O relógio do fim do mundo parou exatamente às 23 horas 59 minutos e 59 segundos. Todos ficaram em suspensão absoluta, nem mesmo um respiro. Convidaram o maior especialista em filosofia do tempo, o Dr. Manuel de Assunção. O veredito, preciso, direto, o tempo havia se esgotado e viveriam eternamente à beira do colapso. Por via das dúvidas, ouviram uma segunda opinião, um engenheiro, engenheiro mecânico. O especialista analisou as engrenagens e, após muito pensar e calcular, afirmou que bastaria “tirar esse pino aqui” e, logo, o relógio seria destravado. Ouviu-se um “não! Não faça isso!”. Ante aquela situação inusitada, decidiram viver à beira do colapso. Como não se sabia o que havia feito o relógio parar, também não se tinha a menor ideia de se ele poderia voltar a funcionar sem aviso algum em direção ao abismo. A decisão aceita por todos foi a de isolar o relógio. Fortalezas imensas foram erguidas, uma após a outra, numa sequência praticamente interminável de vigilância, homens e máquinas em permanente prontidão, vinte e quatro horas por dia. Mas não se podia medir nada em horas, já que o relógio estava parado. E a mania de se medir o tempo fora completamente abandonada. Relógios foram proibidos, bem como qualquer menção ao andamento temporal. E a morte? O envelhecimento? Não vamos nos ater muito aos detalhes, visto que não demorou muito para o Exército do Norte atacar. Entre eles e os do Norte havia o deserto, imenso, intransponível e, por isso, a possibilidade de invasão, apesar da prontidão contra os homens do Norte, esta era de baixa probabilidade. O Norte fez a primeira leva com elefantes. Mas os canhões foram decisivos. Os elefantes caíram antes mesmo de atravessar metade do caminho. No entanto, a defensiva fora pega de surpresa, após o último elefante cair, quando os inimigos lançaram os tigres, velozes, loucos, pouco previsíveis, que passaram por cima dos canhões e invadiram as cidades à beira do deserto. E os homens do Norte, e suas enormes máquinas de guerra, chegaram menos de uma semana depois, as defesas já inexistentes. Mas no exato momento em que os invasores fincaram sua bandeira tremulante, alguém retirou o pino que parecia estancar o tempo para o abismo final. Na batalha derradeira, já vencida pelo inimigo, o sino do relógio tocou. Foi apenas um toque, único, e o som espalhou-se pelos quadrantes da terra, além do mundo conhecido, muito além do deserto, dos mares e dos oceanos.
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