23.4.26

MÁQUINAS

Em dezembro há a reunião das máquinas. Elas realizam o encontro no estacionamento de um antigo supermercado, um lugar abandonado onde o mato cresce durante o ano quebrando o pavimento que poucas décadas antes era ocupado pelos automóveis. As primeiras a chegarem cortam o mato e fecham as rachaduras com uma substância plástica. Em seguida, as arrumadeiras, erguem barracas, algumas enormes para exposições de peças de reposição. Depois da arrumação, um volume imenso delas, de todos os pontos cardeais, convergem para aquele lugar. Não há mais supermercados. As pessoas compram tudo, tudo aquilo que no passado não tão distante era vendido neles, por via de aplicativos interligados, e os produtos chegam por de entregas feitas por máquinas. É um tanto estranho que elas tenham decidido fazer a festa anual no lugar onde havia a confluência diária dos humanos. Você pode achar que é uma vingança das máquinas, mas não há nada que indique isso. São eventos pacíficos, elas ficam ali durante o mês inteiro, mas não interrompem as entregas, vão e voltam. E parecem apreciar coreografias, sobem umas sobre as outras, na vertical, torres imensas de luzes piscantes; ou uma coreografia muito peculiar o core quando espalham-se no plano horizontal do antigo estacionamento e dão pulinhos, uma aqui, uma outra acolá, e não há como prever qual será a próxima a fazê-lo, um balé aleatório e imprevisível. Sabemos disso por imagens que não chegam, ninguém se atreve a assistir ao espetáculo presencialmente. É o encontro delas. Há também o momento de emissão de sons, sons de máquinas, nada que possa parecer humano, não é música como a conhecemos, não faz sentido aos nossos ouvidos. Mas há outras reuniões delas noutras localidades, gigantescas, e também a grande concentração mundial, em junho. Elas voam, todas elas, e dirigem-se para continentes escolhidos ninguém sabe como. Nos dias da reunião mundial, não há como receber produto algum nas residências. Como não estamos mais acostumados a sair para comprar, e nem há onde comprar, abastecemos as despensas um mês antes da reunião mundial. Mas a que mais nos anima é a local, e todos esperam que dezembro chegue logo.

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