20.1.19

DUAS SERRAS

(Twin Peaks Revisitada)

 

O seletor de velocidade do ventilador estava no mínimo. O ventilador, de teto, fazia um ruído agradável aos ouvidos dela. Um defeito numa das pás provocava um pequeno estalo a cada giro. Aquele estalo estava lá há muito tempo. Quando ela era ainda uma criancinha, ele estava lá. Abaixo dele e sobre o tapete vermelho, ela fazia as lições da escola, totalmente recurvada sobre a mesa-de-centro. A TV ligada, um pouco mais à frente, quase inaudível. Era assim que estudava, embora não parecesse nada confortável, pois era alta e esguia, e mantinha as pernas cruzadas, livros espalhados, e o caderno sobre a mesinha. Estava no último ano do ensino médio, mas sem planos para o futuro e, além disso, filha única e adorada. 

 

Mas era obrigada a se encurvar muito para poder escrever sobre a mesinha.

 

Já passava das nove da noite, os pais haviam saído para o jantar do mês de um grupo de amigos. As portas estavam fechadas e seguras. Na TV, um filme qualquer. De cima, a brisa do ventilador no mínimo.

 

Tomou em suas mãos o livro de capa vermelha. Foi quando ela notou que a brisa cessou de repente. Olhou para cima e viu que as pás do ventilador haviam parado. 

 

Ao desviar a visão do ventilador, ela deparou-se com a visão não muito nítida de um homem no outro extremo da sala. Seus cabelos eram longos, uma mistura de pretos e grisalhos. Ele estava lá, parado, olhando-a, mas não dava para identificar claramente as feições. Ele já se movimentava, e vinha bem devagarinho, alcançava o tapete, e cada vez se aproximando, mais e mais, e passou a andar em volta, em espiral, e a cada volta que dava, aproximava-se mais. Seu movimento tinha um quê de coreografia, como um ritual para chegar até ela, usando um blusão sintético preto e de aparência vulgar.

 

Ela não ousou perguntar como ele havia entrado ali. Como ele poderia? Havia alarmes, câmeras, todas essas coisas de segurança.

 

E ele continuou dando voltas, aproximando-se lentamente, não andava ereto, os joelhos um pouco dobrados, meio agachado, andava desse jeito, mas não balançava o corpo. Os braços permaneciam abertos para a frente, como que para pegá-la. A boca sempre aberta. Mas não ria. Nada daquilo poderia lembrar um sorriso. 

 

Ao chegar mais perto, sentiu o cheiro dele. Cheiro de perfume misturado ao de suor. Ele já estava muito perto e poderia tocá-la, se quisesse. 

 

- Não! Pelo amor de Deus, não! Meu Jesus, não! - Ela gritou.

 

Fez um enorme esforço. E a visão foi turvando. Aquela bocarra aberta foi se misturando a uma névoa envolvendo a sala inteira, até ela não poder mais enxergar nada.

 

O homem arrancou uma página do caderno, apanhou a caneta e começou a escrever. Bem devagar, tão devagar que parecia desenhar, em vez de escrever. E em total concentração e cuidado nos detalhes, a bocarra aberta, quase colada ao papel, a respiração sendo jogada contra a folha de caderno escolar. 

 

Quando ela voltou a si, não havia mais nenhuma névoa, a visão estava límpida e nítida, e se deu conta da possibilidade de poder fugir e escapar, ele permanecia a escrever, e parecia não se importar com ela.

 

Mirou o corredor que dava para os quartos e correu. Entrou no primeiro quarto, trancou a porta, abriu a janela e pulou. E correu o mais que pôde. Mas não o suficiente. 

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