Em dezembro há a reunião das máquinas aqui em Duas Serras. Elas realizam o encontro no estacionamento de um supermercado abandonado, onde o mato cresce durante o ano quebrando o pavimento que poucas décadas antes era ocupado pelos automóveis. As primeiras a chegarem cortam o mato e consertam as rachaduras. Chegam depois as arrumadeiras. Erguem barracas para exposições de peças de reposição, e deixando tudo pronto para a chegada de vários modelos, de todos os pontos cardeais, que convergem para aquele lugar.
Bom dizer que as pessoas compram tudo, tudo aquilo que no passado era vendido em mercados, agora fazem em aplicativos hiper conectados, e os produtos chegam por entregas feitas por máquinas. É um tanto estranho que elas tenham decidido fazer a festa anual no lugar onde havia a confluência diária dos humanos. Poderiam ter construído facilmente espaços próprios e mais adequados. É possível conceber que se trata de uma vingança, mas pode ser qualquer outra coisa que elas criaram. São eventos pacíficos, elas ficam ali durante o mês inteiro, mas não interrompem as entregas, vão e voltam. E parecem apreciar coreografias, sobem umas sobre as outras, na vertical, formando torres imensas de luzes piscantes; uma outra coreografia, muito peculiar, que realizam nestes eventos ocorre quando se espalham no plano horizontal do antigo estacionamento e dão pulinhos, uma aqui, uma outra acolá, e não há como prever qual será a próxima a fazê-lo, um balé aleatório e imprevisível.
Sabemos disso por imagens que nos chegam, ninguém se atreve a assistir ao espetáculo presencialmente. Não por medo, eu acho, mas por ser o encontro delas. Há também o momento de emissão de sons, sons de máquinas, nada que possa assemelhar-se ao humano, não é música como a conhecemos, não faz sentido aos nossos ouvidos. Sabe-se que realizam também reuniões delas em outras localidades, além da grande convenção mundial, em junho.
Em junho, elas voam, todas elas, e dirigem-se para um continente escolhido ninguém sabe como. Nos dias da reunião mundial, não há como receber produto algum nas residências. Como não estamos mais acostumados a sair para comprar, e nem há onde comprar, abastecemos as despensas um mês antes.
Mas a mais esperada por aqui é a local, e todos esperam que dezembro chegue logo.
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