30.7.25

CIGARROS

Lembrei dele agora. Sother.


Fomos colegas no ensino médio. Na época, o curso médio tinha outro nome. Já observaram que as coisas mudam de nome de quinze em quinze anos? Mas voltemos ao texto. Tomamos caminhos diferentes, fui estudar contabilidade; ele, medicina.


E eis que, muitos anos depois, encontro o bom ex-colega Sother. Como estava magro!


- o que há, Sother?


- é a vida.


- Mas você não é médico? Cuide-se, procure seus colegas de profissão, é para isso que servem os colegas.


- Não sei mais o que fazer…


- Talvez eu possa ajudá-lo, Sother, sempre vale a pena tentar.


E lá fomos nós. Marcamos numa boate. Era a casa da moda, todas as garotas, as bonitas, claro, iam para lá. O meu amigo, até por conta dos seus problemas, nunca havia pisado naquele lugar um tanto exótico para sua rotina de então.

- Aqui é o paraíso, Sother. Seus males serão coisas do passado.


Apresentei-lhe Betinha. Betinha era estudante do último ano de psicologia, uma moça de hábitos e pensamentos alternativos, usava roupas psicodélicas e ouvia Yes, Pink Floyd, Genesis. Mas o que importa é o fato de Sother ter gostado dela, tornaram-se não somente namoradinhos, mas ele também passou a gostar do Yes. Certa vez, convidou-me a visitá-los, quando já moravam juntos, e passamos uma noite de sábado ouvindo o novo álbum, a capa do long play lembrava a paisagem de um planeta mágico, e as músicas eram imensas, elas não acabavam nunca.


Havia agora o semblante de felicidade em Sother, visivelmente restabelecido, não somente estava saudável, realizado, acordara definitivamente para a vida, teve filhos, e sempre dedicado à amada profissão médica. Além disso, engordou. Sother era alto, e agora já com outra compleição, parecia ser um atleta.


Mas a vida vai e volta.


Sother mantinha um único vício, o tabagismo. Soube que em certa manhã de sábado, saiu para comprar uma carteira de cigarros. Dizem que fora visto entrando na mercearia de um bairro central da cidade. O proprietário confirma que lhe vendeu um maço, mas não se recorda de muito mais do que isso, apenas um acréscimo de pouco valor, que pagara em dinheiro em espécie, em notas miúdas. Naqueles tempos não havia essa imensidão atual de câmeras espalhadas pelas ruas, prédios, casas e avenidas. Apenas o testemunho humano. Um morador de rua que ficava por ali, falou a um policial sobre um homem da mesma estatura e biotipo de Sother ter entrado em um carro estacionado do outro lado da calçada em que ficava o seu ponto. Não conseguia lembrar-se da marca ou da cor do veículo.


Recentemente, saiu uma foto num jornal, uma nova tentativa de busca, uma elaboração artística de como Sother seria atualmente. Betinha a enviou para mim. Era um Sother adentrado em anos, cabelos grisalhos, olhos afundados, queixo proeminente. “Sei lá, uma última tentativa”, foi o que ela disse, ainda inconformada, apesar dos anos, a indagar sobre o que poderia estar por trás do desaparecimento do grande e maior amor de sua vida, uma saída de casa para comprar cigarros e nunca mais retornar, nem mesmo um bilhete, um recado, um aviso, nada. Além das consultas psiquiátricas com o Dr. Michel, falou também que buscara ajuda de uma vidente, famosa, mas nem naquela busca desesperada através do sobrenatural obtivera menor alívio ou uma fagulha de esperança de que ele estivesse vivendo bem ou mal noutro lugar, ou morto.


As autoridades policiais deram como desaparecido.


Uma vizinha do casal falou a um repórter, logo após o acontecido, que alimentava uma desconfiança: “No íntimo, um sentimento vivo, sempre tomada por um incômodo quando o via, uma visão do seu destino, que um dia, em um dia qualquer, ele faria aquilo, e sumiria para sempre.”

19.7.25

FORÇA ESTRANHA

Anos 80. Comprei o novo álbum do Talking Heads.


Quem indicara o disco, desta vez não mais aquele professor genial de antes. Uma escolha particular do vendedor da casa de discos, pois eu vinha de uma sequência de falhas trágicas.


- não tem como falhar, Ubaldino.


O ritmo, a instrumentação, as influências africanas.


Havia conhecido a moça no banco. Teria ido lá supostamente levando o pai, ou levada por ele, não sei bem, um homem muito velho. Talvez somente velho não seja o melhor adjetivo para ele. Enfim, foram fazer atualização de um cadastro. Fiquei impressionado com a antiguidade dos registros, mas era o meu trabalho apenas fazer o que fosse necessário para regularizar a situação cadastral do cliente, mas sempre de olho na acompanhante.


Talvez eu deva dar um pulo maior na narrativa.


A moça chegou ao meu apartamento, e logo começamos a dançar. Não era uma dança qualquer. Hipnótica. Ela girava, e a minha cabeça girava junto, faixa após faixa daquele long play. Após o disco tocar três vezes, busquei o sofá para um breve descanso. Ela permaneceu dançando, mas era para mim.


E foi a partir dali que tudo começou. Seu rosto transformou-se, o sorriso era pura lascívia, devassidão e luxúria. E foi quando ela avançou. Como num bote.


No trabalho, os colegas deram-se conta de que eu havia faltado dois dias. Arrombaram a porta, e fui encontrado ainda naquele sofá, “sem uma gota de sangue”, é o que disseram depois, e os exames constataram praticamente este fato. Passei três semanas no hospital. Duas transfusões e um padre.


Escolho o caminho mais direto, e fui ao salão de uma vidente. Ao abrir a porta, a mulher recusou-se a fazer o seu trabalho. Ainda convalescendo e fora do trabalho, soube através de um bom colega que aquele cliente voltara com sua jovem companheira para pedir transferência dos valores para fora do país, encerrando a conta.


Nunca mais ouvi o Talking Heads. Uma rejeição vã. Pois aquele rosto ainda habita em meus pensamentos, também nos sonhos e pesadelos. A desconfiança de que ela nunca se foi. Eu a vejo misturada na multidão ou adentrando um elevador, subindo uma escada ou quando acordo no meio da noite. De certa feita, numa sorveteria, fui ao balcão fazer um pedido. E juro que foi ela quem me atendeu, e sorriu. Não sei o que se pode pensar de um homem já velho que sai correndo de dentro de uma sorveteria.


E tudo começou nos anos 80.

TARKUS

 Vocês conhecem aquele LP do Emerson Lake & Palmer com um tatu-pistola na capa? 

Eu comprei Tarkus para um primeiro encontro. Indicação de um ex-professor de faculdade, aquele de sempre, vocês já sabemd. O cara era um gênio.

- esse ai não falha, Ubaldino. 

E lá fui eu. Bem verdade que a capa era um tanto estranha, um bicho tecno-mitológico, mistura de tatu, tanque de guerra e pistola. Como uma moça, embora avançadinha e que usava mini-saia, poderia se encantar? Pior. As músicas. Meu Deus, o que era aquilo? Mas já havia comprado, em dólar.

Quando a mocinha adentrou meu apartamento, já estava tocando a faixa título do álbum. 

- o que é isso, Ubaldino?

- Tarkus, última moda em Londres.

Parecia assustada com o som do teclado. Segundo o meu professor, Keith Emerson fazia dos multi-teclados um tipo moderno de percussão, misturando jazz, música clássica e sons psicodélicos. 

Mas acreditem, felizmente, veio o blackout e faltou luz no exato momento. A vitrola estancou. 

Eu diria que a escuridão é, ao mesmo tempo, o esconderijo da alma e a luz dos instintos. É nela que as mulheres se entregam totalmente.

Julho de 2025

15.6.25

OCASO

Eu vi o fim do Orkut, e agora assisto ao ocaso do Facebook. Os dias do ocaso são alanrajdos, como um permanente pôr do sol. As pessoas, poucas, andam lentamente de um lado para o outro, entram e saem de seus esconderijos e passam o resto do dia lá dentro, fazendo ninguém sabe o quê.

Nós aqui já vimos muitas coisas, os da minha geração assistiram ao fim do império soviético. Eu estava no banco, e um colega trouxe um jornal: “olha prá isso aqui, Ubaldino!”. Mas deparava-me no momento  com uma diferença no caixa, pouca, mas sabe como é, e não dei muita atenção. Ao final do expediente, já exausto e totalmente esquecido do jornal, fui visitar a minha nova namoradinha, linda, pele rosada, cabelos loiros, lábios avermelhados, um doce. Não era o momento de  lembrar-se do fim da União Soviética. Já havia passado o Natal, é verdade, mas havia o clima natalino ao redor. E aproximava-se o Ano Novo. E eu com uma namoradinha nova.

Meses depois, descobri que ela amava um outro cara, e fugiu com ele. Num Corcel. Ele tinha um Corcel amarelo, disseram-me. Senti uma pontada. Foi aí que o meu mundo caiu.


Junho de 2025

31.3.24

FIM DA INFÂNCIA

Quando a menina entrou, viu a chama oscilante mal iluminando a cozinha, e a mãe tomava café com biscoitos, o rosto fixo sobre a xícara, movimentos lentos, costas recurvadas. Mas o silêncio permaneceu, como se lá não estivessem.

A filha sentou-se e esperou que a mãe falasse algo. Esperou, mas não veio palavra alguma. Fazia frio, e ambas usavam um pequeno cobertor sobre os ombros. Lá fora, sem vento algum, nem o farfalhar das árvores. Foi quando quebrou-se o silêncio.

- Papai ainda não chegou, mamãe.

A mãe levantou a xícara e tomou mais um gole.

- Por que ele está demorando tanto, mamãe?

Sem levantar os olhos, a mamãe ergueu a xícara com a costumeira leveza nos gestos, e com rapidez vertiginosa, a atirou contra a parede. Impassível em sua cadeira, permaneceu onde estava, ombros caídos, braços soltos, o corpo recurvado, como se nada houvesse feito de anormal.

- Mamãe?

- Betinha?

A menina levantou-se e tocou os longos cabelos da mãe, e o fez de cima para baixo, vezes seguidas, entrelaçando seus dedos pequenos entre os fios. E continuou, enquanto lágrimas pequenas escorriam pelo rosto. A mãe não se mexia, apenas a respiração fazia balançar as chamas da vela diante delas.

E o mundo se descortinou diante dela, pela primeira vez, embora quase nada pudesse enxergar além da pequena chama.

- Mamãe - Repetiu, bem baixinho, quase inaudível, quando veio uma rajada lá de fora, por aquela porta entreaberta. E a chama deu lugar à escuridão que as acolheu.

17.3.24

NOITE

Estávamos todos na varanda. Lá fora, a escuridão abaixo das estrelas estendia-se até nós. Dentro da casa, umas poucas lamparinas. Em volta delas, pequenas mariposas girando sem parar. Foi quando a menina gritou. Todos se levantaram, foi um grito agudo, alto, sentimos como um estremecimento. Lá fora, a noite densa pareceu avançar um pouco mais. A mamãe correu para a garotinha e tomou-a nos braços. Era abril, o calor erguia-se voltando ao espaço, como se um fluxo do chão para o profundo do desconhecido, e nem sinal de uma brisa, as árvores inertes e silenciosas. A menina apontou para dentro da sala. A mamãe tentava acalmá-la, balançando-a como se faz com crianças bem menores.


- São lamparinas e mariposas, querida Lúcia, minha Lucinha. Veja como elas voam. Sempre retornam e se chocam com o vidro. Veja!


A menina tentou olhar para a mariposa por algum tempo e acompanhou o voo em espiral. Logo desviou os olhos para mais lá dentro, para os cômodos além da sala, uma escuridão dentro da qual as lamparinas não alcançavam. E apontou mais uma vez.


- Traga-a para cá. – Disse o pai, indo buscá-la.


E ouvimos o segundo grito. Dessa vez, não agudo e nem curto. Foi como se não viesse daquela garotinha, como se de outro lugar ou de outra pessoa. A mamãe correu para fora com a filha agarrada fortemente aos braços, e chamou pelo esposo. Entre nós havia um médico que foi socorrê-la, levando o dorso da mão ao pescoço da criança.

 

- Ela pode estar febril.
- Mas não está.


Aos poucos, num levantar-se, as visitas iniciaram a se despedir do anfitrião. “Já é tarde; afinal, todos precisam descansar para amanhã”. Não era tarde, haviam chegado há pouco. E foram-se todos dali. Ficou o pai, segurando uma lanterna. A filhinha abraçada à mamãe, que lhe tampava os olhos.

 

Foi a mais longa das noites. 

20.1.19

DUAS SERRAS

(Twin Peaks Revisitada)

 

O seletor de velocidade do ventilador estava no mínimo. O ventilador, de teto, fazia um ruído agradável aos ouvidos dela. Um defeito numa das pás provocava um pequeno estalo a cada giro. Aquele estalo estava lá há muito tempo. Quando ela era ainda uma criancinha, ele estava lá. Abaixo dele e sobre o tapete vermelho, ela fazia as lições da escola, totalmente recurvada sobre a mesa-de-centro. A TV ligada, um pouco mais à frente, quase inaudível. Era assim que estudava, embora não parecesse nada confortável, pois era alta e esguia, e mantinha as pernas cruzadas, livros espalhados, e o caderno sobre a mesinha. Estava no último ano do ensino médio, mas sem planos para o futuro e, além disso, filha única e adorada. 

 

Mas era obrigada a se encurvar muito para poder escrever sobre a mesinha.

 

Já passava das nove da noite, os pais haviam saído para o jantar do mês de um grupo de amigos. As portas estavam fechadas e seguras. Na TV, um filme qualquer. De cima, a brisa do ventilador no mínimo.

 

Tomou em suas mãos o livro de capa vermelha. Foi quando ela notou que a brisa cessou de repente. Olhou para cima e viu que as pás do ventilador haviam parado. 

 

Ao desviar a visão do ventilador, ela deparou-se com a visão não muito nítida de um homem no outro extremo da sala. Seus cabelos eram longos, uma mistura de pretos e grisalhos. Ele estava lá, parado, olhando-a, mas não dava para identificar claramente as feições. Ele já se movimentava, e vinha bem devagarinho, alcançava o tapete, e cada vez se aproximando, mais e mais, e passou a andar em volta, em espiral, e a cada volta que dava, aproximava-se mais. Seu movimento tinha um quê de coreografia, como um ritual para chegar até ela, usando um blusão sintético preto e de aparência vulgar.

 

Ela não ousou perguntar como ele havia entrado ali. Como ele poderia? Havia alarmes, câmeras, todas essas coisas de segurança.

 

E ele continuou dando voltas, aproximando-se lentamente, não andava ereto, os joelhos um pouco dobrados, meio agachado, andava desse jeito, mas não balançava o corpo. Os braços permaneciam abertos para a frente, como que para pegá-la. A boca sempre aberta. Mas não ria. Nada daquilo poderia lembrar um sorriso. 

 

Ao chegar mais perto, sentiu o cheiro dele. Cheiro de perfume misturado ao de suor. Ele já estava muito perto e poderia tocá-la, se quisesse. 

 

- Não! Pelo amor de Deus, não! Meu Jesus, não! - Ela gritou.

 

Fez um enorme esforço. E a visão foi turvando. Aquela bocarra aberta foi se misturando a uma névoa envolvendo a sala inteira, até ela não poder mais enxergar nada.

 

O homem arrancou uma página do caderno, apanhou a caneta e começou a escrever. Bem devagar, tão devagar que parecia desenhar, em vez de escrever. E em total concentração e cuidado nos detalhes, a bocarra aberta, quase colada ao papel, a respiração sendo jogada contra a folha de caderno escolar. 

 

Quando ela voltou a si, não havia mais nenhuma névoa, a visão estava límpida e nítida, e se deu conta da possibilidade de poder fugir e escapar, ele permanecia a escrever, e parecia não se importar com ela.

 

Mirou o corredor que dava para os quartos e correu. Entrou no primeiro quarto, trancou a porta, abriu a janela e pulou. E correu o mais que pôde. Mas não o suficiente. 

OS CARAS DA MESA AO LADO

“Fora da ciência, o progresso não passa de um mito.”
John Gray - Cachorros de Palha. 


Eu os vi naquele restaurante, estavam numa mesa bem próxima à nossa, em número de quatro. Lembro bem deles. Cheguei a comentar com o meu amigo:

- Aqueles caras ali naquela mesa. Olhe pra eles…

O meu amigo disse não ter notado nada de anormal, nem nas roupas, na aparência ou nos gestos, e achou engraçada a minha desconfiança, seja lá qual fosse.

- Eles estão bebendo cerveja da mesma marca da nossa. - ele brincou e encheu meu copo.

Eu e meu amigo estávamos ali para trocarmos ideias sobre a compra de um imóvel. Ele entendia do ramo. Na verdade, o seu trabalho. Eu o convidara para uma consulta informal.

- Compre agora! - deu aquele tipo de opinião de profissional - Os preços vão subir. Vão subir muito, pode acreditar em mim. O mercado imobiliário está aquecido.  A economia está de vento em popa, as expectativas são de manutenção do crescimento e de uma demanda crescente. Quem tem dinheiro está comprando tudo. Se esperar, meu amigo, pode perder uma ótima oportunidade ou vir a comprar bem mais caro daqui a um mês.

Ele era bom naquilo, inteligente, bem informado, sempre certeiro. E eu me decidi de imediato. Além disso, éramos amigos, bons amigos, velhos conhecidos. 

- Fechado! O negócio será fechado logo pela manhã - Prometi.

Terminamos o jantar na certeza de ter decidido fazer a coisa certa. Na saída, passamos pela mesa dos quatro, e nenhum deles deu pela nossa presença. O que parecia ser o mais velho falava pausadamente, enquanto os demais ouviam com atenção.

No dia seguinte, um pouco antes da hora do almoço, quando cheguei em casa, depois de pegar um trânsito totalmente caótico, encontrei a minha mulher tentando, em vão, sintonizar algum canal de TV.

- Só chuvisco, você está vendo? Todos os canais estão assim - ela comentou com ar de interrogação, parada no meio da sala, mostrando o controle remoto pra mim.

- Pode ser o cabo folgado. Ou o transmissor queimou. Meu celular também não tem sinal.

- Fechou o negócio? - ela perguntou. Havia esperança em seu rosto. Mas também apreensão

- Não deu...

- Deus do Céu! - Ela desabou sobre sofá da sala, deixando cair o controle remoto no chão. - Perdemos a maior oportunidade de nossas vidas. Afinal, o que aconteceu com você? O que deu em você? O que deu em você? - Ela repetia gritando sem parar - O que deu em você?

Três dias depois, nenhum de nós sabia ainda o que estava acontecendo, nem quanto tempo duraria. No início da noite, carros da polícia fecharam as avenidas principais da cidade. As emissoras de rádio, a única forma de saber o que acontecia lá fora, nada diziam além dos pronunciamentos oficiais. Estávamos no escuro, como se diz, sem telefone, sem celular, sem internet. Uma nota oficial anunciou o fechamento das escolas, repartições públicas, dos estabelecimentos comerciais e parques. Emitiram uma ordem para que ninguém saísse de casa, exceção para casos de emergência médica. Apenas os hospitais ficariam abertos, sob forte proteção da polícia e do Exército. Sem explicação alguma, apenas ordens.

Os dias seguintes foram como um rolo compressor. Falta de energia e de água; saques, pessoas correndo pelas ruas com pacotes de comida e enlatados, dava para ver da janela de nosso apartamento. Caos e violência. Passamos a sentir muito medo. Minha mulher provavelmente já havia esquecido o fato de eu não ter feito o negócio de nossas vidas.

No entanto, apesar do caos social e humano que avistávamos da janela, além das ordens oficiais pelo rádio com proibições de toda natureza, não ouvimos um único sinal de explosão ou ataque militar. Raros eram tiros aqui e ali.

Para a nossa sorte, por um tempo, teríamos um bom estoque de comida e enlatados, e só havia nós dois em casa. Mas tínhamos receio de que os vizinhos viessem. Não ousávamos sair ou abrir as portas do apartamento, nem as janelas, apesar do calor sufocante. Não foi fácil permanecer ali daquele jeito. Mas qual seria a alternativa?

A minha mulher deixou de lado aquele seu nervosismo inicial, talvez por ter percebido, antes de mim, o poço onde estávamos mergulhando, embora não soubesse de nada sobre o que havia causado tudo aquilo. Mantinha, para a minha perplexidade, uma serenidade nos gestos e nas palavras. Preparava a comida, respeitava metodicamente os horários das três refeiçoes, arrumava a mesa e a nossa cama, colocava os objetos de volta no lugar. Vê-la varrendo a sala dava um pouco de esperança. O mundo lá fora desmoronando, e ela varrendo o quarto, colocando com cuidado as roupas na gaveta certa. As últimas imagens daquele mundo ao qual estávamos acostumados desde criança, e que ainda tento carregar, são da minha mulher tentando manter as coisas em ordem.

Depois de alguns dias, não  teve mais jeito. Saímos à procura de água e comida. Fazer isso e fugir do inferno da cidade. Nessa fuga da metrópole, grupos perseguiam grupos, um mundo de pessoas fugindo e com medo de tudo, e ninguém sabia dizer a razão de termos chegado naquele ponto. Simplesmente não houvíamos respostas concretas, com a exceção de teorias malucas.

Para nossa infelicidade, nos perdemos um do outro. Nem mais uma vez a vi, e nem lembro de como ela se afastou e sumiu. Qualquer traço de esperança se esvaiu. Não era mais o mesmo mundo.

Agora, anos depois,  nos organizamos em tribos. Tribos rivais e sistematicamente agressivas umas com as outras, exceção para alguma aliança temporária contra outro agrupamento. Mas dizem que já temos alguma normalidade, se é que isso pode ser chamado de normalidade. Em verdade, um caos violento ao qual nos acostumamos com o tempo. A parte população que sobreviveu à fome e às doenças dividiu-se em espécies de tribos com nomes estranhos e lideradas com mão de ferro. Havia também os desgarrados, gente que não aceitou ficar sob comando de um pequeno tirano qualquer e saiu a aventurar-se por ai, enfrentando um dia incerto após o outro.

Passei a vida ouvindo falar da capacidade humana de adaptação. Sim, nos adaptamos. O tempo foi passando, fui deixando pra lá. De vez em quando, raramente, tenho um sonho bom, as cidades erguidas, carros, semáforos, pessoas atravessando ordenadamente pela faixa de pedestres; telefones, internet, condicionadores de ar; remédios contra dor, água limpa; lanchonetes, comida farta à venda em supermercados; supermercados gigantescos e suas prateleiras abarrotadas com uma variedade infindável de opções. Sonho ainda com a casa arrumada, a mesa posta, minha mulher fazendo todas aquelas coisas em seus mínimos detalhes, as roupas na gaveta certa, talheres, xícaras, a TV ligada, o sofá da sala, as pequenas coisas da ordem e da rotina doméstica. 

Recentemente, por uma sorte de uma em um bilhão, reencontrei aquele meu amigo do mercado imobiliário. Coitado, um trapo humano, quase irreconhecível. Eu também - ele disse - quase irreconhecível. Perdemos também aquelas maneiras gentis de esconder a verdade sobre a aparência envelhecida, desgastada ou doentia de um amigo após muitos anos distantes um do outro. Aliás, foi muito rápido como todas as formas de convivência civilizada se deterioraram. Afinal, não faz tanto tempo assim.

- Você lembra da última vez em que conversamos? Foi naquele restaurante perto de um shopping enorme. Era muito bom aquele lugar, não era? Aliás, tudo parecia ser muito bom... - Eu disse.

- Sim, lembro. A parte do bar era muito bonita, sempre iluminada com cores vivas por trás das garrafas nas prateleiras.

- Era um lugar muito bom!

- Lembro também de você ter apontado para os caras estranhos. Você lembra disso?

- Sua memória ainda está boa, meu amigo, apesar de tudo, apesar de seus cabelos já quase nem existirem mais.

- Mas eu não percebi nada neles. Eu juro! Juro que não percebi…

- Eu sei disso. Mas talvez tenha sido apenas um engano meu. Só um engano, talvez… e não poderíamos ter feito nada... então... - eu sorri.

-  Não, não poderíamos.

Foi uma conversa rápida, o grupo dele se aproximou e logo nos afastamos. Não perguntou sobre a minha mulher, nem eu pela família dele. Neste ponto, fomos muito gentis um com o outro. E não nos vimos nunca mais.

Marco Antonio.

ESTÁ NA HORA DE FECHAR



O mundo parecia rodar ao meu redor quando levantei naquela manhã fria de agosto. Eu havia bebido muito na noite anterior e ainda havia cheiro de cerveja na roupa e em toda a casa, e a visão era de garrafas espalhadas pelo chão da sala e por cima dos móveis. Lá fora, caia uma chuva fina e constante, nem ruído fazia, de tão fina que era. Olhei pela janela, abrindo um pouquinho a cortina. A luz doía nos olhos, fazendo a náusea vir de lá do fundo do estômago.

Deu apenas pra saber, de relance, que a rua estava vazia, apenas água fina escorrendo pela calçada. Então eu fui até o banheiro e tomei um longo banho. A água pesada e forte sobre as costas; os olhos fechados, um zumbido fino na cabeça, a náusea, e o ruído do impacto da água no piso escorrendo pelo ralo. Já menos sonolento, fiz um café, Deus sabe como, e dormi o resto do dia.

Quando já  noite, ainda a mesma chuva fina caindo lá fora, troquei de roupa e fui até a uma lanchonete próxima. Pedi um daqueles sanduíches imensos e gordurosos. Sentei-me numa mesa bem afastada, embora o lugar estivesse vazio. Ao fim -  parecia estar novamente vivo -, o dono do estabelecimento perguntou o que eu ainda estava fazendo ali, e foi logo dando ordens de ir embora.

- Está na hora de fechar!

Ao voltar, o mais depressa que pude, não vi uma única alma pela frente, embora não fosse tão tarde assim. A rua estava deserta, as demais casas com as portas e janelas fechadas contra o frio e a umidade. Entrei, liguei a TV, estava passando notícias, e fiquei ouvindo a apresentadora, enquanto limpava a sala de todas aquelas garrafas da noite anterior. Havia muitas garrafas e latas de cerveja, mas também algumas poucas de vinho, uísque, vodca, até de rum havia também.

Passava no canal uma longa reportagem sobre a mais recente crise. Deitei-me no sofá e  tentei prestar atenção ao conjunto confuso de informações e declarações de autoridades do sistema financeiro, um desfile interminável de empresários, ministros, governadores, líderes políticos, economistas, consultores e palpiteiros falando pelos quatro cantos do mundo. Estranhou-me entrevistarem também autoridades militares e religiosas. Aquilo havia explodido, ao que parece, num único dia, talvez só a partir do turno da tarde, enquanto eu dormia, naquele dia em que eu havia dormido tanto. E, dada a surpresa geral, sem maiores avisos. Mas lá fora parecia ir tudo bem. Pelo menos, entre a minha casa e a lanchonete, eu não vi nada de estranho, pessoas correndo ou desesperadas, nem cães latindo. Aliás, não vi quase ninguém, essa é a verdade. E passo a entender o dono da lanchonete.

- Aquele imbecil a comer hamburguer, ovos fritos, queijo e alface dentro de um pão imenso num dia assim. - Deve ter pensado isso.

Tentei me situar, mas havia ainda muitos ecos da noitada anterior que impediam qualquer esforço para concentrar-me no volumoso dos fatos. Eu tentava entender a reportagem e, ao mesmo tempo, relembrar os acontecimentos da noite anterior. Esforçava-me pra recobrar alguns detalhes escondidos não sei onde, e era difícil saber quais exatamente foram as pessoas que estiveram ali comigo. A memória, severamente confusa e comprometida, bem mais fácil então  prestar atenção ao programa jornalístico na TV.

Dava a impressão de uma grande emergência, quase uma daquelas calamidades bíblicas de gafanhotos sobre as lavouras. Passavam videos profissionais e amadores. Um deles mostrou um grupo enfurecido de motoristas de caminhão invadindo um posto de gasolina. Em seguida, imagens aéreas de um congestionamento gigantesco numa rodovia em São Paulo. Acidentes automobilísticos envolvendo centenas de carros, aeroportos fechados, lojas de alimentos invadidas em Curitiba. Fúria nas favelas, medo nas ruas centrais dos grandes centros, caos no Rio e outras capitais do país, EUA, México, China. Em Londres, a coisa parecia bem pior. Deus do Céu, o que era aquilo, afinal?

Fui até a geladeira e abri uma cerveja. De volta ao sofá, cobri-me com um cobertor. Foi o suficiente. Cai no sono mais uma vez.

De madrugada, ouvi batidas fortes na madeira da porta e acordei de um sono sem sonhos. Deu para ouvir uma voz suplicando, mas o som da TV a suplantava. A TV iluminava as paredes da sala com intensidade variada de brilho, meia-luz e sombras se alternando. O som das batidas misturava-se à voz monótona de uma mulher em oração num programa religioso, aqueles programas de igrejas, seitas e seus pregadores. Estava muito frio e sentia-me confortável sob a coberta grossa de lã. Não levantei. Tive medo. Esperei até as batidas cessarem, a respiração contida, os olhos fixos na porta da sala

Mas quem lá estava, seja quem fosse, poderia até ser uma amigo, se foi, restando apenas a voz monótona de uma mulher de meia-idade em oração na tela.

Ela repetia sem parar uma evocação minimalista ao Senhor. O olhos estavam voltados para baixo, e um véu branco encobria boa parte dos volumosos cabelos grisalhos que não chegavam a tocar os ombros. Aquela repetição - calma, lenta e cadenciada - durou mais uns dois minutos. Era tranquila. E o teor era de agradecimento, puro e total agradecimento por todas as coisas e dádivas neste mundo. Ao seu término, um silêncio breve e solene, seguido de imagens de um  imenso jardim de margaridas brancas iluminadas pelo sol. Nenhuma música de fundo, nenhuma legenda ou qualquer mensagem posterior.

Lá fora,  o leve som da chuva batendo finamente na calçada, e que agora se fazia ouvir.

A cortina da janela estava aberta e dava para olhar através de parte da vidraça. E eu vi enormes bolas de fogo caindo do céu. E tudo se iluminou por inteiro.

Marco Antonio.

PEIXES SOB A SUPERFÍCIE

 

UM


Num dia chuvoso qualquer, um cachorro mordeu a perna de uma criança. O pai saiu com um porrete, mas o cão fugiu, dobrando a esquina, mais rápido do que os olhos puderam perceber. E todos ficaram ali, fazendo volume, observando o pai do menino com um porrete na mão dando voltas em torno de si e em busca do cachorro, enquanto estava lá a criança sentada chorando na calçada, a palma da mão sobre a ferida. 


Quando a chuva caiu de vez, o dono da padaria pulou veloz o balcão, pegou o menino nos braços e o levou para dentro. Mas o pai continuava rodando como um tonto, tentando em vão encontrar o animal fujão, enquanto a criança permanecia chorando nos braços do padeiro. Jamais havia visto alguém tão perdido. 


A mãe não estava lá, dizem que estava viajando. Comenta-se que fugira com outro, um amante, fazia quase duas semanas, é o que se comentava. Mulher outrora muito bonita, casou cedo e teve esse único filho já tardiamente. O marido, um homem cumpridor dos seus deveres com a família e trabalhador; e, por isso mesmo, ninguém encontrava razões, afora as do coração, para ela ter esse tal amante, bem como nunca se viu os dois juntos ou coisa que o valha.

Mas o certo é que ela não estava lá quando a criança fora atacada pelo animal; apenas o pai com um porrete na mão e olhos perdidos mirando coisa alguma à procura de um cão para não se sabe mais o quê.

 

O dono da padaria puxou o pai pelo braço e o levou para dentro. Precisava que alguém o fizesse, pois a chuva engrossara muito. Coitado, molhado, porrete numa mão à busca de um cachorro que ninguém poderia saber onde estava. Foi dona Esmeralda, uma mulher muito gorda, quem o fez perceber, aos gritos, que a criança estava com a perna sangrando e a chorar, precisando ser levada para fazer um curativo, tomar vacina, algo assim, providências que só o pai poderia tomar.

 

 

 

DOIS

 

Decidiu pegar o filho nos braços e o colocou no carro, saindo em disparada para o hospital. A chuva não parava de cair. No bar, ao lado da padaria, os homens voltaram ao baralho, reclamando sobre a falta de iniciativa daquele homem.



No meio da tarde do sábado, o pai voltou, mas sem o filho. Deixara a criança de sete anos na casa de uma parente e apareceu sozinho. Mas tão logo estacionou o carro na garagem, foi direto para a casa amarela. E daí o desentendimento com o dono do cachorro, agora que já se sabia de quem era o animal. O filho provavelmente contara tudo, que estava atravessando a rua e, sem mais nem menos, o cachorro da casa amarela viera em disparada atacá-lo. Alguns cães são assim, eles aparecem do nada e avançam sobre qualquer vivente sem razão. Mas um pai não quer saber da falta de racionalidade dos animais quando um filho é atacado.



Não se sabe como foi a suposta discussão, pois estavam apenas os dois - o viúvo, dono do cachorro, e o pai do menino. O velho da casa amarela veio a falecer no meio da noite, vítima de um derrame. Alguém percebeu a luz da varanda acesa um pouco antes da meia-noite. O velho sempre a apagava antes de ir dormir. Dois vizinhos foram lá, deram um jeito de entrar e se depararam com aquele senhor paralisado na cama. Levado ao hospital, não demorou a falecer.

 

 

 

TRÊS


No domingo, por volta das dez horas da manhã, os parentes do falecido, um monte deles, uma gente muito estranha, e saída não se sabe de onde, chegaram em Duas Serras. Ninguém nunca os tinha visto. Um deles, muito nervoso e aborrecido, cabelos volumosos e brilhosos, como que untados com óleo, jaqueta preta de motoqueiro, tatuagens em ambos os braços, jurou vingança, falando impropérios para os curiosos. No meio da tarde, num bom carro do ano, o chefe. O reverenciavam com um gesto de cabeça quando ele passava.

Usava terno e óculos escuros, botas bem lustradas, manco de uma perna.

 

Embora visivelmente manco, era como se não fosse, todos desviavam o olhar.

Após o funeral, ocuparam a casa do falecido e a do pai do menino. Ninguém ousou fazer uma reclamação sequer.  Dali em diante, tudo mudou. Vários moradores do local, os que podiam, foram morar em outros bairros ou até em outra cidade. Mais e mais estranhos chegavam, dia após dia, sempre em grupo, comprando tudo para ali se instalarem definitivamente com suas mulheres e filhos.

Não se sabe por quais valores, mas o certo é que adquiriram os bares do bairro, a padaria, a mercearia grande, a mercearia pequena, a pousada, as duas farmácias, o posto de gasolina, além de prédios e casas para moradia. Veio até um outro padre em substituição ao antigo.

São muito católicos, e enchem o templo aos domingos.

Dá a impressão de a paróquia ser só deles.

O chefe agora mora na casa amarela. É um entra e sai constante, mesmo tarde da noite ou nos finais de semana, exceção para os horários de celebração na igreja. O cão do velho - aquele que mordera a perna do menino - está sempre na calçada em frente, deitado e atento, como que guardando e vigiando a entrada. E late, levantando-se em ameaça. Evita-se passar por ali.

Fico a pensar sobre onde estavam todos eles antes do incidente com a criança. De qual lugar vieram para invadir o bairro inteiro e as nossas vidas? Imagino que, de alguma forma, estivessem sempre prontos para emergir, como peixes nadando sob a superfície.

 

NÃO SEI AO CERTO COMO TUDO COMEÇOU


Eu não saberia dizer ao certo como tudo começou. Já passava das três da tarde e fazia um calor desgraçado, o ar seco, o sol batia no rosto e eu tinha que apertar os olhos porque doía muito aquela luz intensa e abundante vinda do alto, da frente e dos lados.

No verão, não é fácil viver por aqui. O sangue esquenta, a gente se irrita fácil, os nervos ficam à flor da pele. Um calor desgraçado, de dia e de noite.

E aí vem um carro e passa bem pertinho, raspando a minha roupa e buzinando alto. Um susto enorme. Acho que foi assim que aconteceu.

Quando dei conta, já estava no hospital. Horas depois, acordei. Disseram que havia sofrido um "pequeno" derrame. Um braço estava meio largado e eu não lembrava de muita coisa. Lembro bem da minha mulher ali em pé, abatida, olhos vermelhos, aquele olhar assustado voltado para mim. Fiquei internado por uns dias, fazendo um monte de exames, disso e daquilo, e finalmente voltei para casa.

Penso ainda que aquela buzina me deixou assim, e a vida não foi mais a mesma de antes.

Mas, antes disso, houve outra coisa. Devo contar. Foi quando abri aquele bilhete escrito com letra de homem. Ainda não entendo como em um mundo de computadores, e-mails, celulares e mensagens eletrônicas alguém ainda escreve bilhetes para a mulher de um outro homem. 

- Você vai ser minha hoje. Ás 3. No mesmo lugar, ok?

Fosse uma mensagem de celular, tudo poderia ser diferente.  Não haveria bilhete e eu não saberia  de nada, Mas aquele bilhete teve de ser lido, porque ela o deixou ali, em cima de um móvel do quarto. 

- No mesmo lugar, ok?.

Eu pensei: - Não é a primeira vez. Eles têm um lugar, um lugar deles.

Eu deixei o bilhete ali, fechado, do jeito que encontrei, na mesinha ao lado da cama. Deixei acontecer. Eu sabia que as coisas não andavam bem entre nós e não encontrei forças para impedir. 

- No mesmo lugar, ok?

Ora, já havia acontecido e pronto. Foi assim que interpretei. Se não fosse naquele dia, seria em outro. Aliás, já tinha acontecido antes, no mesmo lugar.

Fui para a rua e fiquei por ali, zanzando, sem saber para onde ir, imaginando qual seria “o mesmo lugar”. Foi quando aquele motorista fez o carro passar raspando em mim e buzinou alto. Talvez eu estivesse no caminho dele, sei lá, talvez a culpa tenha sido minha. Em certas situações, nunca se sabe de quem é a culpa. O certo é que estou aqui, desse jeito, um braço largado.

Eu poderia ter evitado, bastando não sair de casa, ou ter tomado cuidado ao atravessar a rua, ou não abrir aquele bilhete. Ou talvez, bem antes, muito antes, ter evitado que a vida tivesse tomado o rumo que tomou. Mas não há com se prevenir do imprevisto. Não há como saber qual será a consequência de certas ações e de um gesto banal, de uma ou outra palavra que a gente fala para alguém. O médico argumentou sobre a minha má alimentação, o sedentarismo, o cigarro que não havia parado de todo. Nada é uma coisa só. Uma coisa junta com outra e você nem sabe por que veio parar neste lugar. Eu não saberia dizer como tudo começou.

Logo após o acidente vascular, não falamos  sobre o bilhete. Afinal, o que eu poderia pedir, se  perguntasse sobre o bilhete? Poderia ser o fim. Ela teria ido embora e eu ficaria sozinho, com um braço largado.

Então eu abordei de outra maneira, indagando sobre ela estar com um marido meio aleijado, sendo ela uma mulher ainda bonita, vistosa e atraente. A reação dela foi chorar. Num piscar de olhos, derramou a chorar como uma criança. E eu fiquei olhando, comovido, esperando ela poder falar. Depois eu disse que deixasse pra lá aquela bobagem minha.

Mas aí ela começou a falar e a se lamentar. Você sabe como é, quando se quer colocar um mundo inteiro acumulado para fora. A minha mulher começou a contar uma história comprida de infelicidade e de uma vida de desilusão. Conversa de mulher, é verdade... Uma história comprida e  cheia de detalhes, detalhes vindos de do fundo da alma, de um passado distante, de um namoradinho do colégio e de quem ela  gostava tanto, quando ainda era uma garota bem nova e cheia de sonhos bonitos.

Se ela não contasse, eu não saberia nunca daquele mundo desconhecido que havia dentro dela, das decisões erradas, de ter me conhecido, da infelicidade de não termos um filho.

Fiquei ali, parado e olhando para ela, com meu braço largado e solto ao lado da poltrona, ouvindo e sem me mover, apenas ouvindo. Deu vontade de levantar e dar um abraço forte na minha mulher, mas não tive energia.

Não toquei no assunto do bilhete. Nem tive coragem. Apenas praguejei, não com certa dose de fingimento, amaldiçoando o calor e a hora em que aquele carro, do qual nem me lembro a cor, ter passado  por mim e buzinando tão alto.


Marco Antonio.