meu interesse imediato. Não irei trocá-la por nada e, muito menos, por aventuras. A democracia é algo impensável.

Um caixeiro-viajante, com autorização para circular entre freguesias, compareceu certo em dia ao meu estabelecimento contando que a cerveja de um outro lugar era mais leve e de fácil digestão. Aquilo gerou uma discussão, muitos vieram me questionar. Em proteção à minha atividade comercial, fui obrigado a denunciar às autoridades locais, burocratas cujos ganhos dependem dos lucros por nós obtidos. E não demorou para que se resolvesse facilmente o imbróglio, com o tal caixeiro-viajante sendo obrigado a negar tudo o que dissera, proibido de exercer suas atividades por abuso de confiança.

Agora já um tanto envelhecido, longe das facilidades médicas de outrora, conduzo o meu primogênito para as boas práticas da refrigeração e comercialização de bebidas. Ele parece gostar, e demonstra habilidades, especialmente no trato com os clientes. Ele tentou obter licença para venda de água engarrafada, o que foi imediatamente negado por um intendente local. Houve há pouco um boato de que vão dividir a atividade, uma para refrigeração, e outra, para comercialização ao consumidor final. Mas por enquanto mantenho as duas sob meu controle na freguesia, e espero que não ocorram mudanças.

Ele fez uma visita, especial e raríssima, a uma fábrica de cervejas, voltando de lá encantando, mas sob a promessa de não revelar o que vira. O negócio das cervejas é estável, sem crescimentos ou quedas anuais, e isso já faz um bom tempo. Estabilidade, equilíbrio, permanência, paz e durabilidade. Todos agora apreciamos e louvamos práticas que garantam uma vida sem sobressaltos e uma rotina desacelerada, o rompimento com aqueles padrões estressantes e desnecessários de outros tempos.

Os visitantes do espaço são lembrados anualmente em cerimônias oficiais compulsórias para todos, quando choramos sinceramente os mortos devido ao caos originado dentro do seio da própria sociedade humana de antes e somos duramente avisados de que estamos em permanente guerra, uma guerra não somente de espera, mas de firme recuo, mais do que contra um inimigo que se esconde nos confins do espaço, a batalha diária contra um modo de vida que os atraiu em hordas contra nós. 

A literatura mofada em antigas bibliotecas carcomidas e abandonadas fala em índices de inovação do passado. Que louca arrogância foi aquela que se nos apossou? Há uma política estabelecida e aceita de não destruir tais livros, mas simplesmente relegá-los ao esquecimento, o oblívio do saber que avança e desbrava, afastando o que somos daquilo que poderíamos ser caso essa depravação de igualar-se a deuses pudesse continuar nos levando na rota da insensatez.

A rota da insensatez. A euforia da descoberta. A soberba do destemor sem freios e de não temer o pavor por trás do desconhecido e do proibido.

Mas há um certo incômodo, algo de irracional e covarde em agachar-se cada vez mais. Quem são eles, o que pensam e por qual razão estarão mais inclinados a nos poupar se nos humilharmos mais e mais, revertendo curso natural do avanço humano? Não há respostas, esta é apenas uma tentativa, talvez vã, mas opõe-se ao fato de que vieram quando a altiva sociedade humana alardeava suplantar o próprio Homem. Embora possa não impedir o retorno do inimigo, supostamente impiedoso, também não alimentamos a esperança vã de uma vitória, pois já sabemos estar derrotados caso houvesse um retorno deles com a determinação de nos aniquilar.

Voltemos às cervejas. A marca que vendemos é Amicto. Espuma densa, pesada, rústica, sabor levemente amargo. O rótulo, de papel, colado à garrafa, traz a imagem de um peixe, em tom amarelado,  imóvel em seu nado quase artístico e plácido em águas cristalinas. 

Agosto de 2025

30.7.25

SOTHER



Lembrei-me agora de um amigo.

Sother.

Fomos colegas no ensino médio que, naquela época, tinha outro nome. Já observaram que as coisas mudam de nome de quinze em quinze anos? 

Mas voltemos ao texto. Tomamos caminhos diferentes. Ao final do ensino médio, que agora tem outro nome, e notem que já mudou de nome várias vezes ao ir e vir das ondas.

Pois bem, eu fui estudar contabilidade; ele, medicina.

E eis que, anos depois, encontro o bom ex-colega Sother. Como estava magro o bom amigo Sother.

- o que há, Sother?

- é a vida.

- mas você não é médico? Cuide-se, procure seus colegas de profissão, é para isso que servem os colegas.

- não sei mais o que fazer…

- talvez eu possa ajudá-lo, Sother, sempre vale a pena tentar.

E lá fomos nós. Marcamos numa boate. Era a casa da moda, todas as garotas, as bonitas, claro, iam para lá. O meu amigo, até por conta dos seus problemas, nunca havia pisado naquele lugar um tanto exótico para sua rotina de então.

- aqui é o paraíso, Sother. Seus males serão coisas do passado.

Apresentei-lhe Betinha. Betinha era estudante do último ano de psicologia, uma moça de hábitos e pensamentos  alternativos, usava roupas psicodélicas e ouvia Yes. Já falei do Yes para vocês? 

Sother gostou de Betinha, tornaram-se não somente namoradinhos, mas ele também passou a gostar do Yes. Certa vez, convidou-me a visitá-los, pois já moravam juntos, e passamos uma noite de sábado ouvindo o novo álbum, a capa do long play lembrava a paisagem de um planeta mágico, e as músicas eram imensas, meu Deus, elas não acabavam nunca.

Mas eu fiquei profundamente feliz. Sother, agora visivelmente restabelecido, não somente estava saudável, realizado e feliz, acordara definitivamente para a vida, teve filhos, dedicando-se enormemente à amada profissão médica, tornando-se um cardiologista de renome, e engordou. Sother era alto, e agora já com outra compleição, parecia um armário.

Mas eis que veio uma tragédia. O que  vocês acham que aconteceu?

Pensem, imaginem, botem a cabeça pra pensar, elaborem hipóteses engenhosas.

Sother mantinha um único vício, o tabagismo. Certa manhã de sábado, saiu para comprar uma nova carteira de cigarros, a última havia se esgotado na noite anterior. Dizem que fora visto entrando na mercearia de um bairro central da cidade. O proprietário confirma que vendeu-lhe um maço, mas não se recorda de muito mais do que isso, apenas um acréscimo de pouco valor, que pagara em dinheiro em espécie, em notas miúdas. Naqueles tempos não havia essa imensidão atual de câmeras espalhadas pelas ruas, prédios, casas e avenidas. Apenas o testemunho humano. Um morador de rua que ficava por ali, disse a um policial que um homem da mesma estatura e biotipo de Sother entrara em um carro estacionado do outro lado da calçada em que ficava o seu ponto. Não conseguia lembrar-se da marca ou da cor do veículo. Recentemente, saiu uma foto num jornal, uma nova tentativa de busca, uma elaboração artística de como Sother seria nos dias atuais. Betinha a enviou para mim. Era um Sother adentrado em anos, cabelos grisalhos, olhos afundados, queixo proeminente, orelhas ressaltadas, lábios inexpressivos. Sei lá, uma última tentativa vã, ela disse. E acrescentou, ainda inconformada, apesar dos anos, o que poderia estar por trás do desaparecimento do grande e maior amor de sua vida, talvez o único verdadeiro amor, uma saída de casa  para comprar cigarros e nunca mais retornar, nem mesmo um bilhete, um recado, um aviso, nada. Ela falou que buscara ajuda de uma vidente, uma vidente famosa, e que nem assim obtivera menor alívio, nem mesmo aquela fagulha de esperança de que ele estivesse vivendo bem ou mal noutro lugar, ou morto. As autoridades policiais deram como desaparecido. Uma vizinha de apartamento daquela fase feliz da vida do casal dizia que tinha certeza absoluta de que, em um dia qualquer, chuvoso ou ensolarado, Sother faria aquilo, e sumiria para sempre.

Agosto de 2025

19.7.25

FORÇA ESTRANHA


 Anos 80. Comprei o novo álbum do Talking Heads.

Quem indicou o disco? Aquele professor genial? Não. O vendedor da casa de discos, um sujeito meio hippie. Mas eu vinha de uma sequência de falhas trágicas. Precisava mudar.

Que noite, Matias. O ritmo, a instrumentação, as influências africanas no som do Talking.

Havia conhecido a moça no banco. Ela  fora lá supostamente levando o pai, um sujeito muito velho - caramba, como ele era velho -, para atualização de um cadastro de uma época em que eu não havia nem nascido. Fiquei impressionado, mas tudo bem. Trabalho é trabalho. Mas eu não deixava escapar nada. 

A moça chegou e logo começamos a dançar. Não era uma dança qualquer, era uma coisa totalmente hipnótica, ela girava, e a minha cabeça girava junto. E fomos levando daquele jeito, faixa após faixa, eu já não aquentava mais de cansaço após o disco tocar três vezes, mas ela estava inteirinha, até que caí no sofá já quase desmaiado, e ela permaneceu dançando para mim. Só que foi a a partir dali que tudo começou. Seu rosto não parecia o mesmo, o sorriso era pura lascívia, devassidão e luxúria.

E ela avançou. Mal percebi, de tão rápido que ela avançou. 

Fui encontrado pelos colegas da agência. Havia faltado dois dias ao trabalho. Quando arrombaram o apartamento, estava largado no sofá como um pobre diabo e sem uma gota de sangue no rosto. Passei tres semanas no hospital. Duas transfusões, um padre. Mas sou forte.

Desesperado, tentei todo tipo de explicação. Procurei uma vidente. Ela olhou-me ao abrir a porta, o que bastou para dar um pulo pra trás. Enquanto permanecia convalescendo e fora do trabalho, soube através de um bom colega que aquele cliente que parecia ter trezentos anos de idade voltara com sua jovem companheira para pedir transferência de valores para fora do país, encerrando a conta.

Julho de 2025

TARKUS

 Vocês conhecem aquele LP do Emerson Lake & Palmer com um tatu-pistola na capa? 

Eu comprei Tarkus para um primeiro encontro. Indicação de um ex-professor de faculdade, aquele de sempre, vocês já sabemd. O cara era um gênio.

- esse ai não falha, Ubaldino. 

E lá fui eu. Bem verdade que a capa era um tanto estranha, um bicho tecno-mitológico, mistura de tatu, tanque de guerra e pistola. Como uma moça, embora avançadinha e que usava mini-saia, poderia se encantar? Pior. As músicas. Meu Deus, o que era aquilo? Mas já havia comprado, em dólar.

Quando a mocinha adentrou meu apartamento, já estava tocando a faixa título do álbum. 

- o que é isso, Ubaldino?

- Tarkus, última moda em Londres.

Parecia assustada com o som do teclado. Segundo o meu professor, Keith Emerson fazia dos multi-teclados um tipo moderno de percussão, misturando jazz, música clássica e sons psicodélicos. 

Mas acreditem, felizmente, veio o blackout e faltou luz no exato momento. A vitrola estancou. 

Eu diria que a escuridão é, ao mesmo tempo, o esconderijo da alma e a luz dos instintos. É nela que as mulheres se entregam totalmente.

Julho de 2025

15.6.25

OCASO

Eu vi o fim do Orkut, e agora assisto ao ocaso do Facebook. Os dias do ocaso são alanrajdos, como um permanente pôr do sol. As pessoas, poucas, andam lentamente de um lado para o outro, entram e saem de seus esconderijos e passam o resto do dia lá dentro, fazendo ninguém sabe o quê.

Nós aqui já vimos muitas coisas, os da minha geração assistiram ao fim do império soviético. Eu estava no banco, e um colega trouxe um jornal: “olha prá isso aqui, Ubaldino!”. Mas deparava-me no momento  com uma diferença no caixa, pouca, mas sabe como é, e não dei muita atenção. Ao final do expediente, já exausto e totalmente esquecido do jornal, fui visitar a minha nova namoradinha, linda, pele rosada, cabelos loiros, lábios avermelhados, um doce. Não era o momento de  lembrar-se do fim da União Soviética. Já havia passado o Natal, é verdade, mas havia o clima natalino ao redor. E aproximava-se o Ano Novo. E eu com uma namoradinha nova.

Meses depois, descobri que ela amava um outro cara, e fugiu com ele. Num Corcel. Ele tinha um Corcel amarelo, disseram-me. Senti uma pontada. Foi aí que o meu mundo caiu.


Junho de 2025

31.3.24

FIM DA INFÂNCIA

Quando a menina entrou, apenas a chama oscilante mal iluminando a cozinha, a sua mamãe tomava café com biscoitos, o rosto fixamente sobre a xícara de café preto, movimentos lentos, costas recurvadas, e o silêncio entre elas, como se lá não estivessem.

A menininha sentou-se e esperou que a mamãe falasse algo.  Esperou, mas não veio palavra alguma. Fazia frio, e ambas usavam um pequeno cobertor sobre os ombros. Lá fora, sem vento algum, nem o farfalhar das árvores, apesar da porta aberta para o lado de fora.

- Papai ainda não chegou, mamãe.

A mãe levantou a xícara e tomou mais um gole do café quente.

- Por que ele está demorando tanto, mamãe?

Sem levantar os olhos, a mamãe ergueu a xícara com a costumeira leveza nos gestos, as feições impassíveis e, em rapidez vertiginosa, a atirou contra a parede. E permaneceu ali sentada, ombros caídos, braços soltos, o corpo recurvado, como se nada houvesse feito de anormal.

- Mamãe?

Os cacos espelharam-se sobre o chão pouco iluminado. Nenhuma iniciativa de ir recolhê-los. Permaneceu como estava, como se ainda diante de si estivesse a xícara intacta e cheia de café puro e quente. A menina abaixou o olhar, levantou-se, e tocou os longos cabelos da mamãe, e o fez de cima para baixo, vezes seguidas, entrelaçando seus dedos pequenos entre os fios finos com infinita doçura. E continuou, enquanto lágrimas pequenas escorriam-lhe pelo rosto. A mãe não se mexia, apenas a respiração fazia balançar as chamas da vela ali longo em frente.

A criança percebera, apenas com um olhar, o mundo que se descortinava diante dela pela primeira vez, embora quase nada pudesse enxergar além da pequena chama pouco adiante.

- Mamãe - Falou bem baixinho a criança, quase inaudível, quando veio uma rajada de fora da cozinha, por aquela porta aberta, e a chama deu lugar à escuridão que as acolheu.

 


 

17.3.24

NOITE

 Estávamos todos na varanda. Lá fora, a escuridão abaixo das estrelas e que se estendia até nós. Dentro da casa, umas poucas lamparinas. Em volta delas, pequenas mariposas girando sem parar. Foi quando a menina gritou. Todos se levantaram, foi um grito agudo, alto, sentimos como um estremecimento. Lá fora, a noite densa pareceu avançar um pouco mais. A mamãe correu para a garotinha e tomou-a nos braços. Era abril, o calor erguia-se voltando ao espaço, como se um fluxo do chão para o profundo do desconhecido, e nem sinal de uma brisa, as árvores inertes e silenciosas. A menina apontou para dentro da sala. A mamãe tentava acalmá-la, balançando-a como se faz com crianças bem menores.

- São lamparinas e mariposas, querida. Veja como elas voam. Veja essa daqui, se afasta um pouco, e depois sempre retorna e choca-se com o vidro. Veja!

A menina tentou olhar para a mariposa por algum tempo e acompanhou o vôo em espiral. Mas logo desviou os olhos para mais lá dentro, para os cômodos além da sala, uma escuridão dentro da qual as lamparinas não alcançavam. E apontou mais uma vez. 

- Traga-a para cá. – O papai levantou e estendeu os braços. 

E ouvimos o segundo grito. Dessa vez, não agudo e nem curto. Foi como se não viesse daquela garotinha, como se de outro lugar ou de outra pessoa. A mamãe correu para fora com a filha agarrada fortemente aos braços, e chamou pelo esposo. Entre nós havia um médico, um parteiro, e logo foi socorrê-los, levando o dorso da mão ao pescoço da criança.

- Ela pode estar febril…

- Mas não está…

Aos poucos, num levantar-se, as visitas foram se despedindo do anfitrião. “Já é tarde; afinal, todos precisam descansar para amanhã”. Mas não era tarde, e haviam chegado há pouco. Mas foram-se todos.

O pai, segurando uma lanterna. A mãe, levando a filhinha, tampando-lhe os olhos. Levaram-na para o quarto. 

Nem mesmo os que se foram para longe dali conseguiram adormecer antes do nascer do sol. Foi a mais longa das noites. 

20.1.19

TWIN PEAKS REVISITADA



Passo a narrar fatos alarmantes, cujas origens antecedem os acontecimentos aqui relatados, e cujas implicações estão além deles.

(...)


O ventilador de teto da sala estava na velocidade mínima e fazia um ruído agradável aos ouvidos dela. Abaixo, sobre o tapete vermelho, Laura fazia as lições da escola totalmente recurvada sobre a mesa-de-centro; a TV ligada, um pouco mais à frente, quase inaudível.  Era assim que estudava, embora não parecesse nada confortável, pernas cruzadas, livros no chão e o caderno sobre a mesinha. Estava no último ano do ensino médio e o foco era uma vaga numa universidade. Pretendia ser arquiteta, gostava de artes e tinha habilidades para desenho. Havia por trás  o incentivo do pai, pois engenheiro. Era filha única e adorada. 

Mas ela tinha que encurvar muito a coluna para poder escrever sobre a mesinha, considerando a estatura. Uma moça alta e esguia. 16 anos apenas. Estava naquela fase em que a beleza feminina começa a ficar viçosa, com jeito de mulher nova se apresentando ao mundo.  Seus longos cabelos castanhos, pele branca e lisa, e um andar que chamava atenção ao passar na rua. 

Já passava das nove da noite, estava sozinha, os pais haviam saído para o jantar do mês do Lions Clube. Tudo trancado e muito seguro. Na TV, um filme qualquer, só pra constar. E de cima vinha a brisa leve do ventilador no mínimo. Laura consultou rapidamente o dicionário e o colocou de volta sobre o tapete, voltando ao exercício de redação. 

Foi quando ela notou que a brisa cessou de repente. Olhou pra cima e viu que as pás do ventilador haviam parado. 

Laura...

Ela ouviu aquela voz gutural.

Ao desviar a visão do ventilador parado, e buscar o lugar de onde vinha o chamado, ela deparou-se com um homem de rosto suado no outro extremo da sala. Seus cabelos eram longos, uma mistura de pretos e  grisalhos, ensebados. 

Ele já se movimentava, e vinha bem devagarinho, andando em círculos em torno do tapete, e cada vez se aproximando mais e mais, a cada volta que dava. Seu movimento tinha um quê de coreografia, como se fosse um ritual para chegar até ela. Usava um blusão sintético preto e vulgar de motoqueiros de estrada. Estava com o zíper aberto até o meio e mostrava o peito nu, onde se via a tatuagem de um coração vermelho.

Ela não ousou perguntar como ele havia entrado ali. Não havia como ter entrado, não havia.  Estava tudo trancado, havia alarmes, câmeras, todas essas coisas de segurança.

E ele veio se aproximando lentamente, não andava ereto, mas com os joelhos um pouco dobrados, meio agachado, andava desse jeito, mas não balançava o corpo. Os braços permaneciam abertos pra frente, como para pegá-la. A boca sempre aberta. Muito aberta, ao máximo. Mas não ria. Nada daquilo poderia lembrar sorriso ou mesmo um riso de maldade. Era a pior imagem que se  poderia ter de uma boca muito aberta vindo em sua direção.

E quando o homem chegou mais perto, ela viu melh or e nitidamente o quanto era vermelha a tatuagem em seu peito, quase cor de sangue. Um coração do tamanho de um punho tatuado no peito.

Foi quando ela percebeu.

De pronto, percebeu o cheiro dele. Aquele cheiro era conhecido. Cheiro de perfume misturado ao suor. O perfume lembrava muito o de uso do pai. 

Neste ponto, o homem já estava muito perto e poderia tocá-la, se quisesse. 

NÃO! PELO AMOR DE DEUS, NÃO! MEUS JESUS, NÃO!

Ela gritou. Fez um enorme esforço. Mas os gritos não saiam. E a visão foi turvando. Aquela bocarra aberta foi esmaecendo e se misturando a uma névoa envolvendo a sala inteira, até ela não poder mais enxergar nada.

O homem arrancou uma página do caderno, pegou uma caneta e começou a escrever. Escrevia bem devagar, tão devagar que parecia estar desenhando em vez de escrevendo. Alguma coisa ele escrevia ali em total concentração e cuidado nos detalhes, a bocarra aberta, quase colada ao papel, a respiração sendo jogada contra a folha de caderno escolar. 

Quando Laura voltou a si - não havia mais nenhuma névoa, e a visão estava límpida e nítida -, deu-se conta da possibilidade de poder fugir e escapar, pois o homem estava a escrever num papel de caderno, e parecia não se importar com ela, era a impressão que dava. Ela poderia fugir, se quisesse.

De imediato, ela mirou o corredor que dava para os quartos e correu. Entrou no primeiro quarto, trancou a porta, abriu a janela e pulou. E correu o mais que pode. Mas não o suficiente, pois algo a puxou fortemente pelo pescoço, e seu corpo foi jogado com força extrema para trás. E, neste  exato momento, ela ouviu um medonho urro gutural daquilo que a impediu de seguir. Talvez, se já tivesse ido ao inferno, pudesse ouvir algo semelhante e pavoroso vindo das profundezas. Mas, do fundo do seu cérebro, das memórias de pesadelos de desde a infância,  agora retornados como um flash sonoro para a superfície consciente, ela soube já ter ouvido aquela monstruosidade.  

* * *

Os alarmes dispararam em seguida. Vieram todos, os pais foram chamados lá do Lions Clube,  seguidos dos membros mais próximos da família. Acumulou-se uma enorme aglomeração de vizinhos. Sem demora, os policiais. Aos poucos, foram também chegando corujas a se alojarem nas árvores próximas. 

Os policiais encontraram  a janela de um quarto e a porta da sala abertas. Na sala, os móveis e objetos pareciam no lugar e arrumados. No centro da sala, livros espalhados num enorme tapete vermelho. O ventilador de teto estava ligado, as pás girando lentamente na velocidade mínima, a TV ligada no volume baixo. Laura não estava lá. Os pais caíram em desespero, a mãe saiu andando como uma louca em volta da casa a gritar o nome da filha.

Fizeram buscas na vizinhança. A polícia levou o smartphone da garota, cadernos, livros; deram uma busca completa nas gavetas, armários, coletaram provas. E olharam o principal, as imagens das câmeras de segurança. No entanto, não encontraram sequer um único registro gravado sobre aquela noite no sistema. Apenas ruído e estatística. 

De pronto, o delegado descobriu, no aplicativo de mensagens do celular de Laura, trocas de recados entre ela e um traficantezinho da cidade. Não eram somente mensagens de pedido e fornecimento de drogas, mas também declarações de amor, fotos, marcação de encontros secretos, juras, promessas. 

Pegaram o rapaz ainda naquela noite. Era um vagabundo qualquer de boné de aba reta e correntão no pescoço. Segundo um jornal no dia seguinte, "um pobre coitado da periferia". Mas já era maior de idade, 20 anos. Não tinha álibi, e nem quis falar nada. Apareceu um advogado de terno gasto. Não havia provas de que tivesse feito algo à garota. Afinal, fora encontrado em casa, umas três horas após o início das buscas, onde morava só. Mas havia drogas por lá, não muito, mas o suficiente para incriminá-lo como traficante. A PM o conhecia bem. No celular dele, troca de mensagens com Laura, vídeos íntimos de sexo, bebedeira, bacanal, e mais uma terceira pessoa.  Ménage à trois. E muita droga. 

Foram atras do terceiro no dia seguinte. Era um bem-de-vida, empresário, um tipo playboy bissexual, casado. Gente bem posicionada. Aquele mesmo jornal insinuou que pudesse ser ele o autor de não se sabia exatamente o quê, Mas, apesar da imprensa, a coisa ficou um pouco mais difícil entre a polícia e o terceiro. Apareceram advogados de todos os lados, bons ternos, gente importante e influente. E dinheiro. Bem como ninguém quis arriscar fazer acusações sem provas, mesmo porque a moça em causa estava apenas sumida. Agora, já se sabia, uma doidinha sumida.

- Essa dona é maluca.  - disse o terceiro - Vocês não perceberam ainda? É muito estranho a família não saber nada da má fama dela. Vocês não viram os vídeos? - Enquanto, do outro lado da mesa, o delegado tomava um xícara de café preto para tentar controlar o sono de uma noite perdida. 

A polícia tinha, diante de si, apesar da gritaria dos pais, apenas uma menor consumidora de drogas fugida de casa. Bem provavelmente, logo pela manhã de mais um dia, quem sabe, seria encontrada com alguém por aí. Ou voltando meio bêbada. 

Não demorou muito para saberem a resposta.

Dois dias depois, no raiar do sol, um velho agricultor, dono de uma propriedade próxima à cidade, encontrou um corpo enrolado em plástico transparente jogado na beirada de uma lagoa. Ao chegarem ao local, depararam-se, sob voltas e  voltas de plástico, com o corpo nu de Laura.

Estava repleto de hematomas, cortes e deformações provocadas aparentemente por mero uso de força física. Braços, pernas, ossos, dentes quebrados. Quando o pai a identificou, urrou como um louco. Foram obrigados a sedá-lo. O delegado admitiu nunca ter visto algo daquela natureza, apesar de sua passagem profissional por capital violenta.

Levaram o corpo para o IML. Nada daquilo que se vê em séries policiais de TV, nada de sinais e pistas deixadas por serial killers cerebrais fazendo desafios e corridas de gato-e-rato com investigadores obcecados. Apenas a violência exposta e brutal, feroz e bestial. Com uma única exceção, talvez. 

Na cavidade bucal, uma folha de caderno escolar cuidadosamente dobrada. Nela podia-se ler, numa caligrafia entre rústica, infantil e quase desenhada, uma mensagem escrita em caneta azul:

EU SEMPRE ESTIVE COM ELA. 
ASSINADO: BOB.


Marco Antonio

OS CARAS DA MESA AO LADO

“Fora da ciência, o progresso não passa de um mito.”
John Gray - Cachorros de Palha. 


Eu os vi naquele restaurante, estavam numa mesa bem próxima à nossa, em número de quatro. Lembro bem deles. Cheguei a comentar com o meu amigo:

- Aqueles caras ali naquela mesa. Olhe pra eles…

O meu amigo disse não ter notado nada de anormal, nem nas roupas, na aparência ou nos gestos, e achou engraçada a minha desconfiança, seja lá qual fosse.

- Eles estão bebendo cerveja da mesma marca da nossa. - ele brincou e encheu meu copo.

Eu e meu amigo estávamos ali para trocarmos ideias sobre a compra de um imóvel. Ele entendia do ramo. Na verdade, o seu trabalho. Eu o convidara para uma consulta informal.

- Compre agora! - deu aquele tipo de opinião de profissional - Os preços vão subir. Vão subir muito, pode acreditar em mim. O mercado imobiliário está aquecido.  A economia está de vento em popa, as expectativas são de manutenção do crescimento e de uma demanda crescente. Quem tem dinheiro está comprando tudo. Se esperar, meu amigo, pode perder uma ótima oportunidade ou vir a comprar bem mais caro daqui a um mês.

Ele era bom naquilo, inteligente, bem informado, sempre certeiro. E eu me decidi de imediato. Além disso, éramos amigos, bons amigos, velhos conhecidos. 

- Fechado! O negócio será fechado logo pela manhã - Prometi.

Terminamos o jantar na certeza de ter decidido fazer a coisa certa. Na saída, passamos pela mesa dos quatro, e nenhum deles deu pela nossa presença. O que parecia ser o mais velho falava pausadamente, enquanto os demais ouviam com atenção.

No dia seguinte, um pouco antes da hora do almoço, quando cheguei em casa, depois de pegar um trânsito totalmente caótico, encontrei a minha mulher tentando, em vão, sintonizar algum canal de TV.

- Só chuvisco, você está vendo? Todos os canais estão assim - ela comentou com ar de interrogação, parada no meio da sala, mostrando o controle remoto pra mim.

- Pode ser o cabo folgado. Ou o transmissor queimou. Meu celular também não tem sinal.

- Fechou o negócio? - ela perguntou. Havia esperança em seu rosto. Mas também apreensão

- Não deu...

- Deus do Céu! - Ela desabou sobre sofá da sala, deixando cair o controle remoto no chão. - Perdemos a maior oportunidade de nossas vidas. Afinal, o que aconteceu com você? O que deu em você? O que deu em você? - Ela repetia gritando sem parar - O que deu em você?

Três dias depois, nenhum de nós sabia ainda o que estava acontecendo, nem quanto tempo duraria. No início da noite, carros da polícia fecharam as avenidas principais da cidade. As emissoras de rádio, a única forma de saber o que acontecia lá fora, nada diziam além dos pronunciamentos oficiais. Estávamos no escuro, como se diz, sem telefone, sem celular, sem internet. Uma nota oficial anunciou o fechamento das escolas, repartições públicas, dos estabelecimentos comerciais e parques. Emitiram uma ordem para que ninguém saísse de casa, exceção para casos de emergência médica. Apenas os hospitais ficariam abertos, sob forte proteção da polícia e do Exército. Sem explicação alguma, apenas ordens.

Os dias seguintes foram como um rolo compressor. Falta de energia e de água; saques, pessoas correndo pelas ruas com pacotes de comida e enlatados, dava para ver da janela de nosso apartamento. Caos e violência. Passamos a sentir muito medo. Minha mulher provavelmente já havia esquecido o fato de eu não ter feito o negócio de nossas vidas.

No entanto, apesar do caos social e humano que avistávamos da janela, além das ordens oficiais pelo rádio com proibições de toda natureza, não ouvimos um único sinal de explosão ou ataque militar. Raros eram tiros aqui e ali.

Para a nossa sorte, por um tempo, teríamos um bom estoque de comida e enlatados, e só havia nós dois em casa. Mas tínhamos receio de que os vizinhos viessem. Não ousávamos sair ou abrir as portas do apartamento, nem as janelas, apesar do calor sufocante. Não foi fácil permanecer ali daquele jeito. Mas qual seria a alternativa?

A minha mulher deixou de lado aquele seu nervosismo inicial, talvez por ter percebido, antes de mim, o poço onde estávamos mergulhando, embora não soubesse de nada sobre o que havia causado tudo aquilo. Mantinha, para a minha perplexidade, uma serenidade nos gestos e nas palavras. Preparava a comida, respeitava metodicamente os horários das três refeiçoes, arrumava a mesa e a nossa cama, colocava os objetos de volta no lugar. Vê-la varrendo a sala dava um pouco de esperança. O mundo lá fora desmoronando, e ela varrendo o quarto, colocando com cuidado as roupas na gaveta certa. As últimas imagens daquele mundo ao qual estávamos acostumados desde criança, e que ainda tento carregar, são da minha mulher tentando manter as coisas em ordem.

Depois de alguns dias, não  teve mais jeito. Saímos à procura de água e comida. Fazer isso e fugir do inferno da cidade. Nessa fuga da metrópole, grupos perseguiam grupos, um mundo de pessoas fugindo e com medo de tudo, e ninguém sabia dizer a razão de termos chegado naquele ponto. Simplesmente não houvíamos respostas concretas, com a exceção de teorias malucas.

Para nossa infelicidade, nos perdemos um do outro. Nem mais uma vez a vi, e nem lembro de como ela se afastou e sumiu. Qualquer traço de esperança se esvaiu. Não era mais o mesmo mundo.

Agora, anos depois,  nos organizamos em tribos. Tribos rivais e sistematicamente agressivas umas com as outras, exceção para alguma aliança temporária contra outro agrupamento. Mas dizem que já temos alguma normalidade, se é que isso pode ser chamado de normalidade. Em verdade, um caos violento ao qual nos acostumamos com o tempo. A parte população que sobreviveu à fome e às doenças dividiu-se em espécies de tribos com nomes estranhos e lideradas com mão de ferro. Havia também os desgarrados, gente que não aceitou ficar sob comando de um pequeno tirano qualquer e saiu a aventurar-se por ai, enfrentando um dia incerto após o outro.

Passei a vida ouvindo falar da capacidade humana de adaptação. Sim, nos adaptamos. O tempo foi passando, fui deixando pra lá. De vez em quando, raramente, tenho um sonho bom, as cidades erguidas, carros, semáforos, pessoas atravessando ordenadamente pela faixa de pedestres; telefones, internet, condicionadores de ar; remédios contra dor, água limpa; lanchonetes, comida farta à venda em supermercados; supermercados gigantescos e suas prateleiras abarrotadas com uma variedade infindável de opções. Sonho ainda com a casa arrumada, a mesa posta, minha mulher fazendo todas aquelas coisas em seus mínimos detalhes, as roupas na gaveta certa, talheres, xícaras, a TV ligada, o sofá da sala, as pequenas coisas da ordem e da rotina doméstica. 

Recentemente, por uma sorte de uma em um bilhão, reencontrei aquele meu amigo do mercado imobiliário. Coitado, um trapo humano, quase irreconhecível. Eu também - ele disse - quase irreconhecível. Perdemos também aquelas maneiras gentis de esconder a verdade sobre a aparência envelhecida, desgastada ou doentia de um amigo após muitos anos distantes um do outro. Aliás, foi muito rápido como todas as formas de convivência civilizada se deterioraram. Afinal, não faz tanto tempo assim.

- Você lembra da última vez em que conversamos? Foi naquele restaurante perto de um shopping enorme. Era muito bom aquele lugar, não era? Aliás, tudo parecia ser muito bom... - Eu disse.

- Sim, lembro. A parte do bar era muito bonita, sempre iluminada com cores vivas por trás das garrafas nas prateleiras.

- Era um lugar muito bom!

- Lembro também de você ter apontado para os caras estranhos. Você lembra disso?

- Sua memória ainda está boa, meu amigo, apesar de tudo, apesar de seus cabelos já quase nem existirem mais.

- Mas eu não percebi nada neles. Eu juro! Juro que não percebi…

- Eu sei disso. Mas talvez tenha sido apenas um engano meu. Só um engano, talvez… e não poderíamos ter feito nada... então... - eu sorri.

-  Não, não poderíamos.

Foi uma conversa rápida, o grupo dele se aproximou e logo nos afastamos. Não perguntou sobre a minha mulher, nem eu pela família dele. Neste ponto, fomos muito gentis um com o outro. E não nos vimos nunca mais.

Marco Antonio.