O taxista deu a volta em torno do carro e abriu a porta do passageiro. De dentro saiu uma mulher carregando uma criança grande nos braços. Ela dizia, repetidamente, que o marido viria logo e pagaria a corrida, enquanto o taxista a ajudava a carregar a criança para dentro da clínica. Havia sangue escorrendo e ficou uma trilha vermelha no chão. Ao voltar, o taxista olhou para dentro do veículo e balançou a cabeça. Teria que lavar tudo aquilo. Fechou a porta do passageiro, limpou as mãos numa flanela que pegou lá dentro, ajeitou o boné, cruzou os braços, deu a volta e entrou pelo outro lado. Estacionou o táxi embaixo de uma árvore e esperou.
Vinte minutos depois, o pai chegou. Estacionou o carro meio atravessado e entrou correndo na clínica. Nessa correria, errou a porta, deu meia-volta e acertou o lugar. Retornou com passos lentos e recurvado. Tinha um ar meio perdido, enquanto tentava localizar o táxi. O taxista colocou o braço pra fora e acenou. O pai tirou uma cédula de cem reais da carteira e disse que ficasse com o troco. O taxista agradeceu e não quis perguntar nada, ligou o motor e saiu. O pai deu a volta, sentou-se num banco de ferro sob uma árvore imensa e começou a chorar.
Era um fim de de tarde e o céu ainda estava claro e muito azul. O vento arrancava flores das árvores e o piso do estacionamento estava cheio delas. Eram flores amarelas, flores daquela época. Aquelas flores vinham de ano em ano, em todos os anos, um espetáculo bonito, as pétalas sendo carregas pelo vento e forrando o chão. Mas o pai estava com os olhos voltados para baixo e só fazia passar uma das mãos na cabeça, indo da testa e descendo até o pescoço.
Ele ficou repetindo esse gesto, parecia um robô fazendo a mesma coisa, programado pra passar a mão direita nos cabelos.
Mas algo o fez parar. Do outro lado da rua, um grupo de mocinhas vestidas com uniforme escolar passou cantarolando e rindo - riam muito e alto, e seus sorrisos e brincadeiras, umas com as outras, preencheram o espaço. Ele levantou o olhar e ficou ouvindo a algazarra que elas faziam.
Mas algo o fez parar. Do outro lado da rua, um grupo de mocinhas vestidas com uniforme escolar passou cantarolando e rindo - riam muito e alto, e seus sorrisos e brincadeiras, umas com as outras, preencheram o espaço. Ele levantou o olhar e ficou ouvindo a algazarra que elas faziam.
Nisso, veio de lá um médico. Muito alto e jovem, jaleco branco. Por baixo do jaleco, usava uma gravata vermelha sobre uma camisa azul. Ele aproximou-se do pai, sentou-se ao lado, no mesmo banco de ferro pintado de branco. Falou qualquer coisa pra começar, deu uma explicação rápida e simples e silenciou. Ficou ali por uns minutos, e começou a prestar atenção na algazarra e nas brincadeiras das meninas voltando da escola. Quando elas já estavam longe, o médico levantou-se. Nesse tempo, o pai não olhou para ele, não teve coragem, nem disse uma palavra sequer. Só repetia o gesto automático de passar as mão nos cabelos, sempre começando pela testa e indo até a parte de trás do pescoço.
Uma enfermeira aproximou-se trazendo um copo d´água. Ele não notou a presença dela de imediato, deixando-a, sem querer, parada com um copo plástico na mão e sem dizer nada. Uma flor caiu em sua cabeça e ele levantou a vista, limpou o rosto, deu um sorriso e estendeu a mão para pegar o copo. Uma outra flor pequena caiu, só que, dessa vez, dentro do copo. Ele a tirou com um dos dedos. Mas não bebeu nada, ficou apenas segurando o copo.
Uma enfermeira aproximou-se trazendo um copo d´água. Ele não notou a presença dela de imediato, deixando-a, sem querer, parada com um copo plástico na mão e sem dizer nada. Uma flor caiu em sua cabeça e ele levantou a vista, limpou o rosto, deu um sorriso e estendeu a mão para pegar o copo. Uma outra flor pequena caiu, só que, dessa vez, dentro do copo. Ele a tirou com um dos dedos. Mas não bebeu nada, ficou apenas segurando o copo.
A enfermeira esperou um pouco e afastou-se, em seguida. Já estava no meio do imenso estacionamento, quando ouviu um ruído grave e que foi se tornando mais intenso a cada segundo. Vinha de cima, do alto, de trás do prédio da clínica, mais para o lado esquerdo. E foi ficando muito alto, como se estivesse ali ao lado deles. A enfermeira parou no meio do estacionamento e vasculhou o céu tentando encontrar a fonte daquele som potente. O pai levantou o rosto e limpou as lágrimas para enxergar melhor, e deixou o copo cair. A luz do céu intensamente iluminado o cegou por um instante. Mas logo pode enxergar bem e nitidamente, quando apareceu, por cima do prédio, um pequeno avião de duas cores, amarelo e laranja, contrastando com o azul do firmamento, e voando bem baixo, puxando atrás de si uma faixa ondulante onde se lia em letras vermelhas: EU AMO VOCÊ, JULIANA.
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