A prosa que se segue no próximo parágrafo é apenas uma alusão a um poema de um contista americano de quem gosto de ler, e cujo primeiro livro adquiri em 1994. Raymond Carver. Não há espaço pra falar sobre ele aqui, mas é possível encontrar traduções de algumas de suas obras em nossas livrarias. O título do poema, escrito em estilo livre e moderno, é Limonada, na tradução para o portugês, pelo menos. O argumento por trás do título é bem interessante, a limonada é um nada num mundo de contingências. Vale a pena ler.
Por volta das oito da amanhã, saímos para o passeio de domingo. Quando chegamos, o sol iluminava toda a extensão à nossa frente. A minha mulher pegou o nosso garotinho pelo braço e foi logo mostrar o lago. A superfície da água estava plana como um espelho, e refletia o firmamento e suas nuvens. Imenso. O menino alargou o olhar e deteve-se diante da visão da lâmina d´água que perdia-se no horizonte.
- Mamãe! - gritou e agarrou-se ao pescoço dela. Ela o abraçou e conteve de imediato o seu temor.
Embora o resguardasse dos perigos, e temesse por ele em todos os minutos de sua vida, jamais imaginaria que, dentro em pouco, o filho amado estaria sob aquelas águas profundas, bem como jamais também desconfiar de que o corpo dele jamais seria encontrado.
Às vezes, embora não seja comum, a gente conta uma história assim, já revelando o final. Como um sujeito que chega ao médico e vai mostrando de cara a perna quebrada, e só depois vai dizer como aconteceu. O poema de Carver anuncia, em suas primeiras linhas, uma tragédia e o desfecho, mas nem por isso subtraindo do leitor a vontade de continuar. Começa assim:
"Quando ele veio à minha casa meses atrás para
medir as paredes para fazer estantes de livros,
Jim Sears não parecia um homem que ia perder
seu único filho nas águas agitadas do rio Elwha."
De volta ao nosso texto, digo que aquele era, e ainda é, um lugar muito bonito. Jamais voltei a vê-lo,infelizmente. Água, areia, bares, comida, sol, jogos, crianças, famílias e diversão. E dava sempre muita gente.
De volta ao nosso texto, digo que aquele era, e ainda é, um lugar muito bonito. Jamais voltei a vê-lo,infelizmente. Água, areia, bares, comida, sol, jogos, crianças, famílias e diversão. E dava sempre muita gente.
No início da manhã, antes das dez, foram chegando os casais e suas crianças. Um monte delas, menores e grandes, numa imensa algazarra. E já se via gente nadando pra lá e pra cá, gritos e pedidos de "cuidado!". As mamães chamando pelos seus, os homens sentados em cadeiras reclináveis, tomando cerveja em lata ou lendo um jornal, enquanto rapazes mais crescidos e afoitos pulavam de uma local mais elevado e atirando-se como flechas, suas cabeças trespassando o ar, e as mocinhas olhando e rindo daquelas façanhas.
Uma outra mamãe aproximou-se da minha mulher. Era jovem também. Conheceram-se ali, naquele mesmo dia. A outra tinha duas filhinhas, gêmeas loirinhas e gorduchas e mais novas que o nosso. Ficaram juntas patrulhando o lago, cada uma observando atentamente as suas crias e ajudando-se mutuamente. Travou-se ali aquela empatia entre duas mães zelosas e joviais. Pareciam ter a mesma idade. A depender do movimento das crianças, elas moviam-se pra lá e pra cá, abanavam as mãos, gritavam pedindo "cuidado!" e erguiam-se num esforço visível e esticavam o corpo e pescoço para poderem enxergar melhor a suas crias. Era um vai-e-vem de ambas, pra lá e prá, a depender de para que lado as três crianças se deslocavam na beira do lago.
Pouco mais de duas horas depois da nossa chegada, o vento começou a soprar muito forte. Mas foi sem aviso algum. As nuvens chegaram muita rapidamente e encobriram o sol, e logo a chuva desabou, como se fosse um imenso balde virado pra baixo e derramando toda a água do mundo sobre aquele lugar.
Todos correram para atender aos pedidos de socorro.
Mas pouco ou nada dava para se ver. A chuva desabava do céu como numa cachoeira, formando uma cortina grossa e densa. O ruído encobria os apelos, enquanto as crianças corriam sem rumo e eram logo recolhidas para longe da água o mais possível. Choveu por horas e sem descanso. Quando se encontravam, ficavam os pais agarrados aos seus filhos, buscando abrigos em barracas e bares próximos. E assim a intensidade da tempestade foi diminuindo. Era fácil agora identificar quem havia encontrado os seus. Bastava um rápido olhar para o lado para saber. E, aos poucos, as famílias novamente reunidas foram indo embora. Ficaram alguns.
Depois vieram a polícia, os bombeiros, os equipamentos. E os curiosos. Já havia passado bastante do meio-dia. Havia nuvens amareladas mais para onde o sol se põe.
Todos correram para atender aos pedidos de socorro.
Mas pouco ou nada dava para se ver. A chuva desabava do céu como numa cachoeira, formando uma cortina grossa e densa. O ruído encobria os apelos, enquanto as crianças corriam sem rumo e eram logo recolhidas para longe da água o mais possível. Choveu por horas e sem descanso. Quando se encontravam, ficavam os pais agarrados aos seus filhos, buscando abrigos em barracas e bares próximos. E assim a intensidade da tempestade foi diminuindo. Era fácil agora identificar quem havia encontrado os seus. Bastava um rápido olhar para o lado para saber. E, aos poucos, as famílias novamente reunidas foram indo embora. Ficaram alguns.
Depois vieram a polícia, os bombeiros, os equipamentos. E os curiosos. Já havia passado bastante do meio-dia. Havia nuvens amareladas mais para onde o sol se põe.
Quanto tempo levaria? Olhando aquela imensidão, não havia respostas. O céu abriu, mas pouca luz. O lago, visto de onde estávamos, era novamente largo, imponente, comprido, imenso. Nenhuma rajada de vento. E a noite já apontava próxima e fria.
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E o poema de Raymond Carver termina:
lembra a doçura, quando a vida era doce e
docemente lhe foi dada aquela outra vida."
Marco Antonio
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