Lembrei dele agora. Sother.
Fomos colegas no ensino médio. Na época, o curso médio tinha outro nome. Já observaram que as coisas mudam de nome de quinze em quinze anos? Mas voltemos ao texto. Tomamos caminhos diferentes, fui estudar contabilidade; ele, medicina.
E eis que, muitos anos depois, encontro o bom ex-colega Sother. Como estava magro!
- o que há, Sother?
- é a vida.
- Mas você não é médico? Cuide-se, procure seus colegas de profissão, é para isso que servem os colegas.
- Não sei mais o que fazer…
- Talvez eu possa ajudá-lo, Sother, sempre vale a pena tentar.
E lá fomos nós. Marcamos numa boate. Era a casa da moda, todas as garotas, as bonitas, claro, iam para lá. O meu amigo, até por conta dos seus problemas, nunca havia pisado naquele lugar um tanto exótico para sua rotina de então.
- Aqui é o paraíso, Sother. Seus males serão coisas do passado.
Apresentei-lhe Betinha. Betinha era estudante do último ano de psicologia, uma moça de hábitos e pensamentos alternativos, usava roupas psicodélicas e ouvia Yes, Pink Floyd, Genesis. Mas o que importa é o fato de Sother ter gostado dela, tornaram-se não somente namoradinhos, mas ele também passou a gostar do Yes. Certa vez, convidou-me a visitá-los, quando já moravam juntos, e passamos uma noite de sábado ouvindo o novo álbum, a capa do long play lembrava a paisagem de um planeta mágico, e as músicas eram imensas, elas não acabavam nunca.
Havia agora o semblante de felicidade em Sother, visivelmente restabelecido, não somente estava saudável, realizado, acordara definitivamente para a vida, teve filhos, e sempre dedicado à amada profissão médica. Além disso, engordou. Sother era alto, e agora já com outra compleição, parecia ser um atleta.
Mas a vida vai e volta.
Sother mantinha um único vício, o tabagismo. Soube que em certa manhã de sábado, saiu para comprar uma carteira de cigarros. Dizem que fora visto entrando na mercearia de um bairro central da cidade. O proprietário confirma que lhe vendeu um maço, mas não se recorda de muito mais do que isso, apenas um acréscimo de pouco valor, que pagara em dinheiro em espécie, em notas miúdas. Naqueles tempos não havia essa imensidão atual de câmeras espalhadas pelas ruas, prédios, casas e avenidas. Apenas o testemunho humano. Um morador de rua que ficava por ali, falou a um policial sobre um homem da mesma estatura e biotipo de Sother ter entrado em um carro estacionado do outro lado da calçada em que ficava o seu ponto. Não conseguia lembrar-se da marca ou da cor do veículo.
Recentemente, saiu uma foto num jornal, uma nova tentativa de busca, uma elaboração artística de como Sother seria atualmente. Betinha a enviou para mim. Era um Sother adentrado em anos, cabelos grisalhos, olhos afundados, queixo proeminente. “Sei lá, uma última tentativa”, foi o que ela disse, ainda inconformada, apesar dos anos, a indagar sobre o que poderia estar por trás do desaparecimento do grande e maior amor de sua vida, uma saída de casa para comprar cigarros e nunca mais retornar, nem mesmo um bilhete, um recado, um aviso, nada. Além das consultas psiquiátricas com o Dr. Michel, falou também que buscara ajuda de uma vidente, famosa, mas nem naquela busca desesperada através do sobrenatural obtivera menor alívio ou uma fagulha de esperança de que ele estivesse vivendo bem ou mal noutro lugar, ou morto.
As autoridades policiais deram como desaparecido.
Uma vizinha do casal falou a um repórter, logo após o acontecido, que alimentava uma desconfiança: “No íntimo, um sentimento vivo, sempre tomada por um incômodo quando o via, uma visão do seu destino, que um dia, em um dia qualquer, ele faria aquilo, e sumiria para sempre.”
Nenhum comentário:
Postar um comentário