Quando a menina entrou, viu a chama oscilante mal iluminando a cozinha, e a mãe tomava café com biscoitos, o rosto fixo sobre a xícara, movimentos lentos, costas recurvadas. Mas o silêncio permaneceu, como se lá não estivessem.
A filha sentou-se e esperou que a mãe falasse algo. Esperou, mas não veio palavra alguma. Fazia frio, e ambas usavam um pequeno cobertor sobre os ombros. Lá fora, sem vento algum, nem o farfalhar das árvores. Foi quando quebrou-se o silêncio.
- Papai ainda não chegou, mamãe.
A mãe levantou a xícara e tomou mais um gole.
- Por que ele está demorando tanto, mamãe?
Sem levantar os olhos, a mamãe ergueu a xícara com a costumeira leveza nos gestos, e com rapidez vertiginosa, a atirou contra a parede. Impassível em sua cadeira, permaneceu onde estava, ombros caídos, braços soltos, o corpo recurvado, como se nada houvesse feito de anormal.
- Mamãe?
- Betinha?
A menina levantou-se e tocou os longos cabelos da mãe, e o fez de cima para baixo, vezes seguidas, entrelaçando seus dedos pequenos entre os fios. E continuou, enquanto lágrimas pequenas escorriam pelo rosto. A mãe não se mexia, apenas a respiração fazia balançar as chamas da vela diante delas.
E o mundo se descortinou diante dela, pela primeira vez, embora quase nada pudesse enxergar além da pequena chama.
- Mamãe - Repetiu, bem baixinho, quase inaudível, quando veio uma rajada lá de fora, por aquela porta entreaberta. E a chama deu lugar à escuridão que as acolheu.
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