20.1.19

A VISÃO DE DEUS



Ele teve uma visão de Deus. Foi num sonho. Num capinzal, final de tarde, seus olhos estavam abertos, voltados para o firmamento; o vento em seus cabelos parou de soprar, e a relva iluminou-se totalmente. Deus o olhava, os olhos em sua exata direção, e também para todas as outras coisas. O rosto não parecia humano, nem de animal, nem de qualquer outra coisa conhecida, mas tinha olhos, apesar de tudo. E desapareceu logo depois, quando o campo escureceu, restando apenas  a fraca luz difusa do sol já sob a Terra.

No dia seguinte, pela manhã, no colégio, ficou a observar os demais e a pensar sobre quantos ali, em segredo, como ele, já teriam vivenciado a visão do Criador.  Afinal, não se achava em nada especial. Era um rapaz de religiosidade moderada; nem feio e nem bonito. Pouco inteligente, é o que se achava; mas não um parvo. Era bom, ajudava em casa, ágil nos serviços. Bons pais, bons irmãos. E uma namoradinha, Jessica.

Pensou em contar para ela. Afinal, mantinha com a namorada segredos mútuos, sonhos, esperanças; compartilhavam também a promessa de um futuro casamento. Mas algo dizia, dentro de si, que não deveria fazê-lo.

Afinal, o que significava poder olhar diretamente a Face Iluminada do Senhor? Nada foi-lhe revelado; nenhuma voz interior deixou-o mais valente ou sereno, muito menos alguma sabedoria  viera daquela experiência milagrosa e extraordinária. Permanecera apenas a lembrança do que sonhara; e a certeza de não mais poder esquecer. Sentia-se como sempre fora. 

Dois dias depois, durante uma partida de futebol, houve uma briga. Então pareceu-lhe um bom momento para desafiar alguém mais forte, quem sabe talvez agora pudesse mostrar uma força escondida e que lhe fora secretamente entregue naquela visão em sonho. Uma tentação apossou-se do seu coração. Disparou então em direção ao maior de todos e deu-lhe um murro no meio do rosto. Todos se afastaram, um espetáculo impressionante e inesperado do mais fraco enfrentando o mais robusto dos rapazes da turma. Mas foi somente um murro, o outro apenas pego de surpresa. Os demais foram obrigados tirá-lo dali para que não fosse covardemente espancado. Dois dentes quebrados. 

Jessica, envergonhada, afastou-se. Pouco tempo depois, o pai anunciou que se mudariam para outra cidade. 

Na despedida, foi ao capinzal. Quem sabe pudesse vê-lo mais uma vez. Não em sonho desta vez. E dirigiu-se solitário ao campo aberto e plano. A planície imensa se perdia no horizonte na  quase noite. O som intenso da ventania na vegetação abundante dava sensação de estar sob uma imensa cachoeira. De repente, o vento selvagem sobre os seus cabelos parou de soprar. Do firmamento, em silêncio absoluto, desceu uma luz como que iluminando o mundo inteiro. Era leitosa, fria, como se nela se pudesse pegar e beber, parecendo uma água muito leve e ondulante. Dava para sentir seu cheiro de coisa doce. Ao dirigir o olhar pra o alto, viu aquela face do tamanho de mil mundos. Não era humana, nem animalesca, nem de qualquer coisa conhecida; infinitamente distante, majestosa, não estando somente ali, mas abarcando todo o céu, embora olhando fixamente dentro dos seus olhos. E, como veio, se foi, restando somente a escuridão em torno de si, o vento de volta a agitar a relva;  no firmamento, as estrelas cintilando, a imensa Via Láctea cortando uma faixa central do céu. 

Ao chegar em casa, todos se admiraram quando o viram. A mãe paralisou-se diante dele. Seu rosto estava queimado de sol, os olhos esverdeados como pedra preciosa, as feições jovens  lembrando os traços de uma pantera. 


Marco Antonio. 

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