“Eu ainda tenho uma foto dela”, ele disse, abrindo a carteira e tirando dali uma fotografia. Era ela, sentada em um banco da praça, árvores ao fundo, frondosas, também flores e o gramado, as cores já desbotadas. Usava um vestido de cor-de-rosa, um rosa claro, parecia ir até os joelhos. Ela sorria, talvez à frente dela este meu amigo, mas também tudo que estaria por vir, a esperança, o futuro, ela era jovem, bela. Ao seu lado, uma bolsa, de couro, um pouco grande, e também alguns livros, uns três, empilhados uns sobre os outros. Naquela época, ainda era estudante, talvez no último ano do curso, mas o que se poderia retirar a mais daquela fotografia, além do que já sabemos, e nela já estaria registrado tudo aquilo que veio depois? Ou seria apenas o registro do momento, congelado, sem as consequências dele, pouco ou nada para se intuir sobre o depois? Enquanto olhava a fotografia, o meu amigo chamou o garçom, e pediu uma cerveja, também um tira-gosto de batatas fritas. A cerveja chegou primeiro, quando entreguei de volta a fotografia. Ele a guardou e se pôs a olhar para fora, através do vidro da grande janela atrás de nós, o olhar longo, comprido, dava para saber que pensava nela, e fez-se um breve silêncio entre nós, e deixei o silêncio se prolongar, não o interrompi em seu devaneio. Mas, enfim, brindamos. Falamos sobre o jogo do dia anterior, pulamos para a inflação, para o governo, a política, e voltamos para o que estava ali o tempo inteiro. Vieram as batatas, e outra cerveja. E entre uma coisa e outra, o olhar perdia-se para a janela atrás de nós. Atrás de nós estava a praça, o banco, as árvores, as flores, o gramado. Entre comentários sobre o andamento do campeonato de futebol e o filme que acabara de estrear nos cinemas, o breve ou longo silêncio interrompendo o encadeamento dos fatos, até que as horas se foram, lá fora o sol descera, fazia algum tempo. E nos levantamos e nos despedimos. Na saída, ele preferiu não olhar para as árvores em frente, e nem para os bancos da praça e seus jardins floridos da primavera. Fui eu quem o fez, e mirei o passado ali diante de mim.
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