Chegaram os três retardatários. Agora éramos nove na ampla sala de Manuel. Escolhemos o apartamento dele, não somente por ser maior, a TV era grande, além de ele ser o único solteiro, e aquele era um encontro de homens para assistir ao primeiro jogo da Copa nos Estados Unidos, Brasil x Marrocos. Venceu o grupo que preferia a TV sem volume até o início da partida. Éramos ex-colegas de universidade, não do mesmo curso, contemporâneos apenas, uns dois vieram amigos desde o ensino médio.
Mas havia uma diferença entre aquela Copa e as anteriores, nenhum de nós sabia a escalação da Seleção Brasileira. Fernando, o de Física, fez uma brincadeira, afirmando que talvez estivéssemos numa realidade paralela, onde não fossemos brasileiros, uma explicação para desconhecer os jogadores nacionais. Mas a verdade é que ninguém parecia se importar, estávamos ali porque havia se passado quatro anos desde a última reunião completa.
Como a TV estava só com a imagem, os jogadores ainda fora de campo, ficamos a falar de assuntos banais típicos de reencontro. Manuel, de imediato, anunciou que finalmente iria pedir Lúcia em casamento.
- Não dá para adiar mais, ela pode arrumar outro.
E vieram aquelas coisas de sempre, palmas, euforia, abraços apertados.
- Teremos esposas da mesma profissão, Manuel - Sother comentou.
- E como está você com Betinha, Sother?
- Como sempre, mas tem horas que dá vontade de ter uma vida diferente.
E continuamos a falar de trabalho, filhos, viagens de férias, mudanças de profissão e do desafio de montar um negócio próprio. Na tela, os jogadores já perfilados para os hinos nacionais. Acionamos o som e aumentamos o volume. Podemos nem saber o nome dos atletas em campo, mas nos apoiamos uns nos outros quando a partida está perto de começar. O locutor, numa evidente empolgação, gritou ao final do Hino brasileiro:
“Vamos ao bicampeonato!”
- Bicampeonato? Ele deve estar bebendo. - Rafael soltou uma risada.
Foi quando a luz apagou.
Como já era noite, os lamentos se fizeram ouvir. Olhamos pela janela, sétimo andar, e a cidade estava um breu. Aos poucos, pequenas luzes aqui e ali, talvez de celular ou de lanternas. Fizemos o mesmo, e aguardamos. Percebemos também que os sinais de celular foram sumindo, uma operadora após outra.
Uma hora depois, desistimos. E descemos os lances de escada. Eu e Rafael viemos e voltamos no mesmo veículo, eu de carona. Ele ligou o rádio do carro, encontramos uma única emissora transmitindo. Era só música, parecendo ser uma dessas estações em que não há uma só alma no estúdio, as músicas rolando sozinhas. Era uma playlist de rock progressivo, tocou Pink Floyd, Genesis, Emerson Lake & Palmer, até o Yes.
- Você gostava disso, Rafael?
- Nunca, músicas longas e chatas. Preferia Heavy Metal. Mas hoje eu não ouço mais nada.
- Essas músicas são a cara de Betinha. Você acredita que ela ainda põe pra tocar quando vamos lá?
- Ubaldino, - Rafael interrompeu a conversa - não tem luz alguma, e já atravessamos boa parte da cidade.
- O que será? Talvez um blecaute geral.
- Procure mais uma vez, veja se há alguma estação no ar além dessa, mude de faixa, para curtas, longas, AM.
- Vou tentar. - Percorri as faixas todas. Encontrei uma outra, a voz era cortada, que ia e vinha, e se misturava ao ruído. Mas deu para ouvir um trecho, dizendo que o jogo havia acabado, vitória do Marrocos. E, com mais clareza:
“… o bicampeonato fica mais difícil agora…”
E cortou.
- Ele falou em bicampeonato. - Rafael elevou a voz - Como é possível isso? Pela segunda vez? Você ouviu, Ubaldino?
- Sim, ouvi.
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