22.5.26

ROBERTA SPARROW

O relógio do fim do mundo parou exatamente às 23 horas, 59 minutos e 59 segundos. Houve aquela suspensão absoluta, nem mesmo um respiro. Convidaram o conhecedor da filosofia do tempo, o Dr. Manuel de Assunção, festejado nos meios acadêmicos, autor de livros e compêndios sobre causalidade, universos paralelos e da íntima relação entre entropia e a estrutura do cosmos.  O veredito, preciso, sem mais delongas e direto: o tempo havia se esgotado e a sociedade, dali em diante, estaria em permanente vertigem e eternamente à beira do colapso. Por via das dúvidas, ouviram uma segunda opinião, um engenheiro, um prático, o engenheiro mecânico Rafael, homem de vasta experiência nos diversos equipamentos de uso militar, científico e industrial. O especialista analisou as engrenagens e, após muito pensar, repensar e calcular, afirmou que bastaria “tirar esse pino aqui” e, logo, o relógio seria destravado. Ouviu-se um “não” e, depois, “Não faça isso!”.


Ante aquela situação inusitada, optaram por viver à beira do colapso, segundo os prognósticos do Dr. Manuel. Como não se sabia o que havia feito o relógio parar, também não se tinha a menor ideia de se ele poderia voltar a funcionar sem aviso algum em direção ao abismo. A decisão, aceita por todos, foi a de isolar o relógio.


Fortalezas imensas foram erguidas, uma após a outra, numa sequência praticamente interminável de vigilância, homens e máquinas em permanente prontidão, vinte e quatro horas por dia. Além disso, não se podia mais medir nada em horas. E, consequentemente, a mania de se medir o passar dos minutos fora completamente abandonada. Apesar da presença permanente da dissolução e do abismo existencial, aflorou entre todos um sentimento de liberdade, agora que as amarras da pontualidade haviam se afrouxado. E a morte? O envelhecimento?


Não se ativeram muito aos detalhes, visto que não demorou para o Exército do Norte atacar. Embora a presença do deserto, o imenso, o implacável e intransponível entre eles, a possibilidade de invasão seria praticamente improvável, pequeníssima, apesar da permanente prontidão militar por mais de um século. O inimigo fez o primeiro ataque com elefantes. Mas os canhões do Sul, em sua precisão e em orgulhosa potência, foram decisivos. Os elefantes, lentos em seus movimentos, pesados e previsíveis, foram bloqueados ainda durante a primeira fase do avanço, quando ainda muito distantes das cidades a serem esmagadas. De súbito, veio a surpresa, após o último elefante cair, quando os inimigos lançaram os tigres, animais leves, velozes e loucos, pouco ou nada previsíveis, ignorando a presença dos canhões e das metralhadoras, como o próprio ar em ventania a passar por cima de qualquer coisa. E os tigres invadiram facilmente as pequenas cidades situadas nos limites do deserto. Uma queda rápida, sangrenta, e com o mínimo de reação.


Os homens do Norte, em suas enormes máquinas de guerra, as defesas já inexistentes, fincaram finalmente a bandeira tremulante da vitória, quando, talvez na execução de um plano desesperado e último, retirou-se o pino que parecia estancar o tempo para o abismo final. Naquela batalha derradeira, já vencida pelo inimigo, o sino do relógio tocou no alto da torre central. Apenas um toque, único, a última hora, o suficiente para o som espalhar-se pelos quadrantes da terra atravessando as densas florestas, descendo os vales, por sobre as montanhas, e prosseguindo além do mundo conhecido, muito além do deserto do Norte, além dos mares e dos oceanos. 

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