PREÂMBULO
O seletor de velocidade do ventilador estava no mínimo. O ventilador, de teto, fazia um ruído agradável aos ouvidos dela. Um defeito numa das pás provocava um pequeno estalo a cada giro, um pequeno estalo. Aquele estalo estava lá há muito tempo. Quando ela era ainda uma criancinha, ele estava lá. Abaixo dele e sobre o tapete vermelho, ela fazia as lições da escola, totalmente recurvada sobre a mesa-de-centro. A TV ligada, um pouco mais à frente, quase inaudível. Era assim que estudava, embora não parecesse nada confortável, pois era alta e esguia, e também mantinha as pernas cruzadas, livros espalhados, e o caderno sobre a mesinha. Estava no último ano do ensino médio. Não exatamente uma boa aluna, sem planos para o futuro e, além disso, filha única e adorada.
Mas era obrigada a se encurvar muito para poder escrever sobre a mesinha.
Já passava das nove da noite, os pais haviam saído para o jantar do mês de um grupo de amigos. As portas estavam fechadas e seguras. Na TV, um filme qualquer, só pra constar. De cima, a brisa do ventilador no mínimo.
Tomou em suas mãos o livro de capa vermelha. Foi quando ela notou que a brisa cessou de repente. Olhou pra cima e viu que as pás do ventilador haviam parado.
Ao desviar a visão do ventilador, ela deparou-se com a visão não muito nítida de um homem no outro extremo da sala. Seus cabelos eram longos, uma mistura de pretos e grisalhos. Ele estava lá, parado, olhando-a, mas não dava para identificar claramente as feições. Ela logo notou que ele já se movimentava, e vinha bem devagarinho, mas já alcançava o tapete, e cada vez se aproximando, mais e mais, e passou a andar em volta, em espiral, e a cada volta que dava, aproximava-se mais. Seu movimento tinha um quê de coreografia, como um ritual para chegar até ela, usando um blusão sintético preto e de aparência vulgar.
Ela não ousou perguntar como ele havia entrado ali. Não havia como ter entrado, não havia. Estava tudo trancado, havia alarmes, câmeras, todas essas coisas de segurança.
E ele continuou dando voltas, aproximando-se lentamente, não andava ereto, os joelhos um pouco dobrados, meio agachado, andava desse jeito, mas não balançava o corpo. Os braços permaneciam abertos para a frente, como que para pegá-la. A boca sempre aberta. Muito aberta, ao máximo. Mas não ria. Nada daquilo poderia lembrar um sorriso.
Ao chegar mais perto, ela sentiu o cheiro dele. Cheiro de perfume misturado ao suor que exalava. Neste ponto, o homem já estava muito perto e poderia tocá-la, se quisesse.
NÃO! PELO AMOR DE DEUS, NÃO! MEUS JESUS, NÃO! - Ela gritou
Fez um enorme esforço. E a visão foi turvando. Aquela bocarra aberta foi se misturando a uma névoa envolvendo a sala inteira, até ela não poder mais enxergar nada.
O homem arrancou uma página do caderno, pegou uma caneta e começou a escrever. Escrevia bem devagar, tão devagar que parecia estar desenhando em vez de escrevendo. Alguma coisa ele escrevia ali em total concentração e cuidado nos detalhes, a bocarra aberta, quase colada ao papel, a respiração sendo jogada contra a folha de caderno escolar.
Quando ela voltou a si, não havia mais nenhuma névoa, a visão estava límpida e nítida, e ela deu-se conta da possibilidade de poder fugir e escapar, pois ele permanecia a escrever, e parecia não se importar com ela, era a impressão que dava. Ela poderia fugir.
Ela mirou o corredor que dava para os quartos e correu. Entrou no primeiro quarto, trancou a porta, abriu a janela e pulou. E correu o mais que pode. Mas não o suficiente.
PARTE DOIS
Os alarmes dispararam. Vieram todos, os pais foram chamados, seguidos dos membros mais próximos da família. Acumulou-se uma enorme aglomeração de vizinhos. Sem demora, os policiais. Encontraram a janela de um dos quartos e a porta da sala abertas. Na sala, os móveis e objetos pareciam no lugar e arrumados. No centro da sala, livros espalhados num enorme tapete vermelho. O ventilador de teto estava ligado, as pás girando lentamente na velocidade mínima, a TV ligada no volume baixo. A mãe saiu andando como uma louca em volta da casa a gritar o nome da filha.
Fizeram buscas na vizinhança. A polícia levou o smartphone da garota, cadernos, livros; deram uma busca completa nas gavetas, armários, coletaram provas. E olharam o principal, as imagens das câmeras de segurança. No entanto, apenas a imagem da moça quase sempre recurvada sobre a mesinha. Nas demais, nada, nenhum movimento, apenas o que pareciam ser insetos manchando as imagens, casas de aranha. E retrocedendo mais no tempo, as imagens normais da família e, aquela do lado de fora, as de veículos passando.
De pronto, o delegado descobriu, no aplicativo de mensagens do celular recolhido, recados entre ela e um rapaz de não muito boa reputação na cidade. Não eram somente mensagens de pedido e fornecimento de coisas em códigos, mas também declarações de amor, fotos, marcação de encontros secretos, juras, promessas.
Pegaram o rapaz ainda naquela noite. Segundo um jornalzinho local, no dia seguinte, "um pobre coitado". Mas já era maior de idade, 20 anos. Não tinha álibi, e nem quis falar nada. Apareceu um advogado de terno gasto. Não havia provas de que tivesse feito algo à garota. Afinal, fora encontrado em casa, umas três horas após o início das buscas, onde morava com os pais. A Polícia o conhecia bem. No celular dele, troca de mensagens compatíveis com as encontradas no dela, vídeos íntimos de sexo, bebedeira, bacanal, e mais uma terceira pessoa. E, dali em diante, foram um pouco mais longe.
Foram atras do terceiro. Era um bem-de-vida, empresário, um tipo playboy, também mal-afamado, casado. Gente bem posicionada, mas com passagens pela delegacia. Adentrou o recinto calmamente e sentou-se em frente ao delegado, não sem antes cumprimenta-lo com respeito e demonstrando interesse em saber a razão de estar ali mais uma vez. Aquele mesmo jornal insinuou que pudesse ser ele o autor de não se sabia exatamente o quê. Ninguém sabia o que havia ocorrido, a não ser que uma moça estava desaparecida. Vieram os advogados, bons ternos, gente importante e influente. Ninguém quis arriscar fazer quaisquer acusações, não havia nada, apenas aquelas imagens, traços mais de escândalo do que de crimes contra a vida de alguém.
- Essa dona é maluca. - disse o terceiro - Vocês não perceberam ainda? E ela é maior de idade já. É muito estranho a família não saber nada sobre o comportamento dela. Vocês não viram os vídeos? Se ela fugiu, o que posso dizer? - Enquanto, do outro lado da mesa, o delegado tomava um xícara de café preto para tentar controlar o sono de uma noite perdida.
FINAL
Dois dias depois, no raiar do sol, um velho agricultor, dono de uma propriedade próxima à cidade, encontrou um corpo na beirada de uma lagoa. Estava repleto de hematomas, cortes e deformações provocadas aparentemente por mero uso de força física. Braços, pernas, ossos, dentes quebrados. Foram obrigados a sedar o pai após a identificação. O delegado admitiu nunca ter visto algo daquela natureza, apesar de sua longa experiência profissional em décadas de serviço.
Agora havia um corpo.
Na cavidade bucal, uma folha de caderno escolar cuidadosamente dobrada. Nela podia-se ler, numa caligrafia entre rústica, infantil e quase desenhada, uma mensagem escrita em caneta azul, mas eram sinais um tanto estranhos, assimétricos e aparentemente intraduzíveis no primeiro momento. Enviaram para um departamento especializado, e a resposta veio. Intraduzíveis, desconhecidos.
Apesar dos esforços nos meses seguintes, exames de material colhido da vítima, análise exaustiva das imagens e depoimentos, não encontraram pista real para o que ocorrera. O jovem rapaz mudou-se dois anos depois para outra cidade, nada havia contra ele. O playboy veio a falecer de acidente automobilístico.
Muitos anos depois, a mãe recebeu uma carta, bem escrita, caligrafia de mulher, postada muito provavelmente de outra cidade, supostamente por uma senhora que acompanhara o caso exaustivamente pelos jornais de então, e pela qual afirmava sentir muito pelo sofrimento da família. A polícia tomou conhecimento, e a missiva passou a fazer parte dos arquivos ainda abertos. Mas não localizaram a emitente. E apenas um dado adicional significativo. O selo, não se sabe de qual cidade ou pais, continha alguns daqueles mesmos sinais estranhos.