Cheguei por volta das dez da manhã, desci do ônibus e dirigi-me para fora da estação rodoviária em busca de um táxi, tinha horário marcado. Ao aproximar-me do automóvel, levei um tombo ao ser quase atropelado por um homem que corria e gritava
corra, corra!
Em volta, uma multidão, todos fugindo de algo, inclusive o taxista não estava mais ali, o carro abandonado com as portas abertas. Num movimento instintivo, comecei a correr também naquela mesma direção e que se dirigíamos demais. Alguém emparelhou comigo, e deu tempo de perguntar e ouvir a resposta:
- o que está acontecendo?
- corra!
Olhei apara trás, para entender de que coisa estava tentando me afastar, vi algo, mas não sei o quê, se um vulto, uma forma, uma mera impressão, uma presença, um impulso para correr.
- corra mais! - Alguém passou aos berros, dando a entender que eu estava muito lento.
Foi quando senti que corria de algo que estava cada vez mais perto do que antes, e a cada passo que dava, sentia a distância ficando mais curta, menor e inevitável.
Acelerei.
O coração subia pela garganta, não dava mais, e veio aquele frio, não um vento, mas um deslocamento gélido do próprio espaço que curvou-nos para o chão e fez todos caírem como pedregulhos ao longo do caminho.
Olhei em volta. Ao redor, um amontoado de adultos, homens fortes, mulheres, crianças e idosos. Minutos depois, alguns se levantaram, outros permaneceram inertes. Levantei-me e fui em direção a uma velha senhora que tentava erguer-se com dificuldade.
- o que foi isso? - perguntei.
- a morte, meu filho.
- não entendi, minha senhora.
- ainda não sabe como agora ela vem?
- este homem parece estar morto - apontei para um jovem caído ao nosso lado, branco como o sal.
- ele está morto.
- de quê?
- de morte.
- vamos… - ela puxou-me pelo braço. Entramos numa pequena capela na rua próxima do lugar onde estávamos.
- antes eram as doenças, os acidentes, a violência, a velhice - ela começou a falar, quando nos sentamos -, e vejo que você não sabe disso ainda, as pessoas não morrem mais de doenças e fatalidades que antes nos tiravam a vida com dores prolongadas.
- morrem de quê?
- da morte. Ela vem, derruba e leva; e outros escapam, como nós dois agora.
- parece que escapamos por pouco.
- não por pouco, não por muito, só escapamos. Veja essas pessoas caídas que estão lá fora. Há pouco tempo, elas morreriam de causas as mais diversas, naturais ou não. Não que tenha mudado muito, ela só é mais franca, não necessita de subterfúgios, nem de desculpas ou explicações enviesadas. Ela leva. E não há como escapar. O aviso é rápido, você a vê se aproximando, você sente ela vindo, vindo rápido e veloz, só isso, você corre, mas por instinto, como você fez, só por instinto, mas não adianta correr ou ficar parado. Eu estava parada quando ela passou por mim.
E a conversa foi seguindo, parecia não ter pressa alguma, e continuou a explicação.
- nos primeiros dias, foi como a vida no paraíso, ninguém morria, ninguém adoecia, os hospitais vazios, ninguém para um médico cuidar, nenhum acidente, nem mesmo uma única alma vitimada, um novo mundo sem os velhos males do mundo.
E continuou.
- mas apenas uma ilusão, e a ilusão quebrou-se no primeiro dia em que ela veio; e ela veio poucos meses depois, sem qualquer aviso, apenas aquela primeira correria louca. E agora é essa correria todos os dias. As pessoas não aprendem! Não adianta correr ou mudar de rumo, não adianta implorar, orar e nem cair fingindo estar morto. Ela vê e pega quem quer e deseja.
- e como fazem para sepultar tantos?
- os corpos permanecem jogados nas ruas, até por dias seguidos. Os abutres aparecem depois, são enormes, as asas enormes, são vorazes, não parecem ser deste mundo.
Interrompeu a narrativa, olhou-me fixamente e perguntou.
- de que lugar você vem?
- de apenas cinquenta quilômetros de distância daqui, de tão perto, venho de Serra Pequena. De tão perto…
Fizemos um breve silêncio.
- por que o resto do mundo não tomou conhecimento de nada disso?
- não sei. Talvez seja só aqui.