20.1.19

O EMBAIXADOR


"Pôde-se então ouvir a voz do deserto que avançava." 
Dino Buzzati - O Rei Em Horm El-Hagar.

O embaixador chegou pontualmente às 19:30. O carro oficial veio precedido por uma descomunal fila de enormes viaturas negras e brilhantes, e uma equipe de segurança formada por mais de cem homens fortemente armados. Todo o quarteirão do teatro fora esvaziado cinco horas antes. Os convidados chegaram com pelo menos uma hora de antecedência e tomaram seus assentos, não sem antes passarem por rigorosa revista. 

Chegou num pequeno carro de cor cinza fosco. Era um veículo de aspecto nada especial, mais próximo ao comum e vulgar dos carros de rua, embora de marca desconhecida e provavelmente fora de linha de produção, sem qualquer brasão, bandeira ou placa oficial. O próprio motorista foi quem abriu a porta, e o embaixador desceu com nítida dificuldade; em seguida, a bela e jovem senhora embaixatriz num vestido vermelho-claro, joias cintilantes em torno do pescoço e nos braços.

À frente dela, claudicante, caminhava recurvada a altíssima autoridade diplomática num terno preto de aspecto gasto. Seu rosto, repleto de rugas, parecia com o de um cágado. Seguindo a ambos, uma ampla comitiva de oficiais da embaixada. E o séquito foi adentrando o enorme teatro, a figura principal em pequenos passos incertos, aturando padecimento após cada uma das pisadas, embora seus pés parecendo quase não tocar o chão, tal era a leveza do seu corpo diminuto.  Os sapatos, algo de aspecto e formato incomuns, muito grandes e desproporcionais. 

Ao ser anunciado, todos puseram-se de pé e, reverentes, o aplaudiram por intermináveis minutos até que enfim chegasse ao palco. Ajudado pela equipe de oficiais em trajes militares de gala, funcionários de sua estrita confiança, subiu os poucos degraus de escada com visível e constrangedora dificuldade. E, finalmente, sentou-se atras de uma enorme mesa forrada com uma toalha de veludo cor de bronze e adornada com arranjos exóticos de flores naturais. Após o que, a plateia, formada em sua totalidade por autoridades dos mais diversos países e potências, foi autorizada a poder novamente sentar-se.

Visto de longe, o embaixador era ainda mais minúsculo, a cabeça calva e pequena, os braços curtos postos sobre a mesa; as mãos, trêmulas, uma sobre a outra. Ao seu lado, contrastando, a belíssima embaixatriz, alta, garbosa e jovial, o sorriso gracioso em sua expressão serena e plácida, os cabelos negros caídos sobre os ombros nus. Um portento. Majestosa em si e em seus atributos e em dissemelhança com a aparência singular do seu esposo.

A apreensão era visível no rosto de todos no seleto auditório. Nenhum ruído se fazia ouvir sob silêncio absoluto, respeitoso e denso. A espera parecia não ter fim. Quando, de repente, sem nenhum anúncio prévio, o embaixador, sem uso de qualquer sistema de som, deu início à tão aguardada palestra sobre os destinos dos povos e nações dos quatro cantos da Terra.

E a sua voz, como que um estrondo vindo de mil corredeiras e quedas d'água, ecoou e reverberou pelo amplo teatro. E os magníficos lustres de cristal acima da audiência puseram-se a vibrar. 

Marco Antonio.

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