17.3.24

NOITE

Estávamos todos na varanda. Lá fora, a escuridão abaixo das estrelas estendia-se até nós. Dentro da casa, umas poucas lamparinas. Em volta delas, pequenas mariposas girando sem parar. Foi quando a menina gritou. Todos se levantaram, foi um grito agudo, alto, sentimos como um estremecimento. Lá fora, a noite densa pareceu avançar um pouco mais. A mamãe correu para a garotinha e tomou-a nos braços. Era abril, o calor erguia-se voltando ao espaço, como se um fluxo do chão para o profundo do desconhecido, e nem sinal de uma brisa, as árvores inertes e silenciosas. A menina apontou para dentro da sala. A mamãe tentava acalmá-la, balançando-a como se faz com crianças bem menores.


- São lamparinas e mariposas, querida Lúcia, minha Lucinha. Veja como elas voam. Sempre retornam e se chocam com o vidro. Veja!


A menina tentou olhar para a mariposa por algum tempo e acompanhou o voo em espiral. Logo desviou os olhos para mais lá dentro, para os cômodos além da sala, uma escuridão dentro da qual as lamparinas não alcançavam. E apontou mais uma vez.


- Traga-a para cá. – Disse o pai, indo buscá-la.


E ouvimos o segundo grito. Dessa vez, não agudo e nem curto. Foi como se não viesse daquela garotinha, como se de outro lugar ou de outra pessoa. A mamãe correu para fora com a filha agarrada fortemente aos braços, e chamou pelo esposo. Entre nós havia um médico que foi socorrê-la, levando o dorso da mão ao pescoço da criança.

 

- Ela pode estar febril.
- Mas não está.


Aos poucos, num levantar-se, as visitas iniciaram a se despedir do anfitrião. “Já é tarde; afinal, todos precisam descansar para amanhã”. Não era tarde, haviam chegado há pouco. E foram-se todos dali. Ficou o pai, segurando uma lanterna. A filhinha abraçada à mamãe, que lhe tampava os olhos.

 

Foi a mais longa das noites. 

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