19.7.25

FORÇA ESTRANHA


 Anos 80. Comprei o novo álbum do Talking Heads.

Quem indicou o disco? Aquele professor genial? Não. O vendedor da casa de discos, um sujeito meio hippie. Mas eu vinha de uma sequência de falhas trágicas. Precisava mudar.

Que noite, Matias. O ritmo, a instrumentação, as influências africanas no som do Talking.

Havia conhecido a moça no banco. Ela  fora lá supostamente levando o pai, um sujeito muito velho - caramba, como ele era velho -, para atualização de um cadastro de uma época em que eu não havia nem nascido. Fiquei impressionado, mas tudo bem. Trabalho é trabalho. Mas eu não deixava escapar nada. 

A moça chegou e logo começamos a dançar. Não era uma dança qualquer, era uma coisa totalmente hipnótica, ela girava, e a minha cabeça girava junto. E fomos levando daquele jeito, faixa após faixa, eu já não aquentava mais de cansaço após o disco tocar três vezes, mas ela estava inteirinha, até que caí no sofá já quase desmaiado, e ela permaneceu dançando para mim. Só que foi a a partir dali que tudo começou. Seu rosto não parecia o mesmo, o sorriso era pura lascívia, devassidão e luxúria.

E ela avançou. Mal percebi, de tão rápido que ela avançou. 

Fui encontrado pelos colegas da agência. Havia faltado dois dias ao trabalho. Quando arrombaram o apartamento, estava largado no sofá como um pobre diabo e sem uma gota de sangue no rosto. Passei tres semanas no hospital. Duas transfusões, um padre. Mas sou forte.

Desesperado, tentei todo tipo de explicação. Procurei uma vidente. Ela olhou-me ao abrir a porta, o que bastou para dar um pulo pra trás. Enquanto permanecia convalescendo e fora do trabalho, soube através de um bom colega que aquele cliente que parecia ter trezentos anos de idade voltara com sua jovem companheira para pedir transferência de valores para fora do país, encerrando a conta.

Julho de 2025

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