Ela foi até o frigobar e retornou com cerveja, dois copos, cada um deles pela metade. E deu um para o marido. Brindaram, como é comum nessas ocasiões em que casais completam aniversário de casados. Ele a tomou como a sua mulher num sábado ensolarado, a capela era pequena, nem dava para todos os convidados lá dentro, muito menos sentados. E lá fora o céu sem nuvens deixava o sol penetrar por todas as fendas, mas não fazia calor algum, o inverno apenas trazia frescor naquela celebração da união entre eles; e foi o que eles sentiram quando brindaram os trinta e cinco anos do matrimônio que passara incólume por todos os anos, especialmente quando o deserto avançou, tomando toda a região. Além da casa deles, pouquíssimas ainda existiam, e nenhuma por perto, podia-se andar quilômetros sem passar por uma única alma, e havia as tempestades de areia, e ainda bem que construíram aquele lar totalmente protegido da fina areia que soprava por meses sem dar qualquer sinal de alívio. Antes dele, ela tomou um pequeno gole. Colocou o copo sobre a mesa de centro e foi em direção à vitrola que ainda mantinham como lembrança, uma nostalgia agradável dos primeiros anos. Colocou a agulha sobre o disco e apanhou o copo para um segundo gole, e o marido tomou o primeiro, mais longo, e sorveu todo o líquido de uma só vez, e foi até o frigobar para reabastecer. Ela disse que estava satisfeita, que não precisava de mais, enquanto da pequena caixa de som saía o som lânguido de uma voz de mulher, uma voz envelhecida, suave, emocional. Eles nunca punham em volume alto, apenas suficiente para quebrar um pouco o silêncio do deserto ao redor quando não era tempo de tempestades. Como no casamento de décadas antes, não fazia frio, nem calor, apenas a sensação de felicidade, bem-estar, como se o mundo lá fora pudesse ser a extensão daquele lar. Horas depois, ela já adormecida sobre o sofá, ele abriu a porta da frente e mirou as estrelas, a Via Láctea cortava o céu, de um ponto ao outro do céu, um caminho iluminado no firmamento. Mas logo veio um vento, rápido, uma rajada, seguido daquele som que antecipa as tempestades de areia. E ele fechou a porta, nela não havia frestas, nem a mínima fresta em nenhum lugar, tudo hermeticamente fechado, como um ovo, e dentro dele caminhou em direção ao sofá, já um pouco sonolento, e deitou-se aninhando-se ao lado dela.
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