20.1.19

O EMBAIXADOR


"Pôde-se então ouvir a voz do deserto que avançava." 
Dino Buzzati - O Rei Em Horm El-Hagar.

O embaixador chegou pontualmente às 19:30. O carro oficial veio precedido por uma descomunal fila de enormes viaturas negras e brilhantes, e uma equipe de segurança formada por mais de cem homens fortemente armados. Todo o quarteirão do teatro fora esvaziado cinco horas antes. Os convidados chegaram com pelo menos uma hora de antecedência e tomaram seus assentos, não sem antes passarem por rigorosa revista. 

Chegou num pequeno carro de cor cinza fosco. Era um veículo de aspecto nada especial, mais próximo ao comum e vulgar dos carros de rua, embora de marca desconhecida e provavelmente fora de linha de produção, sem qualquer brasão, bandeira ou placa oficial. O próprio motorista foi quem abriu a porta, e o embaixador desceu com nítida dificuldade; em seguida, a bela e jovem senhora embaixatriz num vestido vermelho-claro, joias cintilantes em torno do pescoço e nos braços.

À frente dela, claudicante, caminhava recurvada a altíssima autoridade diplomática num terno preto de aspecto gasto. Seu rosto, repleto de rugas, parecia com o de um cágado. Seguindo a ambos, uma ampla comitiva de oficiais da embaixada. E o séquito foi adentrando o enorme teatro, a figura principal em pequenos passos incertos, aturando padecimento após cada uma das pisadas, embora seus pés parecendo quase não tocar o chão, tal era a leveza do seu corpo diminuto.  Os sapatos, algo de aspecto e formato incomuns, muito grandes e desproporcionais. 

Ao ser anunciado, todos puseram-se de pé e, reverentes, o aplaudiram por intermináveis minutos até que enfim chegasse ao palco. Ajudado pela equipe de oficiais em trajes militares de gala, funcionários de sua estrita confiança, subiu os poucos degraus de escada com visível e constrangedora dificuldade. E, finalmente, sentou-se atras de uma enorme mesa forrada com uma toalha de veludo cor de bronze e adornada com arranjos exóticos de flores naturais. Após o que, a plateia, formada em sua totalidade por autoridades dos mais diversos países e potências, foi autorizada a poder novamente sentar-se.

Visto de longe, o embaixador era ainda mais minúsculo, a cabeça calva e pequena, os braços curtos postos sobre a mesa; as mãos, trêmulas, uma sobre a outra. Ao seu lado, contrastando, a belíssima embaixatriz, alta, garbosa e jovial, o sorriso gracioso em sua expressão serena e plácida, os cabelos negros caídos sobre os ombros nus. Um portento. Majestosa em si e em seus atributos e em dissemelhança com a aparência singular do seu esposo.

A apreensão era visível no rosto de todos no seleto auditório. Nenhum ruído se fazia ouvir sob silêncio absoluto, respeitoso e denso. A espera parecia não ter fim. Quando, de repente, sem nenhum anúncio prévio, o embaixador, sem uso de qualquer sistema de som, deu início à tão aguardada palestra sobre os destinos dos povos e nações dos quatro cantos da Terra.

E a sua voz, como que um estrondo vindo de mil corredeiras e quedas d'água, ecoou e reverberou pelo amplo teatro. E os magníficos lustres de cristal acima da audiência puseram-se a vibrar. 

Marco Antonio.

EU JURO QUE VI


"Não ouvi o menor som, porém a presença das coisas incompreensíveis me perturbava."
There Are More Things - Jorge Luis Borges.

Na manhã seguinte, as nuvens se adensaram. A meteorologia anunciou dias fechados. Choveu muito naquelas duas semanas. Foram ruins, úmidas, embaçadas e frias. A minha rua foi aos poucos invadida por uma lama vermelha que descera das encostas e, no entrar e sair, sujava-se facilmente as roupas e a casa. A TV anunciou a ocorrência de tempestades e um fluxo intenso de umidade do oceano em direção ao interior do continente, explicando aquela invernagem em pleno verão. Num domingo, choveu durante vinte e quatro horas ininterruptas, e o rio transbordou, provocando uma enchente só comparável à de 1962. A água subiu setenta centímetros dentro de casa e ficou lama sobre o sofá, cadeiras, camas e por dentro de gavetas.

Não é fácil descrever o que se sente numa situação como aquela, quando se descobre, no dia seguinte, sob a luz de um sol que ainda não se vê, em meio à sujeira inevitável, haver coisas já irremediavelmente irrecuperáveis. Enquanto a água não desce, não é possível conhecer exatamente o que está ocorrendo, como se a nossa compreensão estivesse também submersa. Mas tem-se aquela certeza, no íntimo, de que certos móveis, objetos, papéis e fotos estão perdidos para sempre.

Após aqueles quinze dias, a chuva se foi de todo; e a cidade, de um jeito ou de outro, foi lentamente voltando à normalidade. De resto, divulgaram e arquivaram em números e tabelas as estatísticas dos prejuízos, perdas, desaparecidos e mortes. Nas mentes, a perplexidade. Um jornal reconhecidamente sensacionalista publicou uma matéria, com desaprovação imediata das autoridades, sobre certas mortes não poderem ser explicadas simplesmente por afogamento, desabamento de casas ou avalanches de lama. Havia nele umas fotos perturbadoras, contudo de pouca ou nenhuma credibilidade.  

Mas quando o sol volta a preencher o espaço com seu calor -  e o céu azul se abre iluminadando plenamente um dia após o outro -, somos obrigados a aceitar que não se pode viver o tempo todo como se ainda houvesse água barrenta do rio penetrando em tudo.

No mês seguinte, revi os amigos nos bares da orla. Da praia, avistei um belo e enorme navio branco de bandeira estrangeira navegando em águas tranqüilas.

No retorno à plena normalidade, numa dessas noites quentes do verão que havia finalmente voltado, olhando pela porta aberta, prescrutava as sombras e a penumbra lá fora. Foi de relance, muito rápido. Não sei o que era aquilo. Mas eu vi. Eu juro que vi. 

Marco Antonio.

GRAÇA



Chovia. O sinal fechou. Na faixa de pedestres, ela deu o passo para atravessar, e se  foi, com aquele seu jeito bem bacana e sensual de caminhar, somente ela na faixa, balançando levemente os quadris, enquanto olhava fixamente para o namorado que a esperava do outro lado da rua. Ela não viu que vinha de lá um carro veloz  no asfalto molhado e liso, só ouviu o som agudo do atrito. Não deu tempo de parar, o veículo foi diretamente em suas pernas e a jogou para cima e para o lado. O carro parou lá adiante. Ela ficou caída no chão molhado, desacordada, o sangue no rosto e escorrendo.

O motorista abriu a porta do carro e não teve coragem de ir vê-la. O namorado gritou e correu para prestar socorro. Outras pessoas apareceram imediatamente depois, um monte de gente, pessoas saídas dos mais diversos lugares parecendo surgir do nada. Em seguida, a polícia e uma ambulância.

Um policial perguntou pelo motorista, apontaram para um homem jovem recostado no carro verde parado no meio da pista e de cabeça baixa. Dois fardados o abordaram, um deles começou a fazer anotações, mas o motorista nem se mexeu, respondia às perguntas em voz baixa, sem nem mesmo levantar um braço. A chuva continuava caindo e ele estava todo encharcado. A ambulância logo saiu em disparada. A multidão foi dispersando aos poucos, ao tempo que a polícia tirava fotografias do local e do veículo, o qual também foi retirado para liberação do trânsito.

No início, como é comum nesses casos, o trânsito rodou lentamente, os motoristas tentando entender a causa do congestionamento, olhares curiosos. Depois, fluiu no ritmo normal. E a chuva foi diminuindo, até que passou de todo. No dia seguinte, saiu no jornal que a moça havia sofrido um traumatismo craniano e acabou não resistindo.

O inverno se foi. Veio o processo contra o motorista, depois as chuvas torrenciais de verão. A cidade esquentou muito. Mas depois, um outro inverno, e o tempo foi passando. O motorista pagou com uns trabalhos sociais numa creche na periferia. Sem antecedentes, tinha emprego certo, era trabalhador, filho único adorado pela mãe. Não bebia muito, tinha bons amigos e bastante camaradas das partidas de futebol das quintas à noite.  Na creche, conheceu e passou a namorar uma moça bem bonita. Sandra.

Três anos depois, casaram. Tiveram um filho e, após um ano e meio, uma filha. E a vida foi seguindo. Ele saiu do emprego e botou um negócio próprio e, tão logo a coisa se equilibrou, construíram uma casa bonita. Mais adiante, os negócios no caminho certo, compraram uma casa de praia, para aonde iam quase todos os finais de semana com as crianças.

Ela, a mulher, muito alta, tinha o corpo esguio sob um rosto largo e bonito; pele morena, costumava criar os cabelos negros à altura do ombros. E tinha um jeito afável de lidar. Ele a amava e pensava nela como uma bênção em sua vida.

Trabalharam e prosperam  muito e continuamente. Chegaram àquele padrão que se confunde com a riqueza, enquanto os filhos, já adolescentes e saudáveis, estudavam em boas escolas. Até que ficaram adultos e chegaram à idade de também construírem suas famílias. Depois vieram os netos.

Formavam um casal admirado no seu meio, um exemplo para os demais, sempre convidados para aniversários, batizados, casamentos e festas. Tudo em suas vidas dava-se numa sequência de bons ventos, sem contratempos, numa escalada contínua de passos certeiros, decisões felizes, consequências no espectro do previsível e do esperado. Em nenhum momento a sorte os abandonou, nada veio de ruim de verdade,  nem mesmo aqueles soluços do acaso e que podem recair sobre qualquer vivente. Nenhum infortúnio os afligiu. Tudo fluiu em suas vidas como se num barco seguro em mar tranquilo à mercê da brisa soprada pelo bom Deus. Nada de de grave chegou a afetá-los material ou espiritualmente. Até mesmo a morte da mãe dele, já muito velhinha e frágil, não fugiu ao plano de normalidade de como as coisas devem ser - a morte para os velhos -, tudo no seu devido tempo e na hora certa.

Temia apenas perder a esposa. E orava para  ir antes dela. 

Até que veio o dia. Para ele. Chegou sem dor, sem desconforto ou angústia; sem aviso algum, nem mesmo uma ponta daquela agonia no momento em que nos separamos do que somos e a alma nos é arrancada para sempre.


Marco Antonio.

A VISÃO DE DEUS



Ele teve uma visão de Deus. Foi num sonho. Num capinzal, final de tarde, seus olhos estavam abertos, voltados para o firmamento; o vento em seus cabelos parou de soprar, e a relva iluminou-se totalmente. Deus o olhava, os olhos em sua exata direção, e também para todas as outras coisas. O rosto não parecia humano, nem de animal, nem de qualquer outra coisa conhecida, mas tinha olhos, apesar de tudo. E desapareceu logo depois, quando o campo escureceu, restando apenas  a fraca luz difusa do sol já sob a Terra.

No dia seguinte, pela manhã, no colégio, ficou a observar os demais e a pensar sobre quantos ali, em segredo, como ele, já teriam vivenciado a visão do Criador.  Afinal, não se achava em nada especial. Era um rapaz de religiosidade moderada; nem feio e nem bonito. Pouco inteligente, é o que se achava; mas não um parvo. Era bom, ajudava em casa, ágil nos serviços. Bons pais, bons irmãos. E uma namoradinha, Jessica.

Pensou em contar para ela. Afinal, mantinha com a namorada segredos mútuos, sonhos, esperanças; compartilhavam também a promessa de um futuro casamento. Mas algo dizia, dentro de si, que não deveria fazê-lo.

Afinal, o que significava poder olhar diretamente a Face Iluminada do Senhor? Nada foi-lhe revelado; nenhuma voz interior deixou-o mais valente ou sereno, muito menos alguma sabedoria  viera daquela experiência milagrosa e extraordinária. Permanecera apenas a lembrança do que sonhara; e a certeza de não mais poder esquecer. Sentia-se como sempre fora. 

Dois dias depois, durante uma partida de futebol, houve uma briga. Então pareceu-lhe um bom momento para desafiar alguém mais forte, quem sabe talvez agora pudesse mostrar uma força escondida e que lhe fora secretamente entregue naquela visão em sonho. Uma tentação apossou-se do seu coração. Disparou então em direção ao maior de todos e deu-lhe um murro no meio do rosto. Todos se afastaram, um espetáculo impressionante e inesperado do mais fraco enfrentando o mais robusto dos rapazes da turma. Mas foi somente um murro, o outro apenas pego de surpresa. Os demais foram obrigados tirá-lo dali para que não fosse covardemente espancado. Dois dentes quebrados. 

Jessica, envergonhada, afastou-se. Pouco tempo depois, o pai anunciou que se mudariam para outra cidade. 

Na despedida, foi ao capinzal. Quem sabe pudesse vê-lo mais uma vez. Não em sonho desta vez. E dirigiu-se solitário ao campo aberto e plano. A planície imensa se perdia no horizonte na  quase noite. O som intenso da ventania na vegetação abundante dava sensação de estar sob uma imensa cachoeira. De repente, o vento selvagem sobre os seus cabelos parou de soprar. Do firmamento, em silêncio absoluto, desceu uma luz como que iluminando o mundo inteiro. Era leitosa, fria, como se nela se pudesse pegar e beber, parecendo uma água muito leve e ondulante. Dava para sentir seu cheiro de coisa doce. Ao dirigir o olhar pra o alto, viu aquela face do tamanho de mil mundos. Não era humana, nem animalesca, nem de qualquer coisa conhecida; infinitamente distante, majestosa, não estando somente ali, mas abarcando todo o céu, embora olhando fixamente dentro dos seus olhos. E, como veio, se foi, restando somente a escuridão em torno de si, o vento de volta a agitar a relva;  no firmamento, as estrelas cintilando, a imensa Via Láctea cortando uma faixa central do céu. 

Ao chegar em casa, todos se admiraram quando o viram. A mãe paralisou-se diante dele. Seu rosto estava queimado de sol, os olhos esverdeados como pedra preciosa, as feições jovens  lembrando os traços de uma pantera. 


Marco Antonio. 

MÚSICA NA PRAÇA


Não há como saber o que se passa na cabeça de outra pessoa. Você pode até tentar adivinhar. Se acertar, será como um chutar uma bola para o meio de uma floresta e, sem controle algum sobre a trajetória, conseguir derrubar uma fruta doce no galho de uma árvore distante. As pessoas são assim, seus pensamentos são assim, um amontoado de galhos numa floresta fechada, onde a luz do sol pouco penetra. Coisas novas nascem todos os dias, as sementes caem, e delas brotam novos espécimes, um emaranhado de plantas de tamanhos, formas e cores variadas nascendo, crescendo e morrendo sem parar.

Ela foi até o carrinho de pipoca e voltou com dois pacotes. A pipoca estava quente, salgada, crocante, saída da hora. Olhou pra mim e disse que me amava. Estávamos na praça, a praça cheia de gente, barracas vendendo pratos tradicionais e variados tipos de bolos e doces. Do outro lado da rua, sobre um palco baixo e enfeitado, uma banda tocava sem parar. Ela olhou pra mim e eu vi alegria em seus olhos, a  pipoca estalando entre seus dentes, o sorriso em seu rosto. Que sorriso lindo ela tinha. Meu Deus, que sorriso lindo ela tinha. Acho que foi o dia mais feliz da minha vida. Soprava uma brisa leve e as pontas dos seus cabelos oscilavam pra lá e pra cá, cabelos castanhos claros, finos, cortados um pouco abaixo dos ombros. Do outro lado da rua, a banda executava a repetição contínua de um batida cadenciada e melodiosa. Mas isso foi no dia anterior. 

Quando acordei, já um pouco tarde, pois era domingo, ela não estava ao meu lado. O quarto havia sido tomado por um cheiro forte de fumaça. Muita fumaça entrando pelas frestas. A reação imediata foi a de abrir a porta e sair correndo pra fora e respirar. Era ainda manhã, eu supunha, mas o céu estava encoberto, tufos negros e selvagens sopravam do norte. A luz era pouca e não dava pra enxergar o sol. Olhando na direção da praça, via-se um clarão vermelho que se elevava enorme por trás de redemoinhos violentos de nuvens densas. E o vento trazia de lá ecos de uma batida cadenciada e melodiosa, langorosa, lenta e hipnótica. 

POMADA NO ROSTO


A balconista entregou o medicamento dentro de uma cestinha azul e pediu para dirigir-se ao caixa. Ele tirou a carteira do bolso e pagou com cartão de débito.

Já dentro do carro, distorceu a tampa da bisnaga e passou a pomada no lado direito do rosto, guiando-se cuidadosamente pela imagem refletida no retrovisor interno. Não tinha cheiro algum, mas deixou uma oleosidade nos dedos. Antes de ligar o motor, limpou insistentemente a mão na calça e, só depois, saiu do estacionamento. Aproveitou a noite tranquila para dirigir pelas avenidas largas, tranquilas e iluminadas da orla. Já era tarde. Embora fosse verão, não havia movimento algum, bares e restaurantes fechados. Sem querer, repetidamente, passava a mão no rosto e sentia a oleosidade incômoda da pomada. Tornava a limpar os dedos no jeans, antes de voltar a segurar novamente o volante com as duas mãos. As horas foram rolando noite adentro e o relógio do veículo já mostrava mais de três da manhã. O sono não viera. Então achou melhor ficar circulando pela beira-mar, os vidros abaixados, a brisa amena da madrugada contra o rosto. 

Não demorou muito para avistar os primeiros raios de sol e, aos poucos, o avanço da manhã. Continuava guiando em ritmo lento, já agora pelo centro comercial. Mas não havia ninguém circulando nas ruas. Pensou, de início, que o relógio do carro estivesse errado. Mas, com o passar de quase uma  hora,  sem avistar ninguém, a cidade completamente vazia, os carros parados, as portas dos estabelecimentos fechadas, foi tomado por aquela estranheza de que algo errado estivesse acontecendo, não no mundo aparentemente vazio e ainda em sono profundo lá fora, obviamente nada com a realidade em si, mas com ele. Teve a nítida sensação de algo errado consigo próprio. Aquilo provocou-lhe um sobressalto, quase um pavor, e passou nervosamente a mão no rosto sem querer, sentindo a pomada grudando mais uma vez na palma da mão. Foi então que teve a ideia de ir para a farmácia onde havia comprado o medicamento. Era daquelas vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana sem fechar. Teria que estar aberta e pessoas por la.

Estava aberta, as luzes internas acesas. Estacionou o carro, mas não o desligou de imediato. Ficou observando com cuidado se havia algum movimento lá dentro. Ninguém entrava, ninguém saia. Decidiu então abrir a porta do veículo. Fazia muito calor do lado de fora e o sol forte do verão feria a sua visão.

Ao entrar no estabelecimento, deu para ver a balconista que o atendera na noite anterior, enquanto a moça do caixa teclava atentamente numa calculadora. 

- O que o senhor deseja? - A balconista perguntou. Era uma negra de compleição atarracada e com jeito mal humorado.
- Lembra de mim? Você lembra de mim, de ontem à noite? - Ele indagou, nervosamente.
- O que o senhor deseja comprar?
- Por que não há outros clientes aqui?
- O que o senhor deseja pedir, afinal, ou só veio para perguntar isso? Há mais gente, além do senhor, para atender. O senhor não está vendo?

Ele virou-se.  Havia três pessoas atrás esperando para serem atendidas. A mais próxima, um homem gordo, parecia estar com pressa e o olhou com desprezo. Ele passou mão no rosto e sentiu mais uma vez o incomodo da pomada oleosa. Esfregou nervosamente os dedos na calça, enquanto a atendente esperava com uma cara feia, os braços dela jogados sobre o balcão. 

Sem respostas, andou de volta até porta. Havia enlouquecido. Foi o que pensou. 

Lá fora, nenhum carro a passar. Olhou fixamente em volta. Abriu e fechou os olhos para ter certeza daquilo que estava vendo. Não havia dúvidas, não estava louco, ele concluiu, pois não se via uma alma sequer circulando, apenas umas poucas pessoas dentro da farmácia. Somente a ausência completa de pessoas e carros do lado de fora, mas o resto estava perfeito, os prédios, os sinais de trânsito, o letreiro das lojas, conhecia aquilo muito bem, tudo no seu devido lugar. Lá dentro, as pessoas comportando-se normalmente. Não poderia ser alucinação. Ou, se fosse, seria um efeito colateral extraordinário da pomada?

A sinaleira da esquina fechou. Decidiu ficar ali mesmo na porta esperando alguém passar. O sinal abriu um minuto depois. O homem gordo foi até o caixa, seria o primeiro a pagar e logo sair. Nenhum carro transitando na avenida larga de três pistas. O gordo colocou a carteira no bolso e caminhou lentamente carregando um saco plástico contendo o que parecia ser varias caixas de remédio. Passou por ele lançando mais uma vez aquele olhar de desprezo. 

- O que está acontecendo? - Perguntou insistentemente, seguindo o outro pelo estacionamento. 
- Você não deveria andar debaixo do sol com essa coisa aí em seu rosto sem proteção. Tem um aspecto muito feio, muito desagradável. Você nem deveria sair por aí com essa coisa horrível. 
- O que está acontecendo? Você vê o mesmo que eu vejo? Não há ninguém!
- Sim! Claro!

O gordo desvencilhou-se e entrou no carro, mantendo os vidros levantados. Deu a partida, manobrou, dobrando a esquina. O sinal estava aberto. Um outro cliente da farmácia passou pela porta, entrou no carro e seguiu adiante antes do fechamento do semáforo.

Sob o sol quente, a pomada passou a incomodar muito, uma queimação na pele e nos olhos, o que o fez entrar no carro, ligar o motor, e o ar-condicionado no frio máximo. Pegou a caixa da pomada e começou a ler a bula à procura de algum efeito colateral para explicar o que via. Nada. Apenas possibilidade de irritação e algum queimor, estava escrito. De dentro do veículo, a temperatura já bastante amena, não mais sentindo incômodo algum no rosto, olhava pela janela a  observar as pessoas entrando e saindo da farmácia, duas, três, quatro, cinco, dez, vinte e cinco, muitas, uma farmácia movimentada. Mas somente elas pareciam estar nas ruas, somente elas. Só Deus sabe o porquê.

Tentou conversa com um ou outro, mas olhavam para o seu rosto e o evitavam. Saiu dali e voltou a circular pelas avenidas completamente silenciosas, sem avistar ninguém mais. E o sol já estava bastante baixo, a tarde avançando lentamente sobre a cidade. Pela indicação do médico, estava se aproximando a hora da outra dose.

Marco Antonio.

O POÇO




Minha tia chegou com as meninas e já passava das três da tarde. Deixou as gêmeas para que minha mãe tomasse conta delas durante a noite. Estava com pressa, e meu tio nem desceu do carro, pois teriam que pegar estrada para o casamento de uma parente numa cidade mais ou menos longe dali. As meninas estavam em vestidos de cores diferentes. Uma, de azul; a outra, de carmim. Modelos diferentes também. Um com um laçarote atras; o outro, na frente. Minha tia defendia a ideia de não serem criadas como idênticas,  além do que já eram, pois bastava o fato de serem praticamente iguais na concepção, gêmeos univitelinos, igualmente loiras, cabelos lisos, pele clara, sorriso amplo, olhos castanhos amarelados, idênticas. Tinham uns três anos, Gabriela e Gardênia. Não dava pra saber quem era quem. 

Logo se soltaram a correr alegremente pelo amplo quintal. Morávamos um pouco afastados do centro da pequena cidade num sobrado antigo numa propriedade herdada do meu avô. Um quintal enorme. Gramado, jardim, hortas, um pequeno laranjal e muitas mangueiras.

- Meninas, fiquem por perto, fiquem onde eu possa olhar pra vocês duas. E não tentem subir nas árvores. - Disse a minha mãe, naquele seu tom habitual de dar ordens aos filhos.

- Sim, titia - respondeu a primeira - sim, titia - ecoou a segunda. E não paravam de sorrir.

Pouco depois, recebi ordens pra comprar pão. A padaria ficava um pouco longe, e a minha mãe  não gostava de que eu fosse já perto do anoitecer. E falou bem explicadinho para  que trouxesse mais do que de costume, pois as meninas jantariam e tomariam o café da manhã conosco. Na época, eu tinha uma bicicleta nova, uma Monark que ganhara de presente no Natal. Fui e voltei como num avião a jato. Andar velozmente de bicicleta era uma das cosias que mais gostava de fazer na infância, um dos motivos de sempre me dispor a ir comprar o pão. E fui bem veloz, pedalando num ritmo constante, só descansando nas descidas, embalado voando ladeira abaixo. Alem do que, também tinha medo de voltar já escurecendo, medo dos mendigos, dos vagabundos, andarilhos e bandidos que circulavam pelo mato, dos bêbados, loucos e de toda a família de seres que povoam a cabeça das crianças. 

Na volta, joguei o pacote de pão sobre a mesa e  vi que a minha mãe não estava na cozinha a preparar a janta. Ouvi sua voz vindo de longe:

- Gabriela, Gardênia, meninas, onde vocês estão? Meninas, onde vocês estão? 

As gêmeas sumiram. Ajudada por alguns vizinhos, minha mãe vasculhou cada pedaço de chão da propriedade e nas outras casas próximas. E, tão logo escureceu, meu pai chegou em sua velha caminhonete Ford. Quando viu aquilo tudo, ao deparar-se com a minha mãe em prantos contando sobre todos os lugares já revistados, tratou logo de apanhar cordas e uma lanterna elétrica que levava na caminhonete. 

Ao observar os preparativos do meu pai, a minha mãe gritou:

- Meus Deus, o poço! - Sua voz e seus olhos só mostravam desespero, quase terror em sua expressão - O que vou dizer para os pais delas? Ajude, Senhor!

Tínhamos um velho poço, uma cacimba, uma minação de água salobra de uns cinco metros de profundidade e revestido de pedras não trabalhadas. A boca na abertura era de mais ou menos um metro e pouco de largura, por onde dava pra passar facilmente um adulto, e o poço ia se estreitando aos poucos. Usávamos a água para lavar roupas, serviços de limpeza e a puxávamos com um balde. Tinha seu maior valor nas épocas de estiagem, quando a cisterna de captação de água da chuva secava. Nem o meu pai sabia quando e como haviam feito o poço, de tão velho que era. 

Meu pai iluminou a escuridão através da abertura e curvou-se um pouco para dentro, mas não dava para saber se as meninas estavam ou não ali só de olhar de de cima, poderiam estar sob a lâmina d’àgua, ele falou. Amarrou firmemente a corda em torno da cintura e pediu para que alguns vizinhos o segurassem na lenta descida. E foi com cuidado com a sua lanterna acesa. A minha mãe só chorava. Abracei-a em torno da cintura, dava pra sentir o tremor em seu corpo.

Não demorou muito e ele gritou, sua voz vindo de lá de baixo como se falando de dentro de uma caverna, grave e forte, repetindo:

- Não, não tem ninguém aqui. Não estão aqui. Não estão aqui. Elas não estão aqui.

A voz do meu pai ressoou em mim. - Não estão aqui, não estão aqui, não estão aqui - Esperava outra coisa, não aquilo. E veio a decepção. Eu não gostava delas. 

Marco Antonio.

22.1.17

PERMANÊNCIA



"Você nunca está só"  - Hubmann.

Pediu uma bebida e recostou-se em um balcão recuado. Minutos depois, ela chegou. Ela e mais três amigas. Chamou-lhe a atenção o azul do vestido e o verde dos olhos. Das quatro moças, somente ela sorria; e, mesmo sob o som alto da música que tocava bem ritmada, dava para ouvir a risada aberta e ampla que dela vinha. Passado um quarto de hora, ela não parecia tê-lo notado de modo algum, mesmo quando seus olhos abarcavam o balcão onde ele se debruçara.

Depois foram só pensamentos.

Começou quando ele, ao entrar numa livraria, pegou um livro e mirou a capa, o título e o nome do autor. Em seguida, abriu-o numa página interna e, ainda no primeiro parágrafo, imaginou o que ela pensaria sobre o que estava escrito ali na folha aberta. Após o que, comprou o volume e o leu lentamente, intercalando frases e pensamentos, um processo vagaroso e constante de breves leituras e longas paradas. Não aquele pensamento reflexivo sobre o que se lê, ou a refutação da ideia exposta ou ainda a busca de alguma correlação com a realidade e com outras obras lidas. Um diálogo, não com o autor, mas com um segundo leitor imaginário a ler em paralelo as mesmas palavras, seguindo a mesma marcação das vírgulas e o ritmo das frases, uma após a outra, páginas após páginas, até o final. No fim de tudo, a certeza de que ambos haviam lido e comentado aquele livro singular.

Mas não parando por aí. Também muitos outros, por meses, uma variedade de autores, músicas, compositores, obras de arte, experiências as mais diversas, desde as meramente intuitivas e espirituais, indo até os desdobramentos de natureza religiosa, passando pelas percepções visuais, por um cabedal de viagens, amizades, relações pessoais e amorosas, sentimentos os mais diversos, sonhos, mentiras, frustrações e insucessos, alegrias e os pequenos momentos doces de vida.

Não foi sobrando sequer um pequeno espaço onde houvesse somente ele e sua alma única neste mundo. Nada daquele isolamento próprio que recai sobre cada um de nós desde o nascimento. Nem resquícios da solidão particular à todo ser humano jogado no seio da Criação. Ao seu lado, sempre presente aquela mulher de azul, olhos verdes e sorriso largo. Sempre acompanhado, antes mesmo do raiar do dia, desde o sono mais profundo e confuso das noites pesadas; desde a manhã do dia anterior;  desde muitos dias anteriores.

Estava à beira de, por nunca estar a sós consigo, isolar-se de tudo o mais.

Até o dia em que a viu novamente e de verdade. Foi quando virou o rosto na rua movimentada. O sinal lá adiante fechou -  e lá estava ela atravessando sozinha a larga avenida na faixa de pedestres, somente ela, como naqueles filmes em que se pretende marcar e alongar uma breve cena.

O momento transcorreu em câmera lenta -  pesado em seu ritmo, longo e denso em sua duração. O vento forte batia no vestido solto, não o azul da festa, mas um de várias cores alegres e misturadas em desenhos geométricos. Soprava em curtas rajadas nos cabelos negros pesados à altura dos ombros. Por detrás da cena, uma fila de carros alinhados na faixa, todos parados, um ao lado do outro, os faróis acesos, luzes intensas, os motores em baixa rotação fazendo aquele zumbido grave e constante de potência contida, e os motoristas paralisados ao volante na longa espera, enquanto ela passava, tendo para isso todo tempo que restasse neste mundo.

Quando já perto do outro lado rua, ela virou o rosto para ele;  e o mirou por um instante breve e limitado, mostrando que o  reconhecia, desejando que a visse. E, pela primeira vez, ele pode ter para si o belo sorriso a ele dirigido, agora a sua alma  liberta.

Marco Antonio.

19.1.17

QUEM MATA OS CÃES?

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

QUEM MATA OS CÃES?


Ela dobrou a esquina e seguiu em direção à mercearia. Levava uma sacola plástica para comprar produtos de cozinha, pouca coisa, apenas o suficiente para fazer o almoço do dia. Era ainda cedo, umas oito e quinze da manhã, e o sol estava frio naqueles dias de inverno. Veio um vento de frente e ela segurou a barra da saia e foi andando de um jeito meio esquisito, uma das mãos à altura dos joelhos, para manter a barra da saia abaixada. 

Foi quando deparou-se com um cão atravessado na calçada. Ela deu um pulo para o lado, evitando pisar no animal morto. Ele tinha os olhos e as mandíbulas abertas, mostrava os caninos. Na cabeça, uma marca de sangue seco no pelo, e o que parecia ser um ferimento provocado pelo impacto de algo pesado. Provavelmente tratava-se de um animal de rua, vítima de ataque no meio da noite, coisa que vinha acontecendo com frequência de uns dias pra cá. Ninguém reclamaria por ele, por certo.

Ela seguiu e, cinquenta metros à frente, entrou na mercearia. Estava vazia de clientes, apenas o proprietário arrumando a prateleira de produtos de higiene. Deu um bom-dia e recebeu um sorriso de volta. Pegou uma lata de molho de tomate, uma outra de ervilhas, uma garrafinha de vinagre, um pacotinho disso e outro daquilo, e foi em direção ao balcão de folhas verdes. Tendo comprado tudo o que desejava, dirigiu-se ao caixa. O proprietário foi atendê-la e deu-lhe um sorriso, limpando as mãos uma na outra. Ela falou sobre o cão morto, perguntou se ele havia visto.

"Não" - ele disse - "Mas tem acontecido de matarem cães de um tempo pra cá."

"E  ninguém descobre quem está fazendo isso?" - ela pegou o dinheiro na bolsa, pagou, e recebeu o troco.

"Tem gente que imita. Podem ser vários, gente louca que mata cães, grupos de malucos. Tem gente assim. Pode ser coisa da internet, gente maluca e desocupada da internet que se junta pra matar cães." - ele olhou pra ela após dizer essas palavras, e mirou-a fixamente, até deixá-la desconcertada. Então pegou o dinheiro e pôs na gaveta, fechou a caixa-registradora com uma chave pequena, fez a volta em torno do balcão e foi saindo. Ela o acompanhou.

O dono da mercearia tomou a dianteira. Ela o seguiu e, de longe, o viu parar ao lado do animal e se abaixar por uns segundos e depois ficar novamente ereto, permanecendo ali por pouco tempo. Quando passaram um pelo outro, ele já de volta, o dono da mercearia a olhou fixamente mais uma vez, e prometeu ligar para o pessoal da prefeitura, mas afirmando não ter lembranças de ter visto aquele cão pelas redondezas.

Ela caminhou sem interrupção até chegar à sua residência. Não sem antes passar por um outro cão morto e, ao lado dele, ajoelhada, uma velha senhora chorando. Não parou, fez como se não tivesse visto. Apressou o passo. Chegou em casa com a respiração ofegante. Colocou a sacola de  compras na mesa da cozinha e deitou-se no sofá da sala.

Quando a respiração acalmou, já havia caído no sono.


* * *

Lá pelas doze e meia, o marido chegou do trabalho e a encontrou dormindo no sofá. Ela não havia feito o almoço e nem nada, e a casa estava do mesmo jeito de quando ele havia saído para trabalhar.

Quando ela abriu os olhos, desorientada ainda, sonolenta, ele a esbofeteou. Ele o fez mais uma vez, quando ela tentou levantar do sofá. Tudo muito rápido. Não deu pra pensar e nem para entender nada, só colocar instintivamente os braços como proteção. A mulher cambaleou depois de chocar-se e bater a cabeça contra a parede, tentando em vão correr dali, enquanto o sangue escorria-lhe, um fio saindo do canto da boca.

Então ele aproximou-se dela, mais violento e rápido, decidido, o punho fechado, e a esmurrou mais vezes, batendo forte e sem parar. Em seguida, afastando-se menos que um passo, tomou uma pequena distância e chutou-lhe a barriga. Ela finalmente desmoronou de dor. Ele deu-lhe um chute na cabeça. E a pancada fez um som surdo. Ela tomou uma lufada repentina de ar, emitiu um ruído estranho e jogou sangue pra fora, muito sangue. O peito arfava, indo e voltando, indo e voltando.

A mulher tentou puxar ar, fez um ruído forte, e parou de vez.

Então ele saiu. Entrou no carro que estava estacionado em frente da casa. Mas não deu partida na ignição. Ficou parado, as mãos ainda manchadas de sangue e repousadas sobre o volante, como que esperando alguém chegar, ou sei lá o quê na cabeça dele, as pernas inertes, os braços quietos, o sol entrando pelo pára-brisas. E ficou ali. Era bom, morno, pois lá fora estava frio. E dava para olhar serenamente as nuvens de chuva se aproximando.

Marco Antonio, janeiro 2017.

12.1.17

GRAÇA

Chovia. O sinal fechou. Na faixa de pedestres, ela deu o passo para atravessar, e se  foi, com aquele seu jeito bem bacana e sensual de caminhar, somente ela na faixa, balançando levemente os quadris, enquanto olhava fixamente para o namorado que a esperava do outro lado da rua. Ela não viu que vinha de lá um carro veloz  no asfalto molhado e liso, e só ouviu o som agudo do atrito. Não deu tempo de parar, o veículo foi diretamente em suas pernas e a jogou para cima e para o lado. O carro parou lá adiante. Ela ficou caída no chão molhado, desacordada, o sangue no rosto e escorrendo.

O motorista abriu a porta do carro e não teve coragem de ir vê-la. O namorado gritou e correu para socorrê-la, e outras muitas pessoas apareceram imediatamente depois, um monte de gente, pessoas saídas dos mais diversos lugares parecendo surgir do nada. Em seguida, a polícia e a ambulância.

Um policial perguntou pelo motorista, apontaram para um homem jovem recostado no carro verde no meio da pista e de cabeça baixa. Dois fardados o abordaram, um deles começou a fazer anotações, mas o motorista nem se mexeu, respondia às perguntas em voz baixa, sem nem mesmo levantar um braço. A chuva continuava caindo e ele estava todo encharcado. A ambulância logo saiu em disparada. A multidão foi dispersando aos poucos, ao tempo que a polícia tirava fotografias do local e do veículo, o qual também foi retirado para liberação do trânsito. No início, como é comum nesses casos, o trânsito rodou lentamente, os motoristas tentando entender a causa do congestionamento, olhares curiosos. Depois, fluiu no ritmo normal. E a chuva foi diminuindo, até que passou de todo. No dia seguinte, saiu no jornal que a moça havia sofrido um traumatismo craniano e acabou não resistindo.

O inverno se foi. Veio o processo contra o motorista, depois o verão. A cidade esquentou muito naquele verão. Mas depois, um outro inverno, e o tempo foi passando. O motorista pagou com uns trabalhos sociais numa creche na periferia. Sem antecedentes, tinha emprego certo, era trabalhador, filho único adorado pela mãe. Não bebia muito, tinha muitos amigos e bastante camaradas das partidas de futebol das quintas à noite.  Na creche, conheceu e passou a namorar uma moça bem bonita. Sandra.

Três anos depois, casaram. Tiveram um filho e, após um ano, uma filha. E a vida foi seguindo. Ele saiu do emprego e botou um negócio próprio e, tão logo a coisa se equilibrou, construíram uma casa bonita. Mais adiante, compraram uma pequena casa de praia, para aonde iam quase todos os finais de semana com as crianças.

Ela era alta, sob um rosto largo e bonito; pele morena, costumava criar os cabelos negros à altura do ombros. E tinha um jeito afável de lidar. Ele a amava e pensava nela como uma bênção.

Prosperaram muito e continuamente. Chegaram àquele padrão que se confunde com a riqueza, enquanto as crianças cresciam saudáveis e estudavam em boas escolas. Até que ficaram adultas e chegaram à idade de também construírem suas famílias. Depois vieram os netos.

Formavam um casal admirado no seu meio, um exemplo para os demais, sempre convidados para aniversários, batizados, casamentos e festas. Tudo em suas vidas dava-se numa sequência de bons ventos, sem contratempos, numa escalada contínua de passos certeiros, decisões felizes, consequências no espectro do previsível e do esperado. Em nenhum momento a sorte os abandonou, nada veio de ruim de verdade,  nem mesmo aqueles soluços do acaso e que podem recair sobre qualquer vivente, a exemplo de tragédias pessoais ou familiares. Nenhum infortúnio os afligiu. Tudo fluiu em suas vidas como se num barco seguro em mar tranquilo à mercê da brisa soprada pelo bom Deus. Nada de Sua Ira chegou a afetá-los material ou espiritualmente. Até mesmo a morte da mãe dele, já muito velhinha e frágil, não fugiu ao plano de normalidade de como as coisas devem ser - a morte para os velhos -, tudo no seu devido tempo e na sua hora certa.

Temia apenas perdê-la.

Até que veio o dia. Para ele. Chegou sem dor, sem desconforto ou angústia, sem aviso algum, nem mesmo uma ponta daquela agonia do momento em que nos separamos definitivamente do que somos e a alma nos é arrancada.

Marco Antônio, janeiro de 2017

18.8.16

TERRA PRIMATA

Chegou ao Netflix o filme Terra Primata (1974), a única obra de ficção científica do diretor Ted Kholman, o mesmo do famoso Canção do Oeste. A história se passa ali mesmo, no ano em que o filme foi rodado, quando a humanidade faz seu primeiro contato com uma espécie alienígena. Eles, os extraterrestres, chegam numa nave gigantesca e de formato estranho. Não são humanóides. E Ted Kholman não os mostra em momento algum. Os visitantes permanecem no interior da nave a orbitar o planeta, e tentam se comunicar através de sinais de rádio. As tentativas são em grande parte frustrantes, dada a dificuldade de se conseguir decifrar as mensagens enviadas por uma civilização totalmente distinta da nossa, apesar do enorme esforço da comunidade científica mundial em decodificar os sinais.
Mas o enredo não fica só nisso. Um pouco antes da chegada dos extraterrestres, o mundo já havia entrado numa crise econômica sem precedentes, ruína do sistema financeiro, crash das bolsas, queda brutal do consumo, desemprego, colapso da indústria, desabastecimento, saques, fome, caos.
Não podemos esquecer que, em 1974, a União Soviética ainda existia. Os russos posicionam tropas e tanques na fronteira com a Alemanha, com o argumento de que precisam proteger sua esfera de influência de uma eventual invasão daqueles que fogem da fome no Ocidente. Em resposta, a OTAN coloca suas bases de mísseis em estado de alerta máximo.
A chegada dos alienígenas acrescenta mais instabilidade ao cenário. Não se pode descartar a possibilidade de invasão. Mas, por outro lado, acima da atmosfera, a nave gigantesca permanece pacificamente enviando continuamente sinais, apenas sinais que nos são obscuros e incompreensíveis, quase beirando o ruído.
A personagem principal é interpretada por Caroline Peterson, a musa dos filmes de Kholman. Assim como em Canção do Oeste, ela é uma dona de casa, e assiste a tudo pela TV, não ousando sair. Lá fora é caos e violência. O marido saiu para tentar comprar mantimentos e ainda não voltou. E nem voltará. Kholman faz várias tomadas em "close" do belo rosto de Peterson, seus olhos e cabelos negros. As cenas externas de convulsão nas ruas são magistrais. Tem aquela famosa de uma mulher sendo violentada num supermercado, as prateleiras totalmente vazias.
O filme vai se tornando, passo a passo, cada vez mais estreito em sua narrativa, e minimalista na forma. Se, no início, se desenrola amplo com a chegada da nave alienígena em meio a um caos global de proporções bíblicas, vai aos poucos descendo para os detalhes e dramas pessoais. Os últimos 20 minutos são de tomadas internas no interior da casa de Samantha (Caroline Peterson), ela e seu filhinho de 3 anos, ambos diante da TV à espera do marido que não voltará. A TV alterna imagens da nave, fotografias tiradas de telescópios e satélites, declarações de autoridades civis e comandantes militares, apelos de líderes religiosos, multidões em fuga, choques brutais e sangrentos entre forças da ordem e a turba nas ruas.
Em determinado momento, a TV perde o sinal, só chuvisco. E permanece ligada por um tempo, só mostrando chuviscos, mãe e filho diante dela, na esperança de que volte a transmitir notícias sobre o mundo lá fora. Em seguida, falta energia. Na escuridão, a criança começa a chorar de fome e medo. Samantha cantarola uma canção de ninar. Ela vai até a janela, na tentativa de mostrar a nave para seu filho. E o filme termina nesse ponto exato, a câmera mostrando o céu negro, vazio, e sem estrelas; e, em seguida, mudando para o belo rosto de Caroline Peterson, em uma de suas melhores interpretações, só perdendo para o papel na pele de uma personagem de mesmo nome em Canção do Oeste.
Em Canção do Oeste, Kholman faz as duas ou três muito conhecidas reviravoltas na trama, uma técnica de narrativa integrante dos melhores manuais de cinema. Já aqui, em Terra Primata, temos um contínuo estreitamento do foco de visão. Há quem diga ser uma metáfora sobre o que de fato interessa ao ser humano - o indivíduo lutando pela sua vida, a rotina doméstica, mesmo que lá fora o mundo seja uma confusão total; mesmo que, um pouco acima, uma civilização avançada, um viajante interestelar, esteja tentando nos dizer algo e talvez no tirar do pó.
Eu indico.

Marco Antonio, Agosto 2016.

12.7.16

CASA NOVA

Aquele foi o dia mais feliz de suas vidas. Quando ela abriu a porta, o mais belo sorriso no rosto, ele contou-lhe que havia comprado a casa. Ela quase desmaiou. No dia seguinte, mudaram-se com a filhinha para a casa enorme cercada pela vastidão de pastos verdes. Aquele momento ficou ali gravado como um quadro parado no tempo. Nada do que viria depois traria consigo uma alegria tão grande e um sorriso tão belo em seu rosto. Não que a vida houvesse se tornado ruim dali em diante, não é isso. Além da notícia da compra da casa, o Natal estava próximo. Passariam o Natal no lugar que há tanto tempo sonhavam para si. O Natal caiu numa quinta-feira. Convidaram um casal amigo para a ceia na quarta à noite. Compraram presentes para os convidados, ganharam também os seus, coisas simples, troca de presentes de uma amizade recente e sem maiores compromissos. Eles eram jovens, tinham uma garota, Letícia, de cabelos loiros muito finos, olhos negros, parecida com a mãe. Não tinham muitos planos, não sabiam exatamente o que fazer mais adiante, gostavam da forma de como viviam aqueles dias felizes, uma casa grande em meio a uma imensa área verde, uma filha para criar, a vida pela frente. Viviam sem dificuldades, embora com poucos amigos, quase somente os três num ambiente morno e confortável. O outro casal ainda não tinha filhos, mas alimentavam muitos planos. Ele queria um posto cobiçado na empresa onde trabalhava; ela estudava Direito e pretendia prestar concurso e seguir uma carreira estável no serviço público. Por isso decidiram adiar filhos para depois. "Você faz opções" - argumentou o amigo durante o jantar -, "e há muitas boas opções por aí, mas você não pode ficar parado esperando elas virem até você." E a esposa dele acrescentou dizendo que, em breve, teria o seu diploma e, tão logo uma aprovação num concurso, a tão sonhada estabilidade no serviço público, quem sabe até conseguiria ser juíza ou promotora. A conversa foi quebrada quando a garotinha colocou as mãos espalmadas sobre o prato e, choramingando, pediu à mãe para não ser obrigada a comer mais. As mãos de Letícia estavam sujas de vermelho do molho da macarronada. Em seguida, lambuzou o rosto. O pai começou a rir, tomou outro gole de vinho, apontou o dedo para o convidado e pediu para que ele passasse a travessa da macarronada. Uma macarronada imensa e cheia de almôndegas. Então, do nada, a conversa mudou repentinamente para um rumo inesperado. O amigo falou sobre a necessidade premente de revelar um segredo, mas na condição de compromisso tácito de silêncio absoluto de todos, nenhum comentário sequer, nem ali e, muito menos, depois. Houve um breve silêncio, Letícia já estava no sofá a brincar com uma bonequinha que falava "mamãe, eu te amo!". "Mamãe, eu te amo! Mamãe, eu te amo!". E isso quebrou a paralisia dos comensais. Ao que o anfitrião, dirigindo-se à esposa do convidado, pediu para que fossem embora imediatamente. Ambos se levantaram e saíram, tão rápido que nem levaram os presentes consigo. Nem mesmo cumprimentaram a menininha. De dentro da casa, deu pra ouvir a porta do carro batendo com força, a mulher gritando alguma coisa.

Mais tarde, veio a notícia. Alguém ligou e avisou sobre um choque com um caminhão durante uma ultrapassagem mal-sucedida. Letícia estava dormindo nos braços do pai, e continuou a fazê-lo. Foi a mãe quem atendeu ao celular. Um amigo comum ligou e falou sobre não ter havido sobreviventes. Ela começou a chorar. Não que gostasse tanto assim daquele casal, nem eram tão amigos, nem mesmo tinham coisas em comum. Vieram apenas para o jantar na casa nova.

Marco Antonio
Julho de 2016.


26.12.15

CANÇÃO DO OESTE

Hoje, dia de Natal, vi no Netfix um bom faroeste. Canção do Oeste, do diretor Ted Kholman.  A história se passa, na primeira parte, no Texas. John, o protagonista, é xerife em um cidade violenta, casado com a bela Samantha, interpretada por Caroline Peterson.  Ao contrário dos demais filmes de sua longa carreira, Peterson usa cabelos loiros, contrastando com os conhecidos olhos negros enormes que a fizeram famosa.

A cidade é infestada de bandidos e, frequentemente, alvo de uma quadrilha de ladroes de gado. John é um bom homem, manso, embora corajoso, mas não o tipo heroico dos filmes de bang-bang. Faz bem o seu trabalho, e é apaixonado pela mulher. Por outro lado, ela o atormenta o tempo inteiro, dizendo não mais aguentar aquela vida de espoa de xerife: "Não sei se você vai voltar", ela repete (esse batido clichê) e joga na cara dele o quão se sente virtualmente viúva; e sonha em viver outra vida, a vidinha pacata das mulheres casadas com homens normais. O  filme é de temática universal, rodado lá em 1965, e a história se passa no século XIX.

O longa retrata, em sua primeira parte, a vida desse homem dividido entre a família e suas obrigações com a lei e a comunidade. Tem aquela cena do saloon, e que ficou famosa no livro História do Cinema, do crítico Sam Adams, na qual um bêbado levanta-se e vai em direção ao balcão e tropeça nas pernas de um forasteiro de cara ruim. E então leva um tiro e cai morto. O xerife adentra o ambiente no exato momento e, sem pestanejar, saca a arma e a aponta para o assassino, ordenando que se renda. O forasteiro mira o xerife. É tudo muito rápido. Todos os presentes se afastam. Em seguida, as cenas correm lentas: Há um longo momento de tensão, silêncio e suspense. Finalmente, o dono do bar (interpretado por Arthur Kennedy - ele fez essa "ponta", mas ironicamente uma cena que se tornou ontológica)  pega a arma debaixo do balcão e atira fatalmente no agressor. A câmera enquadra a expressão de Arthur Kennedy, já com sua cara famosa de homem angustiado. Enfim, diferentemente dos filmes do gênero, não é o herói que abate o malfeitor com seu gatilho certeiro. John, o herói, enfrenta o assassino sem temor e, muito provavelmente morreria no confronto, ou ficaria gravemente ferido,  caso não encontrasse ajuda de um simples dono de bar. Na  maioria dos filmes, o dono do bar é o primeiro a se esconder embaixo do balcão.

Num dado ponto, há uma reviravolta, quando Samantha fica grávida. Numa manhã, após ter passado a noite em claro numa caçada a bandidos ladrões de gado, o marido chega em casa e encontra a mulher em prantos. Então John a toma em seus braços, arruma as coisas e vai embora. Kholman mostra a partida do casal numa tomada ampla, a paisagem árida e plana do Texas, a vegetação rasteira e pouca, porções imensas de chão desnudo, elevações rochosas ao fundo. Ao longe, a charrete na qual iam os dois. E a poeira.

Após o que, o filme dá um salto de alguns anos no tempo e mostra John, Samantha e a linda filhinha Anne instalados numa cidade mineradora da Califórnia. John é agora trabalhador de uma mina. Ao contrário de antes, temos agora um homem endurecido pelo trabalho, grosseiro, sujo, sempre desalinhado, diferente daquele xerife do início do filme. Antes, na qualidade de representante da lei, um contraponto à barbárie da fronteira violenta, era obrigado a manter o ar de civilidade, sempre limpo, barbeado, roupas decentes. Agora, como sempre, Samantha ressente-se, não mais sob o temor da perda, da viuvez ou da violência, mas com os modos rudes do marido.

Então o filme dá outra reviravolta, quando ela, não mais suportando estar casada com um trabalhador braçal, embora ainda uma mulher bonita (Kholman enfatiza ainda mais com tomadas em "close", enquadrando na tela a beleza de Caroline Peterson), foge com um jovem aventureiro, um forasteiro galante, mas  claramente um bandido.

O filme termina de forma magistral - Ted Kholman joga na cena final todo o seu talento como diretor de câmera - e mostra John entrando na mina, e a câmera o acompanha, o túnel de entrada vai ficando cada vez mais estreito e escuro, e o teto cada vez mais baixo, enquanto John se curva a cada passo que dá. Não há trilha sonora ao longo do filme, uma música sequer, apesar do título "West Song". E termina no silêncio, quando não mais se vê o herói na escuridão da mina.

Eu indico.

Marco Antonio
Dezembro de 2015.