23.5.26

ONDAS

Ela recebera a carta numa quinta-feira, o carteiro a entregou em mãos, era a caligrafia dele, escrita aparentemente numa folha de papel de caderno escolar, onde dizia correr tudo bem, conforme o planejado, fazendo questão de lembrar do seu sentimento verdadeiro e de longas saudades dela; e reforçava que estaria, em breve, de volta aos braços da amada. Ela dobrou o papel em quatro e o beijou, guardando-o numa gaveta da penteadeira. Três meses depois, uma outra missiva muito aguardada. O tom era outro, relatava mudanças de planos, imprevistos, e que talvez demorasse mais tempo para retornar. Ela notara, de imediato, o papel; não era o mesmo de antes, era uma folha lisa e sem linhas, embora a caligrafia fosse a dele, mas dando a transparecer que fora redigida com pressa, os garranchos sobretudo pontudos, as curvas muito acentuadas e mais fechadas. Mais uma vez, ela dobrou o papel e o guardou na pequena gaveta de antes, mas sem beijá-lo como fizera da vez anterior. Elisa levantou-se, não sem antes fitar bem o seu rosto no espelho logo ali em frente. Dali em diante, foram dois anos sem qualquer carta dele, bem como não lhe enviou qualquer resposta. O tempo suficiente para conhecer um outro amor. Muito rapidamente, o casamento. Vieram filhos, dois, um menino e, depois, a menina. Prosperaram, mudaram de casa, as cartas foram jogadas fora na primeira mudança, bem como a penteadeira fora entregue a uma tia. Traços do passado se apagando, vieram os desafios do próprio casamento, o filho mais velho fora morar no exterior, o noivado da filha, a morte dos pais, dos tios, as referências que se iam, e as coisas novas substituindo as antigas. Mas aquelas cartas, embora já destruídas, permaneciam lá escondidas no recôndito da alma, em um lugar pequeno, quase nunca visitado, invisível, difícil de acessar, uma ferida quase cicatrizada, mas se tocada, abria-se em sangue. Nem mesmo uma notícia vinda de algum conhecido ou de um parente distante. Havia morrido, estaria com outra, construíra, como ela, uma família? Nada. Mas veio uma terça-feira qualquer, quando ele voltou. Sem aviso algum. E não era mais ele, décadas se passaram, nem mesmo um traço daquela lembrança cada vez mais esmaecida. E ela o estapeou no rosto, quando ele disse quem era, direto no seu rosto envelhecido, seguida de uma voz que não parecia ser a dela, talvez de uma outra coisa lá de dentro. Houve um recuo, mas ainda tentou insistir, quando ela o afastou e bateu-lhe a porta na derradeira tentativa de aproximação. Quando o marido retornou, já um pouco tarde da noite, a encontrou como em todas as vezes anteriores, mas dessa vez ela avisou-lhe que não havia feito o jantar, e teriam que ir a um restaurante. E foram. Mas pela primeira vez, ela contou-lhe sobre aquelas cartas e que delas havia se libertado finalmente naquele dia. O marido quis saber quem era ele, mas Elisa dispunha apenas daquilo do passado, de uma época em que não havia sequer conhecido seu futuro esposo, nada sobre o presente, e não a mínima ideia de como ele a havia encontrado. Mas o marido não se deu por satisfeito com as poucas e ralas justificativas. E o encontrou. Deparando-se com ondas do passado, cartas, juras de amor vencidas, pequenas memórias e feridas da mocidade, mas nada que o fizesse estabelecer um sentido para o presente e, muito menos, para o futuro. Apesar dos apelos, não dera ouvido aos amigos, nem aos colegas do trabalho a insistirem para que esquecesse aquelas bobagens de pessoas ainda muito jovens e inexperientes na vida; muito menos aos parentes próximos e íntimos nas vãs tentativas de fazê-lo desviar do seu intento. Os filhos, já independentes, vieram em seu socorro, mas aquele mundo, assim como veio sem aviso no seu devido momento, de uma hora para a outra, fora deslocado do lugar em que até então repousava, agora impulsionado por uma vaga vinda de outras épocas, o reflexo desse mar que se acalma e se revolta de tempos em tempos. E nessa última vaga, aquele mundo, inesperadamente, se desfez. 

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