20.1.19

NOITES BRANCAS



No dia seguinte, ela procurou-me e disse que iria embora e não voltaria mais. No sábado, pegou as roupas e se foi. Desapareceu. Eu também não fiquei naquele lugar. Mudei-me, em seguida. E a vida tomou um rumo diferente. No entanto, por mais que o tempo fosse lavando a estrada que fica para trás e jogando lembranças no esquecimento, ela não cessava de aparecer nos meus sonhos.

Noite após noite, meses sem fim - não falava, nada dizia, apenas sua imagem, como uma cena gravada sem áudio. Sempre a mesma coisa, o vestido florido, ela dando voltas, rodando e sorrindo, até cair sobre a grama verde sob um imenso céu azul e iluminado até onde ia o horizonte. Não havia o que eu fizesse para afugentá-la, nem bebidas, remédios, nem mesmo o trabalho extenuante. Até que, num dia qualquer, já acostumado com o irremediável, o sonho se foi de todo, e nunca mais voltou. E, com ele, qualquer outro.

Vieram as noites brancas, vazias, o sono como uma ausência completa deste mundo. Tentei até mesmo mentalizar a imagem dela, na esperança de voltar a sonhar, mas sem sucesso.

Hoje, moro em frente para o mar. Na maré alta, as ondas são fortes, pesadas, violentas; batem nas pedras e os respingos se elevam metros acima. É um lugar muito bom, eu acho, há uma vizinhança espaçada e discreta, as pessoas caminham diariamente na areia da praia e não incomodam. Há cães também. Eles correm de um lado para o outro, pulam, latem e nadam.  Eu os observo da minha varanda, conheço até seus nomes

Nas noites sem nuvens, as estrelas preenchem completamente o céu, um mar de estrelas; e é fácil identificar constelações, se você tem algum conhecimento sobre tais coisas. Nas minhas noites, sem sonho algum, acordo em horários espaçados, e fico ouvindo o som das ondas na praia, olhando enxames de estrelas, até elas começarem a esmaecer sob o sol, e adormeço ali, sentado na varanda.

Ontem, no meio da noite, acordado, ouvi o som de uma voz. Era ela dizendo que voltaria. Não  teria como me enganar, apesar do tempo que já se passara desde aquele dia. Quando ouvi, a minha mente logo a identificou. Não poderia ser a de outra pessoa. Era ela. Era a voz dela.

Pela manhã, na cidade próxima, fui ao supermercado e comprei suprimentos de cozinha, além de vinho e cerveja. No final da tarde, preparei um jantar, e aguardo ainda a hora de servi-lo. Coloquei na varanda duas cadeiras em frente para a praia. Ouço o som das ondas esmagando-se contras as pedras. Mas já são quase onze horas.

Sei que ninguém virá. Ora, eu sei.

Qualquer pessoa racional, e com o mínimo de juízo, sabe que a voz da noite anterior fora fruto da imaginação e de certas coisas que o cérebro faz por si só, uma máquina independente da vontade, uma parte do corpo dada a produzir sensações, visões, sons, esperanças, a reprisar memórias, como se fosse uma outra pessoa ocupando uma parte de nós. É assim que somos.

Há pouco, de repente, aparentemente do nada, veio-me uma lembrança da mocidade, algo do qual não lembrava mais, de quando a vi pela primeira vez, de quando vi pela primeira vez os seus olhos verdes, o sorriso aberto, os cabelos loiros brilhando ao sol. Ela usava um vestido azul claro e curto, as unhas estavam pintas de vermelho. Como se nunca tivesse saído da memória - no pulso direito, ela usava uma pulseira de plástico cor-de-rosa com detalhes em dourado.

Marco Antonio.

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