23.4.26

SLEEP

Os sonhos vêm e vão. A mercearia, muito pequena, prateleiras próximas, corredores apertados, mercadorias indistinguíveis. Eu a vejo, está lá no fundo, mas está longe, não a alcanço nem mesmo com o olhar, a visão é embaçada, turva, como se debaixo d’água, a nitidez não permite distinguir olhos, boca, nariz, se está ou não usando óculos. Mas sei que é ela. Porque lembro da última vez em que a vi, faz tempo, muito tempo, quando éramos jovens e mundo era uma novidade, é como tento vê-la agora, mas sempre distante, não somente a distância, como se lá nunca estivesse, nem eu também. Talvez tenha sido sempre assim. As escadas da escola eram largas, os corrimões arredondados, descíamos juntos, eu a ajudava a levar seus livros, uma moça frágil, leve, andava como uma garça, cabelos loiros e finos, os fios embaralhavam sobre a face, a face muito branca, e pouco ou nada sorria, o que impedia de conhecê-la, ela, seus interesses, a alma e pensamentos. A última vez em que a vi foi naquela escada, não imaginava que pudesse ser a última vez, mas ali, ao final dos degraus, nos separamos, e nos separamos para nunca mais, apenas presente nessas visões embaçadas e sem palavras. Dá-me a impressão, no dia seguinte, que não mais existe ou, se ainda permanece neste mundo, possui outra forma, tão diferente da que ela que outrora exibia, talvez impossível distingui-la de tantas formas que vieram e também se foram. A mercearia, prateleiras tortas, corredores estreitos, corredores difíceis de percorrer, mas desta vez ela não está ali, nem sempre está. Às vezes, sim; às vezes, não. Não há como saber de sua presença quando você ainda está adentrando a mercearia, somente quando já está lá no meio do labirinto de prateleiras, várias delas repletas de produtos, mas outras estão vazias, sujas, quebradas, quando perde-se lá dentro, e nunca há como sair. Os sonhos vêm e vão. Passam dias, meses, sem tê-los, mas voltam, sempre voltam. E o relembrar de ter descido aquelas escadas, os degraus de madeira, madeira antiga, lisa, pesada, os detalhes menos nítidos, ao ponto de desaparecem totalmente, muito menos a  ideia do que havia ao redor. Os sonhos vêm e vão e, quando retornam, não são exatamente como foram antes. Sempre fora do controle e da vontade. Cada vez uma visão diferente, uma ilusão diferente, e a memória e a realidade vão tomando outras formas. 

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