30.5.26

COPA DO MUNDO

Chegaram os três retardatários. Agora éramos nove na ampla sala de Manuel. Escolhemos o apartamento dele, não somente por ser maior, a TV era grande, além de ele ser o único solteiro, e aquele era um encontro de homens para assistir ao primeiro jogo da Copa nos Estados Unidos, Brasil x Marrocos. Venceu o grupo que preferia a TV sem volume até o início da partida. Éramos ex-colegas de universidade, não do mesmo curso, contemporâneos apenas, uns dois vieram amigos desde o ensino médio.


Mas havia uma diferença entre aquela Copa e as anteriores, nenhum de nós sabia a escalação da Seleção Brasileira. Fernando, o de Física, fez uma brincadeira, afirmando que talvez estivéssemos numa realidade paralela, onde não fossemos brasileiros, uma explicação para desconhecer os jogadores nacionais. Mas a verdade é que ninguém parecia se importar, estávamos ali porque havia se passado quatro anos desde a última reunião completa.

Como a TV estava só com a imagem, os jogadores ainda fora de campo, ficamos a falar de assuntos banais típicos de reencontro. Manuel, de imediato, anunciou que finalmente iria pedir Lúcia em casamento. 


- Não dá para adiar mais, ela pode arrumar outro.


E vieram aquelas coisas de sempre, palmas, euforia, abraços apertados.


- Teremos esposas da mesma profissão, Manuel - Sother comentou.


- E como está você com Betinha, Sother?


- Como sempre, mas tem horas que dá vontade de ter uma vida diferente.


E continuamos a falar de trabalho, filhos, viagens de férias, mudanças de profissão e do desafio de montar um negócio próprio. Na tela, os jogadores já perfilados para os hinos nacionais. Acionamos o som e aumentamos o volume. Podemos nem saber o nome dos atletas em campo, mas nos apoiamos uns nos outros quando a partida está perto de começar. O locutor, numa evidente empolgação, gritou ao final do Hino brasileiro: 


“Vamos ao bicampeonato!”


- Bicampeonato? Ele deve estar bebendo. - Rafael soltou uma risada.

Foi quando a luz apagou.


Como já era noite, os lamentos se fizeram ouvir. Olhamos pela janela, sétimo andar, e a cidade estava um breu. Aos poucos, pequenas luzes aqui e ali, talvez de celular ou de lanternas. Fizemos o mesmo, e aguardamos. Percebemos também que os sinais de celular foram sumindo, uma operadora após outra. 

Uma hora depois, desistimos. E descemos os lances de escada. Eu e Rafael viemos e voltamos no mesmo veículo, eu de carona. Ele ligou o rádio do carro, encontramos uma única emissora transmitindo. Era só música, parecendo ser uma dessas estações em que não há uma só alma no estúdio, as músicas rolando sozinhas. Era uma playlist de rock progressivo, tocou Pink Floyd, Genesis, Emerson Lake & Palmer, até o Yes.


- Você gostava disso, Rafael?


- Nunca, músicas longas e chatas. Preferia Heavy Metal. Mas hoje eu não ouço mais nada.


- Essas músicas são a cara de Betinha. Você acredita que ela ainda põe pra tocar quando vamos lá?


- Ubaldino, - Rafael interrompeu a conversa - não tem luz alguma, e já atravessamos boa parte da cidade.


- O que será? Talvez um blecaute geral.


- Procure mais uma vez, veja se há alguma estação no ar além dessa, mude de faixa, para curtas, longas, AM.


- Vou tentar. - Percorri as faixas todas. Encontrei uma outra, a voz era cortada, que ia e vinha, e se misturava ao ruído. Mas deu para ouvir um trecho, dizendo que o jogo havia acabado, vitória do Marrocos. E, com mais clareza:

“… o bicampeonato fica mais difícil agora…”


E cortou.


- Ele falou em bicampeonato. - Rafael elevou a voz - Como é possível isso? Pela segunda vez? Você ouviu, Ubaldino?


- Sim, ouvi.

24.5.26

FOTOGRAFIA

“Eu ainda tenho uma foto de Lúcia”, ele disse, abrindo a carteira e tirando dali uma fotografia. Era ela, sentada em um banco da praça, árvores ao fundo, frondosas, também flores e o gramado, as cores já desbotadas. Usava um vestido de cor-de-rosa, um rosa claro, parecia ir até os joelhos. Ela sorria, talvez à frente dela este meu amigo, mas também tudo que estaria por vir, a esperança, o futuro, ela era jovem, bela. Ao seu lado, uma bolsa, de couro, um pouco grande, e também alguns livros, uns três, empilhados uns sobre os outros. Naquela época, ainda era estudante, talvez no último ano do curso. Mas o que se poderia retirar a mais dela, além do que já sabemos, já estaria ali tudo aquilo que veio depois? Ou seria apenas o momento, congelado, sem as consequências dele, pouco ou nada para se intuir sobre o depois? Enquanto eu olhava para ela, o meu amigo chamou o garçom, e pediu uma cerveja, também um tira-gosto de batatas fritas. A cerveja chegou primeiro, quando entreguei de volta a fotografia. Ele a guardou e se pôs a olhar para fora, através do vidro da grande janela atrás de nós, o olhar longo, comprido, dava para saber que pensava nela, e fez-se um breve silêncio entre nós, e deixei o silêncio se prolongar, não o interrompi em seu devaneio. Mas, enfim, brindamos. Falamos sobre o jogo do dia anterior, pulamos para a inflação, para o governo, a política, e voltamos para o que estava lá o tempo inteiro. Vieram as batatas, e outra cerveja. E entre uma coisa e outra, o olhar perdia-se para a janela atrás de nós. Atrás de nós estava a praça, o banco, as árvores, as flores, o gramado. Entre comentários sobre o andamento do campeonato de futebol e o filme que acabara de estrear, o breve ou longo silêncio interrompendo o encadeamento dos fatos, até que as horas se foram, lá fora o sol descera, fazia algum tempo. E nos levantamos e nos despedimos. Na saída, ele preferiu não olhar para as árvores em frente, e nem para os bancos da praça e seus jardins floridos da primavera. Fui eu quem o fez, e mirei o passado ali diante de mim. 

23.5.26

ONDAS

Ela recebera a carta numa quinta-feira, o carteiro a entregou em mãos, era a caligrafia dele, escrita aparentemente numa folha de papel de caderno escolar, onde dizia correr tudo bem, conforme o planejado, fazendo questão de lembrar do seu sentimento verdadeiro e de longas saudades dela; e reforçava que estaria, em breve, de volta aos braços da amada. Ela dobrou o papel em quatro e o beijou, guardando-o numa gaveta da penteadeira. Três meses depois, uma outra missiva muito aguardada. O tom era outro, relatava mudanças de planos, imprevistos, e que talvez demorasse mais tempo para retornar. Ela notara, de imediato, o papel; não era o mesmo de antes, era uma folha lisa e sem linhas, embora a caligrafia fosse a dele, mas dando a transparecer que fora redigida com pressa, os garranchos sobretudo pontudos, as curvas muito acentuadas e mais fechadas. Mais uma vez, ela dobrou o papel e o guardou na pequena gaveta de antes, mas sem beijá-lo como fizera da vez anterior. Elisa levantou-se, não sem antes fitar bem o seu rosto no espelho logo ali em frente. Dali em diante, foram dois anos sem qualquer carta dele, bem como não lhe enviou qualquer resposta. O tempo suficiente para conhecer um outro amor. Muito rapidamente, o casamento. Vieram filhos, dois, um menino e, depois, a menina. Prosperaram, mudaram de casa, as cartas foram jogadas fora na primeira mudança, bem como a penteadeira fora entregue a uma tia. Traços do passado se apagando, vieram os desafios do próprio casamento, o filho mais velho fora morar no exterior, o noivado da filha, a morte dos pais, dos tios, as referências que se iam, e as coisas novas substituindo as antigas. Mas aquelas cartas, embora já destruídas, permaneciam lá escondidas no recôndito da alma, em um lugar pequeno, quase nunca visitado, invisível, difícil de acessar, uma ferida quase cicatrizada, mas se tocada, abria-se em sangue. Nem mesmo uma notícia vinda de algum conhecido ou de um parente distante. Havia morrido, estaria com outra, construíra, como ela, uma família? Nada. Mas veio uma terça-feira qualquer, quando ele voltou. Sem aviso algum. E não era mais ele, décadas se passaram, nem mesmo um traço daquela lembrança cada vez mais esmaecida. E ela o estapeou no rosto, quando ele disse quem era, direto no seu rosto envelhecido, seguida de uma voz que não parecia ser a dela, talvez de uma outra coisa lá de dentro. Houve um recuo, mas ainda tentou insistir, quando ela o afastou e bateu-lhe a porta na derradeira tentativa de aproximação. Quando o marido retornou, já um pouco tarde da noite, a encontrou como em todas as vezes anteriores, mas dessa vez ela avisou-lhe que não havia feito o jantar, e teriam que ir a um restaurante. E foram. Mas pela primeira vez, ela contou-lhe sobre aquelas cartas e que delas havia se libertado finalmente naquele dia. O marido quis saber quem era ele, mas Elisa dispunha apenas daquilo do passado, de uma época em que não havia sequer conhecido seu futuro esposo, nada sobre o presente, e não a mínima ideia de como ele a havia encontrado. Mas o marido não se deu por satisfeito com as poucas e ralas justificativas. E o encontrou. Deparando-se com ondas do passado, cartas, juras de amor vencidas, pequenas memórias e feridas da mocidade, mas nada que o fizesse estabelecer um sentido para o presente e, muito menos, para o futuro. Apesar dos apelos, não dera ouvido aos amigos, nem aos colegas do trabalho a insistirem para que esquecesse aquelas bobagens de pessoas ainda muito jovens e inexperientes na vida; muito menos aos parentes próximos e íntimos nas vãs tentativas de fazê-lo desviar do seu intento. Os filhos, já independentes, vieram em seu socorro, mas aquele mundo, assim como veio sem aviso no seu devido momento, de uma hora para a outra, fora deslocado do lugar em que até então repousava, agora impulsionado por uma vaga vinda de outras épocas, o reflexo desse mar que se acalma e se revolta de tempos em tempos. E nessa última vaga, aquele mundo, inesperadamente, se desfez. 

22.5.26

ROBERTA SPARROW

O relógio do fim do mundo parou exatamente às 23 horas, 59 minutos e 59 segundos. Houve aquela suspensão absoluta, nem mesmo um respiro. Convidaram o conhecedor da filosofia do tempo, o Dr. Manuel de Assunção, festejado nos meios acadêmicos, autor de livros e compêndios sobre causalidade, universos paralelos e da íntima relação entre entropia e a estrutura do cosmos.  O veredito, preciso, sem mais delongas e direto: o tempo havia se esgotado e a sociedade, dali em diante, estaria em permanente vertigem e eternamente à beira do colapso. Por via das dúvidas, ouviram uma segunda opinião, um engenheiro, um prático, o engenheiro mecânico Rafael, homem de vasta experiência nos diversos equipamentos de uso militar, científico e industrial. O especialista analisou as engrenagens e, após muito pensar, repensar e calcular, afirmou que bastaria “tirar esse pino aqui” e, logo, o relógio seria destravado. Ouviu-se um “não” e, depois, “Não faça isso!”.


Ante aquela situação inusitada, optaram por viver à beira do colapso, segundo os prognósticos do Dr. Manuel. Como não se sabia o que havia feito o relógio parar, também não se tinha a menor ideia de se ele poderia voltar a funcionar sem aviso algum em direção ao abismo. A decisão, aceita por todos, foi a de isolar o relógio.


Fortalezas imensas foram erguidas, uma após a outra, numa sequência praticamente interminável de vigilância, homens e máquinas em permanente prontidão, vinte e quatro horas por dia. Além disso, não se podia mais medir nada em horas. E, consequentemente, a mania de se medir o passar dos minutos fora completamente abandonada. Apesar da presença permanente da dissolução e do abismo existencial, aflorou entre todos um sentimento de liberdade, agora que as amarras da pontualidade haviam se afrouxado. E a morte? O envelhecimento?


Não se ativeram muito aos detalhes, visto que não demorou para o Exército do Norte atacar. Embora a presença do deserto, o imenso, o implacável e intransponível entre eles, a possibilidade de invasão seria praticamente improvável, pequeníssima, apesar da permanente prontidão militar por mais de um século. O inimigo fez o primeiro ataque com elefantes. Mas os canhões do Sul, em sua precisão e em orgulhosa potência, foram decisivos. Os elefantes, lentos em seus movimentos, pesados e previsíveis, foram bloqueados ainda durante a primeira fase do avanço, quando ainda muito distantes das cidades a serem esmagadas. De súbito, veio a surpresa, após o último elefante cair, quando os inimigos lançaram os tigres, animais leves, velozes e loucos, pouco ou nada previsíveis, ignorando a presença dos canhões e das metralhadoras, como o próprio ar em ventania a passar por cima de qualquer coisa. E os tigres invadiram facilmente as pequenas cidades situadas nos limites do deserto. Uma queda rápida, sangrenta, e com o mínimo de reação.


Os homens do Norte, em suas enormes máquinas de guerra, as defesas já inexistentes, fincaram finalmente a bandeira tremulante da vitória, quando, talvez na execução de um plano desesperado e último, retirou-se o pino que parecia estancar o tempo para o abismo final. Naquela batalha derradeira, já vencida pelo inimigo, o sino do relógio tocou no alto da torre central. Apenas um toque, único, a última hora, o suficiente para o som espalhar-se pelos quadrantes da terra atravessando as densas florestas, descendo os vales, por sobre as montanhas, e prosseguindo além do mundo conhecido, muito além do deserto do Norte, além dos mares e dos oceanos.