Quando anunciaram o fim do mundo, ninguém ligou. Quer dizer, a imprensa inteira alardeou a previsão, mas a vida continuou como antes. No dia seguinte ao anúncio quase solene, as escolas e as empresas funcionaram normalmente, o trânsito fluiu com guardas e semáforos em atividade, nem mais e nem menos buzinas. Duas noites depois, estreou uma nova novela televisiva, e a previsão seria para durar meses, mas o jornal do mesmo canal passou duas horas comentando sobre o fim dos tempos. No dia seguinte, o apresentador dedicou pouco mais de dez minutos ao assunto e, no tempo restante, apresentaram entrevistas com atores, diretor e autor do roteiro.
A normalidade era até exagerada, com os mais comuns dos meus amigos afirmando que “coisas acontecem, mas depois passam”. Na terça-feira, veio a notícia de que um maremoto invadira a Índia, a Tailândia, o Camboja e o Vietnã. Mas as notícias em nada pareciam abalar a serenidade dos meus colegas de trabalho. Chamei-os para conversar sobre os fatos recentes e extraordinários, o supervisor de área enviou-me para o departamento de recursos humanos, onde fui imediatamente informado de “que não era por aquilo”, mas estava dispensado. Sem emprego, aproveitei para ir ao psicólogo. Perguntei sobre o que ele achava de tudo aquilo, a plenitude da normalidade frente ao fim de todas as coisas. O psicólogo Cássio, com relativa indiferença, escreveu num papel o nome e o telefone de um psiquiatra, caso eu preferisse uma ajuda médica robusta, mais aconselhável para o meu caso, segundo palavras dele. Sempre confiante nas opiniões do psicólogo Cássio, fui ao psiquiatra.
Impressionou-me o consultório. Amplo, imenso, eu diria. Devo aqui descrever o ambiente, merece os parêntesis. Quatro sofás forrados de fino tecido formavam um retângulo no centro. Poltronas numa extremidade e, na outra, uma pia de bronze fosco. Na parede frontal à porta de entrada, logo atrás da mesa do doutor, um imenso quadro, uma pintura em óleo, um tanto abstrata, mas dava para ver ali o que poderia ser o retrato do homem que estava a me receber gentilmente.
Voltemos aos fatos como foram.
- É o senhor?
- Sim.
E foi logo ao assunto da consulta, afirmando que estava sempre pronto a atender pacientes de Cássio, mas fazendo questão de dizer que sua agenda era um pouco concorrida, pois a próxima consulta seria para “daqui a dois meses”, bastando fazer o uso correto da medicação que acabara de anotar no receituário.
- Dois meses? E o fim do mundo, doutor?
- Não há com o que se preocupar, por enquanto.
No dia seguinte, o presidente dos Estados Unidos, da Casa Branca, no Salão Oval, falou em rede de televisão e internet, com tradução simultânea para todas as línguas do planeta.
- Senhores, o mundo vai acabar.
“Agora vai”, pensei.
Não demorou e ficamos sabendo que vulcões enormes em três continentes expulsaram chamas, lavas e cinzas até a estratosfera. Não víamos mais o sol, menos ainda a lua e as estrelas. O brilho do dia não durava uma única hora inteira, nem mesmo ao meio-dia nos trópicos. Mas as escolas, supermercados, postos de saúde, hospitais, clínicas odontológicas e até mesmo as clínicas de emagrecimento continuavam abertas e frequentadas. Os bancos recebiam investimentos e ofertavam empréstimos como se sempre houvesse o amanhã para pagar, consumir, trabalhar e viver.
Retornei ao Dr. Michel, expliquei sobre a minha situação, implorando, pois o meu caso era grave e urgente, era evidente o meu elevado nervosismo. O doutor veio pessoalmente receber-me, apesar do olhar severo, reclamando que fora obrigado a interromper uma consulta com um paciente da psicóloga Lúcia, mas que somente estaria abrindo exceção por eu ser paciente de Cássio.
Ao sentar-se, com calma, atrás da imensa mesa de madeira sólida, apontou para o quadro logo atrás, e perguntou:
- Quem o senhor vê?
- O senhor, doutor Michel.
- Olhe melhor, observe a pintura com mais atenção e interesse redobrado.
- Pode ser que seja eu, doutor Michel?
- Muito bem, muito bem. Já é um bom início para o seu caso. Achamos que tudo gira ao nosso redor, não é? Sentimos que somos o centro, o umbigo, os sentimentos mais íntimos valendo mais do que podem de fato ser.
- Desculpe, doutor, o senhor não vê que não há mais dia neste mundo? As cinzas caem sobre tudo e todos, olhe pela sua janela, veja as ruas, elas estão forradas dessa coisa vulcânica, mal conseguimos respirar, fui obrigado a utilizar uma máscara para chegar até aqui.
Antes do encerramento da consulta, vieram os trovões, seguidos de raios. Tudo tremeu naquela sala, o quadro vibrou em sua moldura sob aqueles estrondos vindos do alto. A pequena estatueta de bronze sobre a mesa tombou e rolou até o chão.
- Não sei como o senhor pode reagir assim, doutor.
- Sim, sim, você está certo, mas não é nada ainda.