Os sonhos vêm e vão. A mercearia, muito pequena, prateleiras próximas, corredores apertados, mercadorias indistinguíveis. Eu a vejo, está lá no fundo, mas está longe, não a alcanço nem mesmo com o olhar, a visão é embaçada, como se debaixo d’água da turva, a pouca nitidez não permite distinguir olhos, boca, nariz, se está ou não usando óculos, mas sei que é ela, porque lembro da última vez em que a vi, faz muito tempo, quando éramos jovens e mundo era uma novidade para nós. Tento vê-la agora, mas sempre distante, não somente a distância, como se lá nunca estivesse, nem eu também. Talvez tenha sido sempre assim, as escadas da escola eram largas, os corrimões arredondados, descíamos juntos, eu a ajudava a levar os livros, uma moça frágil, leve, andava como uma garça, cabelos loiros e finos, os fios embaralhavam sobre a face, a face muito branca, e pouco ou nada sorria, o que impedia de conhecê-la, ela, seus interesses, alma e os pensamentos. A última vez em que a vi foi naquela escada, não imaginava que pudesse ser a última vez, mas ali, ao final dos degraus, nos separamos, e nos separamos para nunca mais, apenas agora presente nessas visões embaçadas e sem palavras. Dá-me a impressão, no dia seguinte, que não mais existe ou, se ainda permanece neste mundo, possui outra forma, tão diferente daquela que outrora exibia, talvez impossível distingui-la de tantas formas que vieram e se foram. A mercearia, prateleiras tortas, corredores estreitos, corredores difíceis de percorrer, mas ela nem sempre está ali, somente a esperança. Às vezes, sim; às vezes, não. Não há como saber de sua presença quando você ainda está adentrando a mercearia, somente quando já está lá no meio do labirinto de prateleiras, várias delas repletas de produtos, mas outras estão vazias, sujas, quebradas, e é fácil e comum perde-se lá dentro, e nunca há como sair. Os sonhos vêm e vão. Passam dias, meses, sem tê-los, mas voltam, sempre voltam. E o relembrar de ter descido as escadas, os degraus de madeira, madeira antiga, lisa, pesada, os detalhes cada vez menos nítidos, ao ponto de desaparecem totalmente, menos ainda a visão do que havia ao redor. Os sonhos vêm e vão e, quando retornam, não são exatamente como foram antes. Sempre fora do controle e da vontade. Cada vez uma visão diferente, uma ilusão diferente; e a memória, a realidade e as lembranças de Betinha vão tomando outras formas.
23.4.26
SLEEP
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