28.11.25

NÃO É NADA AINDA

Quando anunciaram o fim do mundo, ninguém ligou. Quer dizer, a imprensa inteira alardeou a previsão, mas a vida continuou como antes. No dia seguinte ao anúncio quase solene, as escolas e as empresas funcionaram normalmente, o trânsito fluiu com guardas e semáforos em atividade, nem mais e nem menos buzinas. Duas noites depois, estreou uma nova novela televisiva, e a previsão seria para durar meses, mas o jornal do mesmo canal passou duas horas comentando sobre o fim dos tempos. No dia seguinte, o apresentador dedicou pouco mais de dez minutos ao assunto e, no tempo restante, apresentaram entrevistas com atores, diretor e autor do roteiro.


A normalidade era até exagerada, com os mais comuns dos meus amigos afirmando que “coisas acontecem, mas depois passam”. Na terça-feira, veio a notícia de que um maremoto invadira a Índia, a Tailândia, o Camboja e o Vietnã. Mas as notícias em nada pareciam abalar a serenidade dos meus colegas de trabalho. Chamei-os para conversar sobre os fatos recentes e extraordinários, o supervisor de área enviou-me para o departamento de recursos humanos, onde fui imediatamente informado de “que não era por aquilo”, mas estava dispensado. Sem emprego, aproveitei para ir ao psicólogo. Perguntei sobre o que ele achava de tudo aquilo, a plenitude da normalidade frente ao fim de todas as coisas. O psicólogo Cássio, com relativa indiferença, escreveu num papel o nome e o telefone de um psiquiatra, caso eu preferisse uma ajuda médica robusta, mais aconselhável para o meu caso, segundo palavras dele. Sempre confiante nas opiniões do psicólogo Cássio, fui ao psiquiatra.


Impressionou-me o consultório. Amplo, imenso, eu diria. Devo aqui descrever o ambiente, merece os parêntesis. Quatro sofás forrados de fino tecido formavam um retângulo no centro. Poltronas numa extremidade e, na outra, uma pia de bronze fosco. Na parede frontal à porta de entrada, logo atrás da mesa do doutor, um imenso quadro, uma pintura em óleo, um tanto abstrata, mas dava para ver ali o que poderia ser o retrato do homem que estava a me receber gentilmente.

Voltemos aos fatos como foram.

- É o senhor?

- Sim.

E foi logo ao assunto da consulta, afirmando que estava sempre pronto a atender pacientes de Cássio, mas fazendo questão de dizer que sua agenda era um pouco concorrida, pois a próxima consulta seria para “daqui a dois meses”, bastando fazer o uso correto da medicação que acabara de anotar no receituário.

- Dois meses? E o fim do mundo, doutor?

- Não há com o que se preocupar, por enquanto.

No dia seguinte, o presidente dos Estados Unidos, da Casa Branca, no Salão Oval, falou em rede de televisão e internet, com tradução simultânea para todas as línguas do planeta.

- Senhores, o mundo vai acabar.

“Agora vai”, pensei.

Não demorou e ficamos sabendo que vulcões enormes em três continentes expulsaram chamas, lavas e cinzas até a estratosfera. Não víamos mais o sol, menos ainda a lua e as estrelas. O brilho do dia não durava uma única hora inteira, nem mesmo ao meio-dia nos trópicos. Mas as escolas, supermercados, postos de saúde, hospitais, clínicas odontológicas e até mesmo as clínicas de emagrecimento continuavam abertas e frequentadas. Os bancos recebiam investimentos e ofertavam empréstimos como se sempre houvesse o amanhã para pagar, consumir, trabalhar e viver.

Retornei ao Dr. Michel, expliquei sobre a minha situação, implorando, pois o meu caso era grave e urgente, era evidente o meu elevado nervosismo. O doutor veio pessoalmente receber-me, apesar do olhar severo, reclamando que fora obrigado a interromper uma consulta com um paciente da psicóloga Lúcia, mas que somente estaria abrindo exceção por eu ser paciente de Cássio.

Ao sentar-se, com calma, atrás da imensa mesa de madeira sólida, apontou para o quadro logo atrás, e perguntou:

- Quem o senhor vê?

- O senhor, doutor Michel.

- Olhe melhor, observe a pintura com mais atenção e interesse redobrado.

- Pode ser que seja eu, doutor Michel?

- Muito bem, muito bem. Já é um bom início para o seu caso. Achamos que tudo gira ao nosso redor, não é? Sentimos que somos o centro, o umbigo, os sentimentos mais íntimos valendo mais do que podem de fato ser.

- Desculpe, doutor, o senhor não vê que não há mais dia neste mundo? As cinzas caem sobre tudo e todos, olhe pela sua janela, veja as ruas, elas estão forradas dessa coisa vulcânica, mal conseguimos respirar, fui obrigado a utilizar uma máscara para chegar até aqui.

Antes do encerramento da consulta, vieram os trovões, seguidos de raios. Tudo tremeu naquela sala, o quadro vibrou em sua moldura sob aqueles estrondos vindos do alto. A pequena estatueta de bronze sobre a mesa tombou e rolou até o chão.

- Não sei como o senhor pode reagir assim, doutor.

- Sim, sim, você está certo, mas não é nada ainda.

9.8.25

INVASÃO

Quando os alienígenas chegaram, ninguém estava minimamente preparado. Não houve aviso prévio algum, as estações astronômicas que monitoravam asteroides não detectaram qualquer objeto em aproximação. Foi um vexame para agências, sociedades científicas e toda a sorte de observadores do espaço. Até ali, era consenso a impossibilidade de sermos visitados por objetos advindos de outra civilização, nenhuma em nosso sistema solar e nem na vizinhança estelar. O que se sabe até agora é que chegaram, dava para ver a olho nu, coisas enormes no céu, e havia umas menores, bem rápidas, praticamente invisíveis. As redes de TV passaram a cobrir a invasão vinte e quatro horas por dia, também os canais da internet. A imensidão dos antigos podcasts de palpiteiros, com toda a sorte de opiniões sobre os invasores. Aqui, no rés das ruas, caos, a visão dos saques e da violência.

 

No quinto dia, enxames de objetos desgarraram-se dos maiores, voaram em baixa altitude sobre cidades. Como as coisas começaram a desmoronar nos dias anteriores, desde o primeiro, pouco havia de força policial ou militar organizada para dar algum suporte ao nosso modo de vida. Mas sumiram, tão rapidamente como chegaram, não deixando rastros nem mensagens. A presença dos visitantes marcou-nos tão poderosamente, no caos generalizado, que os dias seguintes foram muito piores, num crescente de selvageria talvez nunca vista. Tornamo-nos incapazes de controlar e conter o medo de retornarem.


Hoje, tenho um bar.


Vendo cervejas produzidas aqui na região, pouquíssimas mercadorias vêm de fora. Submeti-me a um processo rigoroso para poder comercializar o produto, também a um outro ainda mais complicado, de autorização para armazenar num refrigerador. Equipamentos, por mais antigos que sejam, são considerados itens de segurança. Nada é fácil, a certificação para refrigeração levou um ano.


As pessoas parecem gostar do meu bar, sou discreto e amigável, acho que até simpático. Ofereço crédito para aqueles que não podem pagar no consumo. Mas não tenho autorização para vender carnes. Faço um arranjo com tomates desidratados, queijo e pão.


Mas ouço. Um grupo defende que eles vieram, desceram e nos disseram para viver assim. Outros falam que tudo não passou de uma farsa e que estamos apenas cumprindo ordens ocultas de quem nos controla.


Como tenho esse bar e vivo dele para o meu sustento, não posso deixar que grupos organizados utilizem o estabelecimento para conspirar. Já expulsei vários indivíduos inconvenientes e brigões. Dono de bar é assim, você é obrigado a impedir aquilo que possa prejudicar o seu negócio. E confesso que cresci no ramo de vendas de cervejas por saber, além de tudo, manter a harmonia em meu estabelecimento.


De resto, uma rotina pacata. Seja certo ou não.


Mas por trás dessa aparência quase idílica, a verdade é que a repressão é feroz. Recentemente, caiu aqui na América do Sul um meteorito, o bólido cruzou o céu e veio a se espatifar na floresta. Trezentas pessoas foram presas.


Há um grupamento, embora não identificado, citado apenas nas conversas de pé-de-ouvido. Essa gente argumenta em defesa de um modo de vida ainda mais simples e com os mais variados impedimentos de avanços e melhorias.


Já um tanto envelhecido, longe das facilidades médicas de outrora, conduzo o meu primogênito para as boas práticas da refrigeração e comercialização de bebidas. Ele parece gostar, e demonstra habilidades, especialmente no trato com os clientes. Fez uma visita especial e raríssima a uma fábrica, voltando de lá encantado.


O negócio da família é estável. Estabilidade, equilíbrio e paz. Apreciamos e louvamos práticas que garantam uma vida sem sobressaltos e uma rotina longe do que possa romper a ordem dentro dos limites que conhecemos.


Nos reunimos anualmente em cerimônias oficiais, quando choramos sinceramente os mortos vitimados pelo caos, e somos lembrados duramente de estarmos em guerra, não somente na espera, mas de firme recuo frente a um inimigo que se esconde nos confins do universo. E nos envergonhamos da rota da insensatez, da soberba e do destemor.


Mas voltemos às cervejas. Aqui em Duas Serras a, a marca que vendemos é Amicto. Espuma densa, pesada, rústica, sabor levemente amargo. O rótulo, de papel, colado à garrafa, traz a imagem de um peixe, em tom amarelado, imóvel em seu nado quase artístico e plácido, como se em águas cristalinas. 

30.7.25

CIGARROS

Lembrei dele agora. Sother.


Fomos colegas no ensino médio. Na época, o curso médio tinha outro nome. Já observaram que as coisas mudam de nome de quinze em quinze anos? Mas voltemos ao texto. Tomamos caminhos diferentes, fui estudar contabilidade; ele, medicina.


E eis que, muitos anos depois, encontro o bom ex-colega Sother. Como estava magro!


- o que há, Sother?


- é a vida.


- Mas você não é médico? Cuide-se, procure seus colegas de profissão, é para isso que servem os colegas.


- Não sei mais o que fazer…


- Talvez eu possa ajudá-lo, Sother, sempre vale a pena tentar.


E lá fomos nós. Marcamos numa boate. Era a casa da moda, todas as garotas, as bonitas, claro, iam para lá. O meu amigo, até por conta dos seus problemas, nunca havia pisado naquele lugar um tanto exótico para sua rotina de então.

- Aqui é o paraíso, Sother. Seus males serão coisas do passado.


Apresentei-lhe Betinha. Betinha era estudante do último ano de psicologia, uma moça de hábitos e pensamentos alternativos, usava roupas psicodélicas e ouvia Yes, Pink Floyd, Genesis. Mas o que importa é o fato de Sother ter gostado dela, tornaram-se não somente namoradinhos, mas ele também passou a gostar do Yes. Certa vez, convidou-me a visitá-los, quando já moravam juntos, e passamos uma noite de sábado ouvindo o novo álbum, a capa do long play lembrava a paisagem de um planeta mágico, e as músicas eram imensas, elas não acabavam nunca.


Havia agora o semblante de felicidade em Sother, visivelmente restabelecido, não somente estava saudável, realizado, acordara definitivamente para a vida, teve filhos, e sempre dedicado à amada profissão médica. Além disso, engordou. Sother era alto, e agora já com outra compleição, parecia ser um atleta.


Mas a vida vai e volta.


Sother mantinha um único vício, o tabagismo. Soube que em certa manhã de sábado, saiu para comprar uma carteira de cigarros. Dizem que fora visto entrando na mercearia de um bairro central da cidade. O proprietário confirma que lhe vendeu um maço, mas não se recorda de muito mais do que isso, apenas um acréscimo de pouco valor, que pagara em dinheiro em espécie, em notas miúdas. Naqueles tempos não havia essa imensidão atual de câmeras espalhadas pelas ruas, prédios, casas e avenidas. Apenas o testemunho humano. Um morador de rua que ficava por ali, falou a um policial sobre um homem da mesma estatura e biotipo de Sother ter entrado em um carro estacionado do outro lado da calçada em que ficava o seu ponto. Não conseguia lembrar-se da marca ou da cor do veículo.


Recentemente, saiu uma foto num jornal, uma nova tentativa de busca, uma elaboração artística de como Sother seria atualmente. Betinha a enviou para mim. Era um Sother adentrado em anos, cabelos grisalhos, olhos afundados, queixo proeminente. “Sei lá, uma última tentativa”, foi o que ela disse, ainda inconformada, apesar dos anos, a indagar sobre o que poderia estar por trás do desaparecimento do grande e maior amor de sua vida, uma saída de casa para comprar cigarros e nunca mais retornar, nem mesmo um bilhete, um recado, um aviso, nada. Além das consultas psiquiátricas com o Dr. Michel, falou também que buscara ajuda de uma vidente, famosa, mas nem naquela busca desesperada através do sobrenatural obtivera menor alívio ou uma fagulha de esperança de que ele estivesse vivendo bem ou mal noutro lugar, ou morto.


As autoridades policiais deram como desaparecido.


Uma vizinha do casal falou a um repórter, logo após o acontecido, que alimentava uma desconfiança: “No íntimo, um sentimento vivo, sempre tomada por um incômodo quando o via, uma visão do seu destino, que um dia, em um dia qualquer, ele faria aquilo, e sumiria para sempre.”

19.7.25

FORÇA ESTRANHA

Anos 80. Comprei o novo álbum do Talking Heads.


Quem indicara o disco, desta vez não mais aquele professor genial de antes. Uma escolha particular do vendedor da casa de discos, pois eu vinha de uma sequência de falhas trágicas.


- não tem como falhar, Ubaldino.


O ritmo, a instrumentação, as influências africanas.


Havia conhecido a moça no banco. Teria ido lá supostamente levando o pai, ou levada por ele, não sei bem, um homem muito velho. Talvez somente velho não seja o melhor adjetivo para ele. Enfim, foram fazer atualização de um cadastro. Fiquei impressionado com a antiguidade dos registros, mas era o meu trabalho apenas fazer o que fosse necessário para regularizar a situação cadastral do cliente, mas sempre de olho na acompanhante.


Talvez eu deva dar um pulo maior na narrativa.


A moça chegou ao meu apartamento, e logo começamos a dançar. Não era uma dança qualquer. Hipnótica. Ela girava, e a minha cabeça girava junto, faixa após faixa daquele long play. Após o disco tocar três vezes, busquei o sofá para um breve descanso. Ela permaneceu dançando, mas era para mim.


E foi a partir dali que tudo começou. Seu rosto transformou-se, o sorriso era pura lascívia, devassidão e luxúria. E foi quando ela avançou. Como num bote.


No trabalho, os colegas deram-se conta de que eu havia faltado dois dias. Arrombaram a porta, e fui encontrado ainda naquele sofá, “sem uma gota de sangue”, é o que disseram depois, e os exames constataram praticamente este fato. Passei três semanas no hospital. Duas transfusões e um padre.


Escolho o caminho mais direto, e fui ao salão de uma vidente. Ao abrir a porta, a mulher recusou-se a fazer o seu trabalho. Ainda convalescendo e fora do trabalho, soube através de um bom colega que aquele cliente voltara com sua jovem companheira para pedir transferência dos valores para fora do país, encerrando a conta.


Nunca mais ouvi o Talking Heads. Uma rejeição vã. Pois aquele rosto ainda habita em meus pensamentos, também nos sonhos e pesadelos. A desconfiança de que ela nunca se foi. Eu a vejo misturada na multidão ou adentrando um elevador, subindo uma escada ou quando acordo no meio da noite. De certa feita, numa sorveteria, fui ao balcão fazer um pedido. E juro que foi ela quem me atendeu, e sorriu. Não sei o que se pode pensar de um homem já velho que sai correndo de dentro de uma sorveteria.


E tudo começou nos anos 80.

TARKUS

 Vocês conhecem aquele LP do Emerson Lake & Palmer com um tatu-pistola na capa? 

Eu comprei Tarkus para um primeiro encontro. Indicação de um ex-professor de faculdade, aquele de sempre, vocês já sabemd. O cara era um gênio.

- esse ai não falha, Ubaldino. 

E lá fui eu. Bem verdade que a capa era um tanto estranha, um bicho tecno-mitológico, mistura de tatu, tanque de guerra e pistola. Como uma moça, embora avançadinha e que usava mini-saia, poderia se encantar? Pior. As músicas. Meu Deus, o que era aquilo? Mas já havia comprado, em dólar.

Quando a mocinha adentrou meu apartamento, já estava tocando a faixa título do álbum. 

- o que é isso, Ubaldino?

- Tarkus, última moda em Londres.

Parecia assustada com o som do teclado. Segundo o meu professor, Keith Emerson fazia dos multi-teclados um tipo moderno de percussão, misturando jazz, música clássica e sons psicodélicos. 

Mas acreditem, felizmente, veio o blackout e faltou luz no exato momento. A vitrola estancou. 

Eu diria que a escuridão é, ao mesmo tempo, o esconderijo da alma e a luz dos instintos. É nela que as mulheres se entregam totalmente.

Julho de 2025

15.6.25

OCASO

Eu vi o fim do Orkut, e agora assisto ao ocaso do Facebook. Os dias do ocaso são alanrajdos, como um permanente pôr do sol. As pessoas, poucas, andam lentamente de um lado para o outro, entram e saem de seus esconderijos e passam o resto do dia lá dentro, fazendo ninguém sabe o quê.

Nós aqui já vimos muitas coisas, os da minha geração assistiram ao fim do império soviético. Eu estava no banco, e um colega trouxe um jornal: “olha prá isso aqui, Ubaldino!”. Mas deparava-me no momento  com uma diferença no caixa, pouca, mas sabe como é, e não dei muita atenção. Ao final do expediente, já exausto e totalmente esquecido do jornal, fui visitar a minha nova namoradinha, linda, pele rosada, cabelos loiros, lábios avermelhados, um doce. Não era o momento de  lembrar-se do fim da União Soviética. Já havia passado o Natal, é verdade, mas havia o clima natalino ao redor. E aproximava-se o Ano Novo. E eu com uma namoradinha nova.

Meses depois, descobri que ela amava um outro cara, e fugiu com ele. Num Corcel. Ele tinha um Corcel amarelo, disseram-me. Senti uma pontada. Foi aí que o meu mundo caiu.


Junho de 2025