30.7.25

SOTHER



Lembrei-me agora de um amigo.

Sother.

Fomos colegas no ensino médio que, naquela época, tinha outro nome. Já observaram que as coisas mudam de nome de quinze em quinze anos? 

Mas voltemos ao texto. Tomamos caminhos diferentes. Ao final do ensino médio, que agora tem outro nome, e notem que já mudou de nome várias vezes ao ir e vir das ondas.

Pois bem, eu fui estudar contabilidade; ele, medicina.

E eis que, anos depois, encontro o bom ex-colega Sother. Como estava magro o bom amigo Sother.

- o que há, Sother?

- é a vida.

- mas você não é médico? Cuide-se, procure seus colegas de profissão, é para isso que servem os colegas.

- não sei mais o que fazer…

- talvez eu possa ajudá-lo, Sother, sempre vale a pena tentar.

E lá fomos nós. Marcamos numa boate. Era a casa da moda, todas as garotas, as bonitas, claro, iam para lá. O meu amigo, até por conta dos seus problemas, nunca havia pisado naquele lugar um tanto exótico para sua rotina de então.

- aqui é o paraíso, Sother. Seus males serão coisas do passado.

Apresentei-lhe Betinha. Betinha era estudante do último ano de psicologia, uma moça de hábitos e pensamentos  alternativos, usava roupas psicodélicas e ouvia Yes. Já falei do Yes para vocês? 

Sother gostou de Betinha, tornaram-se não somente namoradinhos, mas ele também passou a gostar do Yes. Certa vez, convidou-me a visitá-los, pois já moravam juntos, e passamos uma noite de sábado ouvindo o novo álbum, a capa do long play lembrava a paisagem de um planeta mágico, e as músicas eram imensas, meu Deus, elas não acabavam nunca.

Mas eu fiquei profundamente feliz. Sother, agora visivelmente restabelecido, não somente estava saudável, realizado e feliz, acordara definitivamente para a vida, teve filhos, dedicando-se enormemente à amada profissão médica, tornando-se um cardiologista de renome, e engordou. Sother era alto, e agora já com outra compleição, parecia um armário.

Mas eis que veio uma tragédia. O que  vocês acham que aconteceu?

Pensem, imaginem, botem a cabeça pra pensar, elaborem hipóteses engenhosas.

Sother mantinha um único vício, o tabagismo. Certa manhã de sábado, saiu para comprar uma nova carteira de cigarros, a última havia se esgotado na noite anterior. Dizem que fora visto entrando na mercearia de um bairro central da cidade. O proprietário confirma que vendeu-lhe um maço, mas não se recorda de muito mais do que isso, apenas um acréscimo de pouco valor, que pagara em dinheiro em espécie, em notas miúdas. Naqueles tempos não havia essa imensidão atual de câmeras espalhadas pelas ruas, prédios, casas e avenidas. Apenas o testemunho humano. Um morador de rua que ficava por ali, disse a um policial que um homem da mesma estatura e biotipo de Sother entrara em um carro estacionado do outro lado da calçada em que ficava o seu ponto. Não conseguia lembrar-se da marca ou da cor do veículo. Recentemente, saiu uma foto num jornal, uma nova tentativa de busca, uma elaboração artística de como Sother seria nos dias atuais. Betinha a enviou para mim. Era um Sother adentrado em anos, cabelos grisalhos, olhos afundados, queixo proeminente, orelhas ressaltadas, lábios inexpressivos. Sei lá, uma última tentativa vã, ela disse. E acrescentou, ainda inconformada, apesar dos anos, o que poderia estar por trás do desaparecimento do grande e maior amor de sua vida, talvez o único verdadeiro amor, uma saída de casa  para comprar cigarros e nunca mais retornar, nem mesmo um bilhete, um recado, um aviso, nada. Ela falou que buscara ajuda de uma vidente, uma vidente famosa, e que nem assim obtivera menor alívio, nem mesmo aquela fagulha de esperança de que ele estivesse vivendo bem ou mal noutro lugar, ou morto. As autoridades policiais deram como desaparecido. Uma vizinha de apartamento daquela fase feliz da vida do casal dizia que tinha certeza absoluta de que, em um dia qualquer, chuvoso ou ensolarado, Sother faria aquilo, e sumiria para sempre.

Agosto de 2025

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