30.3.26

CORRA!

Cheguei por volta das dez da manhã e andei com pressa para fora da estação rodoviária em busca de um táxi, tinha horário marcado. Ao aproximar-me do automóvel, esbarrei numa pequena muralha de pessoas, quase atropelado por um homem que corria e gritava


 "corra, corra!"


Em volta, todos fugindo de algo, inclusive o taxista não estava mais ali, o carro abandonado com as portas abertas. Num movimento instintivo, também segui a corrente. Alguém emparelhou comigo, deu tempo de perguntar e ouvir a resposta:


- O que está acontecendo? 

- Corra!


Olhei para trás, na intenção de enxergar de que coisa me afastava. Mas vi algo. Não sei o quê, se um vulto, uma forma, uma mera impressão, uma presença, ou somente um impulso para correr. 


- Corra mais! - Alguém passou aos berros: - Está muito lento!


Foi quando senti que evitava algo que estava cada vez mais perto do que antes, e a cada passo que eu dava, sentia a distância ficando mais curta para o inevitável.


Acelerei.


O coração subia, não dava mais, e veio aquele frio, não um vento, mas um deslocamento gélido do próprio espaço que nos curvou para o chão e fez todos caírem como pedregulhos ao longo do caminho.


Olhei em volta.


Ao redor, um amontoado de adultos, homens fortes, mulheres, crianças e idosos. Minutos depois, alguns se levantaram, outros permaneceram inertes. Fui em direção a uma velha senhora que tentava erguer-se com dificuldade.


- o que foi isso? - perguntei.

- mais uma vez, ela veio. Hoje, duas vezes.


Apontei para um jovem caído ao nosso lado, o rosto como o sal.


- Ele está morto. - Ela falou e virou-se de lado, mirando o outro lado da rua.

- De quê? - Indaguei mais uma vez, mas ela havia se afastado.


Olhei ao redor, mas sem a menor ideia ou razão de um lugar para ir. A velha senhora aproximou-se, e fez um gesto brusco com a cabeça:


- Vamos!


Puxou-me pelo braço, caminhamos duas ou três quadras à frente, desviando dos caídos, um pouco mais adiante de onde estávamos, e entramos numa pequena capela. Ela começou a falar, quando nos sentamos. Eu a olhava com desconfiança, e deixava transparecer um tremor enquanto a ouvia.


- Vejo que você não sabe de nada ainda. 

- De quê?


- Ela vem, derruba como se fosse só num sopro. Rápida. Você não sabia? 


- Parece que escapamos por pouco, minha senhora. Nem bem cheguei aqui.


- Não por pouco, não por muito. - Esticou o braço e apontou para a porta.


- Se chegou agora, veja essas pessoas caídas lá fora. Antes da chegada daquilo que você talvez tenha visto, seria de causas naturais ou não. Mas ninguém escapa para sempre.


Fazendo questão de mostrar os corpos caídos, ela curvou-se para a frente e depois fez um gesto de negação com a cabeça de um lado para o outro.


- Você a vê se aproximando, vindo, rápida, e é só isso; pode correr, mas somente por instinto, como fez há pouco.


Parecia não ter mais pressa, e continuou a explicação, agora sem a afobação de antes. 


- Nos primeiros dias, foi como a vida no paraíso, os hospitais esvaziados, nem mesmo uma só alma para um médico cuidar.


E concluiu.


- A ilusão quebrou-se num único e primeiro dia, meses depois, não anos, sem qualquer aviso, apenas aquela gente em disparada.


Já mostrando-se cansada do ir e vir, a mulher abaixou o olhar, colocando as mãos sobre o rosto. Mas, como se num contraponto, os braços levantados, elevou a voz em apelo.


- As pessoas não aprendem! Não adianta implorar ou cair de propósito. 


Aproximou-se mais, sussurrou, quase ao pé do meu ouvido.


- Os corpos permanecem jogados, até por dias seguidos; os abutres aparecem depois, vorazes, feras imensas, a tirar pela envergadura das asas quando se abrem, não parecem ser deste mundo.


Interrompeu a voz, olhou-me fixamente e perguntou.


- De que lugar você vem?


- De Duas Serras, a apenas uns cinquenta quilômetros de distância daqui…


Também interrompi a voz. Houve um breve silêncio. 


- Elisa, minha amada, minha filha. Ela mora lá também. Mas vocês não sabem? - Ela implorou por uma resposta, e repetiu, fazendo um gesto de mão, como que num pedido e súplica - Não sabiam de nada? 


- Talvez seja só aqui.

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