30.5.26

COPA DO MUNDO

Chegaram os três retardatários. Agora éramos nove na ampla sala de Manuel. Escolhemos o apartamento dele, não somente por ser maior, a TV era grande, além de ele ser o único solteiro, e aquele era um encontro de homens para assistir ao primeiro jogo da Copa nos Estados Unidos, Brasil x Marrocos. Venceu o grupo que preferia a TV sem volume até o início da partida. Éramos ex-colegas de universidade, não do mesmo curso, contemporâneos apenas, uns dois vieram amigos desde o ensino médio.


Mas havia uma diferença entre aquela Copa e as anteriores, nenhum de nós sabia a escalação da Seleção Brasileira. Fernando, o de Física, fez uma brincadeira, afirmando que talvez estivéssemos numa realidade paralela, onde não fossemos brasileiros, uma explicação para desconhecer os jogadores nacionais. Mas a verdade é que ninguém parecia se importar, estávamos ali porque havia se passado quatro anos desde a última reunião completa.

Como a TV estava só com a imagem, os jogadores ainda fora de campo, ficamos a falar de assuntos banais típicos de reencontro. Manuel, de imediato, anunciou que finalmente iria pedir Lúcia em casamento. 


- Não dá para adiar mais, ela pode arrumar outro.


E vieram aquelas coisas de sempre, palmas, euforia, abraços apertados.


- Teremos esposas da mesma profissão, Manuel - Sother comentou.


- E como está você com Betinha, Sother?


- Como sempre, mas tem horas que dá vontade de ter uma vida diferente.


E continuamos a falar de trabalho, filhos, viagens de férias, mudanças de profissão e do desafio de montar um negócio próprio. Na tela, os jogadores já perfilados para os hinos nacionais. Acionamos o som e aumentamos o volume. Podemos nem saber o nome dos atletas em campo, mas nos apoiamos uns nos outros quando a partida está perto de começar. O locutor, numa evidente empolgação, gritou ao final do Hino brasileiro: 


“Vamos ao bicampeonato!”


- Bicampeonato? Ele deve estar bebendo. - Rafael soltou uma risada.

Foi quando a luz apagou.


Como já era noite, os lamentos se fizeram ouvir. Olhamos pela janela, sétimo andar, e a cidade estava um breu. Aos poucos, pequenas luzes aqui e ali, talvez de celular ou de lanternas. Fizemos o mesmo, e aguardamos. Percebemos também que os sinais de celular foram sumindo, uma operadora após outra. 

Uma hora depois, desistimos. E descemos os lances de escada. Eu e Rafael viemos e voltamos no mesmo veículo, eu de carona. Ele ligou o rádio do carro, encontramos uma única emissora transmitindo. Era só música, parecendo ser uma dessas estações em que não há uma só alma no estúdio, as músicas rolando sozinhas. Era uma playlist de rock progressivo, tocou Pink Floyd, Genesis, Emerson Lake & Palmer, até o Yes.


- Você gostava disso, Rafael?


- Nunca, músicas longas e chatas. Preferia Heavy Metal. Mas hoje eu não ouço mais nada.


- Essas músicas são a cara de Betinha. Você acredita que ela ainda põe pra tocar quando vamos lá?


- Ubaldino, - Rafael interrompeu a conversa - não tem luz alguma, e já atravessamos boa parte da cidade.


- O que será? Talvez um blecaute geral.


- Procure mais uma vez, veja se há alguma estação no ar além dessa, mude de faixa, para curtas, longas, AM.


- Vou tentar. - Percorri as faixas todas. Encontrei uma outra, a voz era cortada, que ia e vinha, e se misturava ao ruído. Mas deu para ouvir um trecho, dizendo que o jogo havia acabado, vitória do Marrocos. E, com mais clareza:

“… o bicampeonato fica mais difícil agora…”


E cortou.


- Ele falou em bicampeonato. - Rafael elevou a voz - Como é possível isso? Pela segunda vez? Você ouviu, Ubaldino?


- Sim, ouvi.

24.5.26

FOTOGRAFIA

“Eu ainda tenho uma foto de Lúcia”, ele disse, abrindo a carteira e tirando dali uma fotografia. Era ela, sentada em um banco da praça, árvores ao fundo, frondosas, também flores e o gramado, as cores já desbotadas. Usava um vestido de cor-de-rosa, um rosa claro, parecia ir até os joelhos. Ela sorria, talvez à frente dela este meu amigo, mas também tudo que estaria por vir, a esperança, o futuro, ela era jovem, bela. Ao seu lado, uma bolsa, de couro, um pouco grande, e também alguns livros, uns três, empilhados uns sobre os outros. Naquela época, ainda era estudante, talvez no último ano do curso. Mas o que se poderia retirar a mais dela, além do que já sabemos, já estaria ali tudo aquilo que veio depois? Ou seria apenas o momento, congelado, sem as consequências dele, pouco ou nada para se intuir sobre o depois? Enquanto eu olhava para ela, o meu amigo chamou o garçom, e pediu uma cerveja, também um tira-gosto de batatas fritas. A cerveja chegou primeiro, quando entreguei de volta a fotografia. Ele a guardou e se pôs a olhar para fora, através do vidro da grande janela atrás de nós, o olhar longo, comprido, dava para saber que pensava nela, e fez-se um breve silêncio entre nós, e deixei o silêncio se prolongar, não o interrompi em seu devaneio. Mas, enfim, brindamos. Falamos sobre o jogo do dia anterior, pulamos para a inflação, para o governo, a política, e voltamos para o que estava lá o tempo inteiro. Vieram as batatas, e outra cerveja. E entre uma coisa e outra, o olhar perdia-se para a janela atrás de nós. Atrás de nós estava a praça, o banco, as árvores, as flores, o gramado. Entre comentários sobre o andamento do campeonato de futebol e o filme que acabara de estrear, o breve ou longo silêncio interrompendo o encadeamento dos fatos, até que as horas se foram, lá fora o sol descera, fazia algum tempo. E nos levantamos e nos despedimos. Na saída, ele preferiu não olhar para as árvores em frente, e nem para os bancos da praça e seus jardins floridos da primavera. Fui eu quem o fez, e mirei o passado ali diante de mim. 

23.5.26

ONDAS

Ela recebera a carta numa quinta-feira, o carteiro a entregou em mãos, era a caligrafia dele, escrita aparentemente numa folha de papel de caderno escolar, onde dizia correr tudo bem, conforme o planejado, fazendo questão de lembrar do seu sentimento verdadeiro e de longas saudades dela; e reforçava que estaria, em breve, de volta aos braços da amada. Ela dobrou o papel em quatro e o beijou, guardando-o numa gaveta da penteadeira. Três meses depois, uma outra missiva muito aguardada. O tom era outro, relatava mudanças de planos, imprevistos, e que talvez demorasse mais tempo para retornar. Ela notara, de imediato, o papel; não era o mesmo de antes, era uma folha lisa e sem linhas, embora a caligrafia fosse a dele, mas dando a transparecer que fora redigida com pressa, os garranchos sobretudo pontudos, as curvas muito acentuadas e mais fechadas. Mais uma vez, ela dobrou o papel e o guardou na pequena gaveta de antes, mas sem beijá-lo como fizera da vez anterior. Elisa levantou-se, não sem antes fitar bem o seu rosto no espelho logo ali em frente. Dali em diante, foram dois anos sem qualquer carta dele, bem como não lhe enviou qualquer resposta. O tempo suficiente para conhecer um outro amor. Muito rapidamente, o casamento. Vieram filhos, dois, um menino e, depois, a menina. Prosperaram, mudaram de casa, as cartas foram jogadas fora na primeira mudança, bem como a penteadeira fora entregue a uma tia. Traços do passado se apagando, vieram os desafios do próprio casamento, o filho mais velho fora morar no exterior, o noivado da filha, a morte dos pais, dos tios, as referências que se iam, e as coisas novas substituindo as antigas. Mas aquelas cartas, embora já destruídas, permaneciam lá escondidas no recôndito da alma, em um lugar pequeno, quase nunca visitado, invisível, difícil de acessar, uma ferida quase cicatrizada, mas se tocada, abria-se em sangue. Nem mesmo uma notícia vinda de algum conhecido ou de um parente distante. Havia morrido, estaria com outra, construíra, como ela, uma família? Nada. Mas veio uma terça-feira qualquer, quando ele voltou. Sem aviso algum. E não era mais ele, décadas se passaram, nem mesmo um traço daquela lembrança cada vez mais esmaecida. E ela o estapeou no rosto, quando ele disse quem era, direto no seu rosto envelhecido, seguida de uma voz que não parecia ser a dela, talvez de uma outra coisa lá de dentro. Houve um recuo, mas ainda tentou insistir, quando ela o afastou e bateu-lhe a porta na derradeira tentativa de aproximação. Quando o marido retornou, já um pouco tarde da noite, a encontrou como em todas as vezes anteriores, mas dessa vez ela avisou-lhe que não havia feito o jantar, e teriam que ir a um restaurante. E foram. Mas pela primeira vez, ela contou-lhe sobre aquelas cartas e que delas havia se libertado finalmente naquele dia. O marido quis saber quem era ele, mas Elisa dispunha apenas daquilo do passado, de uma época em que não havia sequer conhecido seu futuro esposo, nada sobre o presente, e não a mínima ideia de como ele a havia encontrado. Mas o marido não se deu por satisfeito com as poucas e ralas justificativas. E o encontrou. Deparando-se com ondas do passado, cartas, juras de amor vencidas, pequenas memórias e feridas da mocidade, mas nada que o fizesse estabelecer um sentido para o presente e, muito menos, para o futuro. Apesar dos apelos, não dera ouvido aos amigos, nem aos colegas do trabalho a insistirem para que esquecesse aquelas bobagens de pessoas ainda muito jovens e inexperientes na vida; muito menos aos parentes próximos e íntimos nas vãs tentativas de fazê-lo desviar do seu intento. Os filhos, já independentes, vieram em seu socorro, mas aquele mundo, assim como veio sem aviso no seu devido momento, de uma hora para a outra, fora deslocado do lugar em que até então repousava, agora impulsionado por uma vaga vinda de outras épocas, o reflexo desse mar que se acalma e se revolta de tempos em tempos. E nessa última vaga, aquele mundo, inesperadamente, se desfez. 

22.5.26

ROBERTA SPARROW

O relógio do fim do mundo parou exatamente às 23 horas, 59 minutos e 59 segundos. Houve aquela suspensão absoluta, nem mesmo um respiro. Convidaram o conhecedor da filosofia do tempo, o Dr. Manuel de Assunção, festejado nos meios acadêmicos, autor de livros e compêndios sobre causalidade, universos paralelos e da íntima relação entre entropia e a estrutura do cosmos.  O veredito, preciso, sem mais delongas e direto: o tempo havia se esgotado e a sociedade, dali em diante, estaria em permanente vertigem e eternamente à beira do colapso. Por via das dúvidas, ouviram uma segunda opinião, um engenheiro, um prático, o engenheiro mecânico Rafael, homem de vasta experiência nos diversos equipamentos de uso militar, científico e industrial. O especialista analisou as engrenagens e, após muito pensar, repensar e calcular, afirmou que bastaria “tirar esse pino aqui” e, logo, o relógio seria destravado. Ouviu-se um “não” e, depois, “Não faça isso!”.


Ante aquela situação inusitada, optaram por viver à beira do colapso, segundo os prognósticos do Dr. Manuel. Como não se sabia o que havia feito o relógio parar, também não se tinha a menor ideia de se ele poderia voltar a funcionar sem aviso algum em direção ao abismo. A decisão, aceita por todos, foi a de isolar o relógio.


Fortalezas imensas foram erguidas, uma após a outra, numa sequência praticamente interminável de vigilância, homens e máquinas em permanente prontidão, vinte e quatro horas por dia. Além disso, não se podia mais medir nada em horas. E, consequentemente, a mania de se medir o passar dos minutos fora completamente abandonada. Apesar da presença permanente da dissolução e do abismo existencial, aflorou entre todos um sentimento de liberdade, agora que as amarras da pontualidade haviam se afrouxado. E a morte? O envelhecimento?


Não se ativeram muito aos detalhes, visto que não demorou para o Exército do Norte atacar. Embora a presença do deserto, o imenso, o implacável e intransponível entre eles, a possibilidade de invasão seria praticamente improvável, pequeníssima, apesar da permanente prontidão militar por mais de um século. O inimigo fez o primeiro ataque com elefantes. Mas os canhões do Sul, em sua precisão e em orgulhosa potência, foram decisivos. Os elefantes, lentos em seus movimentos, pesados e previsíveis, foram bloqueados ainda durante a primeira fase do avanço, quando ainda muito distantes das cidades a serem esmagadas. De súbito, veio a surpresa, após o último elefante cair, quando os inimigos lançaram os tigres, animais leves, velozes e loucos, pouco ou nada previsíveis, ignorando a presença dos canhões e das metralhadoras, como o próprio ar em ventania a passar por cima de qualquer coisa. E os tigres invadiram facilmente as pequenas cidades situadas nos limites do deserto. Uma queda rápida, sangrenta, e com o mínimo de reação.


Os homens do Norte, em suas enormes máquinas de guerra, as defesas já inexistentes, fincaram finalmente a bandeira tremulante da vitória, quando, talvez na execução de um plano desesperado e último, retirou-se o pino que parecia estancar o tempo para o abismo final. Naquela batalha derradeira, já vencida pelo inimigo, o sino do relógio tocou no alto da torre central. Apenas um toque, único, a última hora, o suficiente para o som espalhar-se pelos quadrantes da terra atravessando as densas florestas, descendo os vales, por sobre as montanhas, e prosseguindo além do mundo conhecido, muito além do deserto do Norte, além dos mares e dos oceanos. 

23.4.26

SLEEP

Os sonhos vêm e vão. A mercearia, muito pequena, prateleiras próximas, corredores apertados, mercadorias indistinguíveis. Eu a vejo, está lá no fundo, mas está longe, não a alcanço nem mesmo com o olhar, a visão é embaçada, como se debaixo d’água da turva, a pouca nitidez não permite distinguir olhos, boca, nariz, se está ou não usando óculos, mas sei que é ela, porque lembro da última vez em que a vi, faz muito tempo, quando éramos jovens e mundo era uma novidade para nós. Tento vê-la agora, mas sempre distante, não somente a distância, como se lá nunca estivesse, nem eu também. Talvez tenha sido sempre assim, as escadas da escola eram largas, os corrimões arredondados, descíamos juntos, eu a ajudava a levar os livros, uma moça frágil, leve, andava como uma garça, cabelos loiros e finos, os fios embaralhavam sobre a face, a face muito branca, e pouco ou nada sorria, o que impedia de conhecê-la, ela, seus interesses, alma e os pensamentos. A última vez em que a vi foi naquela escada, não imaginava que pudesse ser a última vez, mas ali, ao final dos degraus, nos separamos, e nos separamos para nunca mais, apenas agora presente nessas visões embaçadas e sem palavras. Dá-me a impressão, no dia seguinte, que não mais existe ou, se ainda permanece neste mundo, possui outra forma, tão diferente daquela que outrora exibia, talvez impossível distingui-la de tantas formas que vieram e se foram. A mercearia, prateleiras tortas, corredores estreitos, corredores difíceis de percorrer, mas ela nem sempre está ali, somente a esperança. Às vezes, sim; às vezes, não. Não há como saber de sua presença quando você ainda está adentrando a mercearia, somente quando já está lá no meio do labirinto de prateleiras, várias delas repletas de produtos, mas outras estão vazias, sujas, quebradas, e é fácil e comum perde-se lá dentro, e nunca há como sair. Os sonhos vêm e vão. Passam dias, meses, sem tê-los, mas voltam, sempre voltam. E o relembrar de ter descido as escadas, os degraus de madeira, madeira antiga, lisa, pesada, os detalhes cada vez menos nítidos, ao ponto de desaparecem totalmente, menos ainda a visão do que havia ao redor. Os sonhos vêm e vão e, quando retornam, não são exatamente como foram antes. Sempre fora do controle e da vontade. Cada vez uma visão diferente, uma ilusão diferente; e a memória, a realidade e as lembranças de Betinha vão tomando outras formas. 

MÁQUINAS

Em dezembro há a reunião das máquinas aqui em Duas Serras. Elas realizam o encontro no estacionamento de um supermercado abandonado, onde o mato cresce durante o ano quebrando o pavimento que poucas décadas antes era ocupado pelos automóveis. As primeiras a chegarem cortam o mato e consertam as rachaduras. Chegam depois as arrumadeiras. Erguem barracas para exposições de peças de reposição, e deixando tudo pronto para a chegada de vários modelos, de todos os pontos cardeais, que convergem para aquele lugar.


Bom dizer que as pessoas compram tudo, tudo aquilo que no passado era vendido em mercados, agora fazem em aplicativos hiper conectados, e os produtos chegam por entregas feitas por máquinas. É um tanto estranho que elas tenham decidido fazer a festa anual no lugar onde havia a confluência diária dos humanos. Poderiam ter construído facilmente espaços próprios e mais adequados. É possível conceber que se trata de uma vingança, mas pode ser qualquer outra coisa que elas criaram. São eventos pacíficos, elas ficam ali durante o mês inteiro, mas não interrompem as entregas, vão e voltam. E parecem apreciar coreografias, sobem umas sobre as outras, na vertical, formando torres imensas de luzes piscantes; uma outra coreografia, muito peculiar, que realizam nestes eventos ocorre quando se espalham no plano horizontal do antigo estacionamento e dão pulinhos, uma aqui, uma outra acolá, e não há como prever qual será a próxima a fazê-lo, um balé aleatório e imprevisível.


Sabemos disso por imagens que nos chegam, ninguém se atreve a assistir ao espetáculo presencialmente. Não por medo, eu acho, mas por ser o encontro delas. Há também o momento de emissão de sons, sons de máquinas, nada que possa assemelhar-se ao humano, não é música como a conhecemos, não faz sentido aos nossos ouvidos. Sabe-se que realizam também reuniões delas em outras localidades, além da grande convenção mundial, em junho.


Em junho, elas voam, todas elas, e dirigem-se para um continente escolhido ninguém sabe como. Nos dias da reunião mundial, não há como receber produto algum nas residências. Como não estamos mais acostumados a sair para comprar, e nem há onde comprar, abastecemos as despensas um mês antes.


Mas a mais esperada por aqui é a local, e todos esperam que dezembro chegue logo.

6.4.26

CASA

Ela foi até o frigobar e retornou com cerveja, dois copos, cada um deles pela metade. E deu um para o marido. Brindaram, como é comum nessas ocasiões em que casais completam aniversário de casados. Ele a tomou como a sua mulher num sábado ensolarado, a capela era pequena, nem dava para todos os convidados lá dentro, muito menos sentados. E lá fora o céu sem nuvens deixava o sol penetrar por todas as fendas, mas não fazia calor algum, o inverno apenas trazia frescor naquela celebração da união entre eles; e foi o que eles sentiram quando brindaram os trinta e cinco anos do matrimônio que passara ileso por todos os anos, especialmente quando o deserto avançou, tomando toda a região. Além da casa deles, pouquíssimas ainda existiam, e nenhuma por perto, podia-se andar quilômetros sem passar por uma única alma, e havia as tempestades de areia, e ainda bem que construíram aquele lar totalmente protegido da fina areia que soprava por meses sem dar qualquer sinal de alívio. Antes dele, ela tomou um pequeno gole. Colocou o copo sobre a mesa de centro e foi em direção à vitrola que ainda mantinham como lembrança, uma nostalgia agradável dos primeiros anos. Colocou a agulha sobre o disco e apanhou o copo para um segundo gole, e o marido tomou o primeiro, mais longo, e sorveu todo o líquido de uma só vez, e foi até o frigobar para reabastecer. Ela disse que estava satisfeita, que não precisava de mais, enquanto do aparelho de som saía a música lânguida de uma voz de mulher, uma voz envelhecida, suave, emocional. Eles nunca punham em volume alto, apenas suficiente para quebrar um pouco o silêncio do deserto ao redor quando não era tempo de tempestades. Como no casamento de décadas antes, não fazia frio, nem calor, apenas a sensação de felicidade, bem-estar, como se o mundo lá fora pudesse ser a extensão daquele lar. Horas depois, ela já adormecida sobre o sofá, ele abriu a porta da frente e mirou as estrelas, a Via Láctea cortava o céu, de um ponto ao outro do céu, um caminho iluminado no firmamento. Mas logo veio um vento, rápido, uma rajada, seguido daquele som que antecipa as tempestades de areia. E ele fechou a porta, nela não havia frestas, nem a mínima fresta em nenhum lugar, tudo hermeticamente fechado, como um ovo, e dentro dele caminhou em direção ao sofá, já um pouco sonolento, e deitou-se aninhando-se ao lado dela.

5.4.26

FLORESTAS

Na floresta, quando a noite desce sob o céu, e as estrelas mais distantes podem ser vistas cintilando como vagalumes, e os vagalumes piscam aqui e acolá, e o vento frio sopra por entre árvores centenárias e imensas, somos tomados por aquele sentimento do sobrenatural, um outro mundo paralelo invade o nosso e nos comunicamos com espíritos e entidades que fogem quando brilha a luz do sol, mas novamente emergem das sombras quando a noite cai.


Mas não temos esta mesma sensação do estranho e do incógnito quando somos atendidos no caixa do supermercado, embora ali estejam as maiores mágicas de quando o Homem começou a habitar a Terra. Milhares de dados incompreensíveis circulam por cabos e até mesmo pelo ar, invisíveis, e as imagens aparecem nas telas, e dessa forma adquirimos o que comemos, vestimos e utilizamos em nosso cotidiano em Duas Serras. Pura magia. Embora acreditemos que tudo é lógico, racional, real, palpável, compreensível e sob a nossa vontade. E nem sequer pressupomos forças poderosas invisíveis controlando a existência e os passos que damos, quando o semáforo determina que paremos ou andemos, quando os dispositivos realizam as operações nas quais confiamos o presente e o futuro.


Mas quando saímos dessa rotina diária e adentramos florestas ou mares, nas montanhas e desertos, e a natureza ergue-se numa força descomunal e cai a chuva com trovões e relâmpagos, em estrondos que fazem vibrar o chão e as pedras, vem o medo mais primevo e irracional, nos igualando aos primeiros humanos.


E tudo volta ao normal quando retornamos à vida urbana.


Ledo engano.


Aquelas máquinas, pequenas e grandes, carregam a mesma força e o mundo desconhecido e indomável que as movem. Nada é diferente daquele das florestas sombrias e profundas. Apenas nos convencemos e acreditamos que o cotidiano é controlável. Não. Observe quando vem de lá um carro, seus faróis acesos contra nossos olhos. Quem nos garante que não há dentro daquela máquina, bem lá em suas entranhas, as forças que fazem uivar o ar quando o vento sopra entre as árvores na escuridão completa? Por que nos tornamos tão crédulos? 

30.3.26

CORRA!

Cheguei por volta das dez da manhã e andei com pressa para fora da estação rodoviária em busca de um táxi, tinha horário marcado. Ao aproximar-me do automóvel, esbarrei numa pequena muralha de pessoas, quase atropelado por um homem que corria e gritava


 "corra, corra!"


Em volta, todos fugindo de algo, inclusive o taxista não estava mais ali, o carro abandonado com as portas abertas. Num movimento instintivo, também segui a corrente. Alguém emparelhou comigo, deu tempo de perguntar e ouvir a resposta:


- O que está acontecendo? 

- Corra!


Olhei para trás, na intenção de enxergar de que coisa me afastava. Mas vi algo. Não sei o quê, se um vulto, uma forma, uma mera impressão, uma presença, ou somente um impulso para correr. 


- Corra mais! - Alguém passou aos berros: - Está muito lento!


Foi quando senti que evitava algo que estava cada vez mais perto do que antes, e a cada passo que eu dava, sentia a distância ficando mais curta para o inevitável.


Acelerei.


O coração subia, não dava mais, e veio aquele frio, não um vento, mas um deslocamento gélido do próprio espaço que nos curvou para o chão e fez todos caírem como pedregulhos ao longo do caminho.


Olhei em volta.


Ao redor, um amontoado de adultos, homens fortes, mulheres, crianças e idosos. Minutos depois, alguns se levantaram, outros permaneceram inertes. Fui em direção a uma velha senhora que tentava erguer-se com dificuldade.


- o que foi isso? - perguntei.

- mais uma vez, ela veio. Hoje, duas vezes.


Apontei para um jovem caído ao nosso lado, o rosto como o sal.


- Ele está morto. - Ela falou e virou-se de lado, mirando o outro lado da rua.

- De quê? - Indaguei mais uma vez, mas ela havia se afastado.


Olhei ao redor, mas sem a menor ideia ou razão de um lugar para ir. A velha senhora aproximou-se, e fez um gesto brusco com a cabeça:


- Vamos!


Puxou-me pelo braço, caminhamos duas ou três quadras à frente, desviando dos caídos, um pouco mais adiante de onde estávamos, e entramos numa pequena capela. Ela começou a falar, quando nos sentamos. Eu a olhava com desconfiança, e deixava transparecer um tremor enquanto a ouvia.


- Vejo que você não sabe de nada ainda. 

- De quê?


- Ela vem, derruba como se fosse só num sopro. Rápida. Você não sabia? 


- Parece que escapamos por pouco, minha senhora. Nem bem cheguei aqui.


- Não por pouco, não por muito. - Esticou o braço e apontou para a porta.


- Se chegou agora, veja essas pessoas caídas lá fora. Antes da chegada daquilo que você talvez tenha visto, seria de causas naturais ou não. Mas ninguém escapa para sempre.


Fazendo questão de mostrar os corpos caídos, ela curvou-se para a frente e depois fez um gesto de negação com a cabeça de um lado para o outro.


- Você a vê se aproximando, vindo, rápida, e é só isso; pode correr, mas somente por instinto, como fez há pouco.


Parecia não ter mais pressa, e continuou a explicação, agora sem a afobação de antes. 


- Nos primeiros dias, foi como a vida no paraíso, os hospitais esvaziados, nem mesmo uma só alma para um médico cuidar.


E concluiu.


- A ilusão quebrou-se num único e primeiro dia, meses depois, não anos, sem qualquer aviso, apenas aquela gente em disparada.


Já mostrando-se cansada do ir e vir, a mulher abaixou o olhar, colocando as mãos sobre o rosto. Mas, como se num contraponto, os braços levantados, elevou a voz em apelo.


- As pessoas não aprendem! Não adianta implorar ou cair de propósito. 


Aproximou-se mais, sussurrou, quase ao pé do meu ouvido.


- Os corpos permanecem jogados, até por dias seguidos; os abutres aparecem depois, vorazes, feras imensas, a tirar pela envergadura das asas quando se abrem, não parecem ser deste mundo.


Interrompeu a voz, olhou-me fixamente e perguntou.


- De que lugar você vem?


- De Duas Serras, a apenas uns cinquenta quilômetros de distância daqui…


Também interrompi a voz. Houve um breve silêncio. 


- Elisa, minha amada, minha filha. Ela mora lá também. Mas vocês não sabem? - Ela implorou por uma resposta, e repetiu, fazendo um gesto de mão, como que num pedido e súplica - Não sabiam de nada? 


- Talvez seja só aqui.