Anos 80. Comprei o novo álbum do Talking Heads.
Quem indicara o disco, desta vez não mais aquele professor genial de antes. Uma escolha particular do vendedor da casa de discos, pois eu vinha de uma sequência de falhas trágicas.
- não tem como falhar, Ubaldino.
O ritmo, a instrumentação, as influências africanas.
Havia conhecido a moça no banco. Teria ido lá supostamente levando o pai, ou levada por ele, não sei bem, um homem muito velho. Talvez somente velho não seja o melhor adjetivo para ele. Enfim, foram fazer atualização de um cadastro. Fiquei impressionado com a antiguidade dos registros, mas era o meu trabalho apenas fazer o que fosse necessário para regularizar a situação cadastral do cliente, mas sempre de olho na acompanhante.
Talvez eu deva dar um pulo maior na narrativa.
A moça chegou ao meu apartamento, e logo começamos a dançar. Não era uma dança qualquer. Hipnótica. Ela girava, e a minha cabeça girava junto, faixa após faixa daquele long play. Após o disco tocar três vezes, busquei o sofá para um breve descanso. Ela permaneceu dançando, mas era para mim.
E foi a partir dali que tudo começou. Seu rosto transformou-se, o sorriso era pura lascívia, devassidão e luxúria. E foi quando ela avançou. Como num bote.
No trabalho, os colegas deram-se conta de que eu havia faltado dois dias. Arrombaram a porta, e fui encontrado ainda naquele sofá, “sem uma gota de sangue”, é o que disseram depois, e os exames constataram praticamente este fato. Passei três semanas no hospital. Duas transfusões e um padre.
Escolho o caminho mais direto, e fui ao salão de uma vidente. Ao abrir a porta, a mulher recusou-se a fazer o seu trabalho. Ainda convalescendo e fora do trabalho, soube através de um bom colega que aquele cliente voltara com sua jovem companheira para pedir transferência dos valores para fora do país, encerrando a conta.
Nunca mais ouvi o Talking Heads. Uma rejeição vã. Pois aquele rosto ainda habita em meus pensamentos, também nos sonhos e pesadelos. A desconfiança de que ela nunca se foi. Eu a vejo misturada na multidão ou adentrando um elevador, subindo uma escada ou quando acordo no meio da noite. De certa feita, numa sorveteria, fui ao balcão fazer um pedido. E juro que foi ela quem me atendeu, e sorriu. Não sei o que se pode pensar de um homem já velho que sai correndo de dentro de uma sorveteria.
E tudo começou nos anos 80.
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