20.1.19

PEIXES SOB A SUPERFÍCIE

 

UM


Num dia chuvoso qualquer, um cachorro mordeu a perna de uma criança. O pai saiu com um porrete, mas o cão fugiu, dobrando a esquina, mais rápido do que os olhos puderam perceber. E todos ficaram ali, fazendo volume, observando o pai do menino com um porrete na mão dando voltas em torno de si e em busca do cachorro, enquanto estava lá a criança sentada chorando na calçada, a palma da mão sobre a ferida. 


Quando a chuva caiu de vez, o dono da padaria pulou veloz o balcão, pegou o menino nos braços e o levou para dentro. Mas o pai continuava rodando como um tonto, tentando em vão encontrar o animal fujão, enquanto a criança permanecia chorando nos braços do padeiro. Jamais havia visto alguém tão perdido. 


A mãe não estava lá, dizem que estava viajando. Comenta-se que fugira com outro, um amante, fazia quase duas semanas, é o que se comentava. Mulher outrora muito bonita, casou cedo e teve esse único filho já tardiamente. O marido, um homem cumpridor dos seus deveres com a família e trabalhador; e, por isso mesmo, ninguém encontrava razões, afora as do coração, para ela ter esse tal amante, bem como nunca se viu os dois juntos ou coisa que o valha.

Mas o certo é que ela não estava lá quando a criança fora atacada pelo animal; apenas o pai com um porrete na mão e olhos perdidos mirando coisa alguma à procura de um cão para não se sabe mais o quê.

 

O dono da padaria puxou o pai pelo braço e o levou para dentro. Precisava que alguém o fizesse, pois a chuva engrossara muito. Coitado, molhado, porrete numa mão à busca de um cachorro que ninguém poderia saber onde estava. Foi dona Esmeralda, uma mulher muito gorda, quem o fez perceber, aos gritos, que a criança estava com a perna sangrando e a chorar, precisando ser levada para fazer um curativo, tomar vacina, algo assim, providências que só o pai poderia tomar.

 

 

 

DOIS

 

Decidiu pegar o filho nos braços e o colocou no carro, saindo em disparada para o hospital. A chuva não parava de cair. No bar, ao lado da padaria, os homens voltaram ao baralho, reclamando sobre a falta de iniciativa daquele homem.



No meio da tarde do sábado, o pai voltou, mas sem o filho. Deixara a criança de sete anos na casa de uma parente e apareceu sozinho. Mas tão logo estacionou o carro na garagem, foi direto para a casa amarela. E daí o desentendimento com o dono do cachorro, agora que já se sabia de quem era o animal. O filho provavelmente contara tudo, que estava atravessando a rua e, sem mais nem menos, o cachorro da casa amarela viera em disparada atacá-lo. Alguns cães são assim, eles aparecem do nada e avançam sobre qualquer vivente sem razão. Mas um pai não quer saber da falta de racionalidade dos animais quando um filho é atacado.



Não se sabe como foi a suposta discussão, pois estavam apenas os dois - o viúvo, dono do cachorro, e o pai do menino. O velho da casa amarela veio a falecer no meio da noite, vítima de um derrame. Alguém percebeu a luz da varanda acesa um pouco antes da meia-noite. O velho sempre a apagava antes de ir dormir. Dois vizinhos foram lá, deram um jeito de entrar e se depararam com aquele senhor paralisado na cama. Levado ao hospital, não demorou a falecer.

 

 

 

TRÊS


No domingo, por volta das dez horas da manhã, os parentes do falecido, um monte deles, uma gente muito estranha, e saída não se sabe de onde, chegaram em Duas Serras. Ninguém nunca os tinha visto. Um deles, muito nervoso e aborrecido, cabelos volumosos e brilhosos, como que untados com óleo, jaqueta preta de motoqueiro, tatuagens em ambos os braços, jurou vingança, falando impropérios para os curiosos. No meio da tarde, num bom carro do ano, o chefe. O reverenciavam com um gesto de cabeça quando ele passava.

Usava terno e óculos escuros, botas bem lustradas, manco de uma perna.

 

Embora visivelmente manco, era como se não fosse, todos desviavam o olhar.

Após o funeral, ocuparam a casa do falecido e a do pai do menino. Ninguém ousou fazer uma reclamação sequer.  Dali em diante, tudo mudou. Vários moradores do local, os que podiam, foram morar em outros bairros ou até em outra cidade. Mais e mais estranhos chegavam, dia após dia, sempre em grupo, comprando tudo para ali se instalarem definitivamente com suas mulheres e filhos.

Não se sabe por quais valores, mas o certo é que adquiriram os bares do bairro, a padaria, a mercearia grande, a mercearia pequena, a pousada, as duas farmácias, o posto de gasolina, além de prédios e casas para moradia. Veio até um outro padre em substituição ao antigo.

São muito católicos, e enchem o templo aos domingos.

Dá a impressão de a paróquia ser só deles.

O chefe agora mora na casa amarela. É um entra e sai constante, mesmo tarde da noite ou nos finais de semana, exceção para os horários de celebração na igreja. O cão do velho - aquele que mordera a perna do menino - está sempre na calçada em frente, deitado e atento, como que guardando e vigiando a entrada. E late, levantando-se em ameaça. Evita-se passar por ali.

Fico a pensar sobre onde estavam todos eles antes do incidente com a criança. De qual lugar vieram para invadir o bairro inteiro e as nossas vidas? Imagino que, de alguma forma, estivessem sempre prontos para emergir, como peixes nadando sob a superfície.

 

NÃO SEI AO CERTO COMO TUDO COMEÇOU


Eu não saberia dizer ao certo como tudo começou. Já passava das três da tarde e fazia um calor desgraçado, o ar seco, o sol batia no rosto e eu tinha que apertar os olhos porque doía muito aquela luz intensa e abundante vinda do alto, da frente e dos lados.

No verão, não é fácil viver por aqui. O sangue esquenta, a gente se irrita fácil, os nervos ficam à flor da pele. Um calor desgraçado, de dia e de noite.

E aí vem um carro e passa bem pertinho, raspando a minha roupa e buzinando alto. Um susto enorme. Acho que foi assim que aconteceu.

Quando dei conta, já estava no hospital. Horas depois, acordei. Disseram que havia sofrido um "pequeno" derrame. Um braço estava meio largado e eu não lembrava de muita coisa. Lembro bem da minha mulher ali em pé, abatida, olhos vermelhos, aquele olhar assustado voltado para mim. Fiquei internado por uns dias, fazendo um monte de exames, disso e daquilo, e finalmente voltei para casa.

Penso ainda que aquela buzina me deixou assim, e a vida não foi mais a mesma de antes.

Mas, antes disso, houve outra coisa. Devo contar. Foi quando abri aquele bilhete escrito com letra de homem. Ainda não entendo como em um mundo de computadores, e-mails, celulares e mensagens eletrônicas alguém ainda escreve bilhetes para a mulher de um outro homem. 

- Você vai ser minha hoje. Ás 3. No mesmo lugar, ok?

Fosse uma mensagem de celular, tudo poderia ser diferente.  Não haveria bilhete e eu não saberia  de nada, Mas aquele bilhete teve de ser lido, porque ela o deixou ali, em cima de um móvel do quarto. 

- No mesmo lugar, ok?.

Eu pensei: - Não é a primeira vez. Eles têm um lugar, um lugar deles.

Eu deixei o bilhete ali, fechado, do jeito que encontrei, na mesinha ao lado da cama. Deixei acontecer. Eu sabia que as coisas não andavam bem entre nós e não encontrei forças para impedir. 

- No mesmo lugar, ok?

Ora, já havia acontecido e pronto. Foi assim que interpretei. Se não fosse naquele dia, seria em outro. Aliás, já tinha acontecido antes, no mesmo lugar.

Fui para a rua e fiquei por ali, zanzando, sem saber para onde ir, imaginando qual seria “o mesmo lugar”. Foi quando aquele motorista fez o carro passar raspando em mim e buzinou alto. Talvez eu estivesse no caminho dele, sei lá, talvez a culpa tenha sido minha. Em certas situações, nunca se sabe de quem é a culpa. O certo é que estou aqui, desse jeito, um braço largado.

Eu poderia ter evitado, bastando não sair de casa, ou ter tomado cuidado ao atravessar a rua, ou não abrir aquele bilhete. Ou talvez, bem antes, muito antes, ter evitado que a vida tivesse tomado o rumo que tomou. Mas não há com se prevenir do imprevisto. Não há como saber qual será a consequência de certas ações e de um gesto banal, de uma ou outra palavra que a gente fala para alguém. O médico argumentou sobre a minha má alimentação, o sedentarismo, o cigarro que não havia parado de todo. Nada é uma coisa só. Uma coisa junta com outra e você nem sabe por que veio parar neste lugar. Eu não saberia dizer como tudo começou.

Logo após o acidente vascular, não falamos  sobre o bilhete. Afinal, o que eu poderia pedir, se  perguntasse sobre o bilhete? Poderia ser o fim. Ela teria ido embora e eu ficaria sozinho, com um braço largado.

Então eu abordei de outra maneira, indagando sobre ela estar com um marido meio aleijado, sendo ela uma mulher ainda bonita, vistosa e atraente. A reação dela foi chorar. Num piscar de olhos, derramou a chorar como uma criança. E eu fiquei olhando, comovido, esperando ela poder falar. Depois eu disse que deixasse pra lá aquela bobagem minha.

Mas aí ela começou a falar e a se lamentar. Você sabe como é, quando se quer colocar um mundo inteiro acumulado para fora. A minha mulher começou a contar uma história comprida de infelicidade e de uma vida de desilusão. Conversa de mulher, é verdade... Uma história comprida e  cheia de detalhes, detalhes vindos de do fundo da alma, de um passado distante, de um namoradinho do colégio e de quem ela  gostava tanto, quando ainda era uma garota bem nova e cheia de sonhos bonitos.

Se ela não contasse, eu não saberia nunca daquele mundo desconhecido que havia dentro dela, das decisões erradas, de ter me conhecido, da infelicidade de não termos um filho.

Fiquei ali, parado e olhando para ela, com meu braço largado e solto ao lado da poltrona, ouvindo e sem me mover, apenas ouvindo. Deu vontade de levantar e dar um abraço forte na minha mulher, mas não tive energia.

Não toquei no assunto do bilhete. Nem tive coragem. Apenas praguejei, não com certa dose de fingimento, amaldiçoando o calor e a hora em que aquele carro, do qual nem me lembro a cor, ter passado  por mim e buzinando tão alto.


Marco Antonio. 

CANÇÃO DO OESTE


Ontem, tarde da noite, assisti a um bom faroeste. Canção do Oeste, rodado em 1965 e ambientado no século XIX, do diretor Ted Kholman, o mesmo de Terra Primata.

A história se passa, em sua primeira parte, no Texas. John, o protagonista, é xerife em um cidade violenta, casado com a bela Samantha, interpretada por Caroline Peterson.  Ao contrário dos demais filmes de sua longa carreira, Peterson usa cabelos loiros, contrastando com os conhecidos olhos negros enormes que a fizeram famosa.

A cidade é infestada de bandidos e, frequentemente, alvo de uma quadrilha de ladroes de gado. É o ambiente clássico do gênero. Mas as semelhanças com os demais filmes de faroeste parecem ficar só por aqui.

John é um homem bom, manso, muito sério, amoroso, embora corajoso. Faz bem o seu trabalho, e é apaixonado pela mulher. Por outro lado, ela o atormenta o tempo inteiro, dizendo não mais aguentar aquela vida de espoa de xerife.

-  Nunca sei se você vai voltar! -  ela repete (esse batido clichê) e joga na cara dele o quão se sente virtualmente viúva. Sonha viver outra vida, a vidinha pacata das mulheres casadas com homens normais. Como bem se vê, a tirar somente por essa passagem, o  filme é de temática universal. O longa retrata a vida desse homem dividido entre a família e suas obrigações com a lei e a comunidade. Nada mais comum.

Tem aquela cena do saloon, e que ficou famosa no livro História do Cinema, do crítico Sam Adams, na qual um bêbado levanta-se e vai em direção ao balcão e tropeça nas pernas de um forasteiro de cara ruim. E então leva um tiro e cai morto. O xerife adentra o ambiente no exato momento e, sem pestanejar, saca a arma e a aponta para o assassino, ordenando que se renda. O forasteiro mira o xerife. É tudo muito rápido. Todos os presentes se afastam. Em seguida, a cena corre lentamente: Há um longo momento de tensão, silêncio e suspense. Finalmente, o dono do bar (interpretado por Arthur Kennedy - ele fez essa "ponta", mas ironicamente uma cena que se tornou ontológica)  pega a arma debaixo do balcão e atira fatalmente no agressor. A câmera enquadra a expressão de Arthur Kennedy, já com sua famosa expressão de homem atormentado.

Enfim, diferentemente dos filmes do gênero, não é o herói que abate o malfeitor com seu gatilho certeiro. Embora John, o herói, decida enfrentar o assassino sem temor e, muito provavelmente morreria no confronto, é o dono do bar, normalmente um figurante, quem mata o facínora. Na  maioria dos filmes, o dono do bar é o primeiro a se esconder embaixo do balcão.

Num dado ponto, há uma reviravolta, quando Samantha fica grávida. Numa manhã, após ter passado a noite em claro numa caçada a bandidos ladrões de gado, o marido chega em casa e encontra a mulher em prantos. Ela faça mais uma daquelas cenas. Então John a toma em seus braços, arruma as coisas e vai embora.

Kholman mostra a partida do casal numa tomada ampla, a paisagem árida e plana do Texas, a vegetação rasteira e pouca, porções imensas de chão desnudo, elevações rochosas ao fundo. Ao longe, a charrete na qual iam os dois. E a poeira.

Após o que, o filme dá um salto de alguns anos no tempo e mostra John, Samantha e a linda filhinha Anne instalados numa cidade mineradora da Califórnia.

John é agora trabalhador de uma mina. Um proletário. Ao contrário de antes, temos agora um homem endurecido pelo trabalho, grosseiro, sujo, sempre desalinhado, o exato oposto do xerife do início do filme. Antes, na qualidade de representante da lei, um contraponto à barbárie da fronteira violenta, era obrigado a manter o ar de civilidade, sempre limpo, barbeado, roupas decentes. E com o ar de "tudo sob controle".

Samantha, óbvio, ressente-se disso. Não mais sob o temor da perda,  ou  por dormir sozinha sem saber se o marido voltará de uma caçada a ladrões de gado, não mais pela ameaça constante da viuvez. Agora são os modos rudes do marido que a deixam infeliz. Em resumo, a mulher sempre insatisfeita. Tanto início do filme, mais ainda agora.

Então o nosso diretor dá outra reviravolta, quando ela, não mais suportando estar casada com um trabalhador braçal e rude, uma mulher bonita para atrair qualquer homem neste mundo (Kholman enfatiza ainda mais com tomadas em "close", enquadrando na tela a beleza de Caroline Peterson), foge com um jovem aventureiro, um forasteiro galante e mentiroso, claramente um bandido.

O filme termina de forma magistral - Ted Kholman joga na cena final todo o seu talento como diretor de câmera - e mostra John entrando na mina, e a câmera o acompanha, o túnel de entrada vai ficando cada vez mais estreito e escuro, e o teto cada vez mais baixo e enegrecido, enquanto John curva-se mais e mais a cada passo que dá.

Não há trilha sonora ao longo do filme, uma música sequer, apesar do título "West Song". E termina como começou, em silêncio absoluto, quando não mais se vê o herói na escuridão da mina.

Eu indico.

Marco Antonio.

LIMONADA (imitação de um poema)


A prosa que se segue no próximo parágrafo é apenas uma alusão a um poema de um contista americano de quem gosto de ler, e cujo primeiro livro adquiri em 1994. Raymond Carver. Não há espaço pra falar sobre ele aqui, mas é possível encontrar traduções de algumas de suas obras em nossas livrarias. O título do poema, escrito em estilo livre e moderno, é Limonada, na tradução para o portugês, pelo menos. O argumento por trás do título é bem interessante, a limonada é um nada num mundo de contingências. Vale a pena ler.

Por volta das oito da amanhã, saímos para o passeio de domingo. Quando chegamos, o sol iluminava toda a extensão à nossa frente. A minha mulher pegou o nosso garotinho pelo braço e foi logo mostrar o lago. A superfície da água estava plana como um espelho, e refletia o firmamento e suas nuvens. Imenso. O menino alargou o olhar e deteve-se diante da visão da lâmina d´água que perdia-se no horizonte.

- Mamãe! - gritou e agarrou-se ao pescoço dela. Ela o abraçou e conteve de imediato o seu temor.

Embora o resguardasse dos perigos, e temesse por ele em todos os minutos de sua vida, jamais imaginaria que, dentro em pouco, o filho amado estaria sob aquelas águas profundas, bem como jamais também desconfiar de que o corpo dele jamais seria encontrado.

Às vezes, embora não seja comum, a gente conta uma história assim, já revelando o final. Como um sujeito que chega ao médico e vai mostrando de cara a perna quebrada, e só depois vai dizer como aconteceu. O poema de Carver anuncia, em suas primeiras linhas, uma tragédia e o desfecho, mas nem por isso subtraindo do leitor a vontade de continuar. Começa assim:

"Quando ele veio à minha casa meses atrás para
 medir as paredes para fazer estantes de livros,
Jim Sears não parecia um homem que ia perder
seu único filho nas águas agitadas do rio Elwha."

De volta ao nosso texto, digo que aquele era, e ainda é, um lugar muito bonito. Jamais voltei a vê-lo,infelizmente. Água, areia, bares, comida, sol, jogos, crianças, famílias e diversão. E dava sempre muita gente. 

No início da manhã, antes das dez, foram chegando os casais e suas crianças. Um monte delas, menores e grandes, numa imensa algazarra. E já se via gente nadando pra lá e pra cá, gritos e pedidos de "cuidado!". As mamães chamando pelos seus, os homens sentados em cadeiras reclináveis, tomando cerveja em lata ou lendo um jornal, enquanto rapazes mais crescidos e afoitos pulavam de uma local mais elevado e atirando-se como flechas, suas cabeças trespassando o ar, e as mocinhas olhando e rindo daquelas façanhas. 

Uma outra mamãe aproximou-se da minha mulher. Era jovem também. Conheceram-se ali, naquele mesmo dia. A outra tinha duas filhinhas, gêmeas loirinhas e gorduchas e mais novas que o nosso. Ficaram juntas patrulhando o lago, cada uma observando atentamente as suas crias e ajudando-se mutuamente. Travou-se ali aquela empatia entre duas mães zelosas e joviais. Pareciam ter a mesma idade. A depender do movimento das crianças, elas moviam-se pra lá e pra cá, abanavam as mãos, gritavam pedindo "cuidado!" e  erguiam-se num esforço visível  e esticavam o corpo e pescoço para poderem enxergar melhor a suas crias. Era um vai-e-vem de ambas, pra lá e prá, a depender de para que lado as três crianças se deslocavam na beira do lago. 

Pouco mais de duas horas depois da nossa chegada, o vento começou a soprar muito forte. Mas foi sem aviso algum. As nuvens chegaram muita rapidamente e encobriram o sol, e logo a chuva desabou, como se fosse um imenso balde virado pra baixo e derramando toda a água do mundo sobre aquele lugar.

Todos correram para atender aos pedidos de socorro.

Mas pouco ou nada dava para se ver.  A chuva desabava do céu como numa cachoeira, formando uma cortina grossa e densa. O ruído encobria os apelos, enquanto as crianças corriam sem rumo e eram logo recolhidas para longe da água o mais possível. Choveu por horas e sem descanso. Quando se encontravam, ficavam os pais agarrados aos seus filhos, buscando abrigos em barracas e bares próximos. E assim a intensidade da tempestade foi diminuindo. Era fácil agora identificar quem havia encontrado os seus. Bastava um rápido olhar para o lado para saber. E, aos poucos, as famílias novamente reunidas foram indo embora. Ficaram alguns.

Depois vieram a polícia, os bombeiros, os equipamentos. E os curiosos. Já havia passado bastante do meio-dia. Havia nuvens amareladas mais para onde o sol se põe. 

Quanto tempo levaria? Olhando aquela imensidão, não havia respostas. O céu abriu, mas pouca luz. O lago, visto de onde estávamos, era  novamente largo, imponente, comprido, imenso. Nenhuma rajada de vento. E a noite já apontava próxima e fria.
.
E o poema de Raymond Carver termina:

"E ele
lembra a doçura, quando a vida era doce e
docemente lhe foi dada aquela outra vida." 

Marco Antonio

QUEM MATA OS CÃES?


Ela dobrou a esquina e seguiu em direção à mercearia. Levava uma sacola plástica para comprar produtos de cozinha, pouca coisa, apenas o suficiente para fazer o almoço do dia. Era ainda cedo, umas oito e quinze da manhã, e o sol estava frio naqueles dias de inverno. Veio um vento de frente e ela segurou a barra da saia e foi andando de um jeito meio esquisito, uma das mãos à altura dos joelhos, para manter a barra da saia abaixada. 

Foi quando deparou-se com um cão atravessado na calçada. Ela deu um pulo para o lado, evitando pisar no animal morto. Ele tinha os olhos e as mandíbulas abertas, mostrava os caninos. Na cabeça, uma marca de sangue seco no pelo, e o que parecia ser um ferimento provocado pelo impacto de algo pesado. Provavelmente tratava-se de um animal de rua, vítima de ataque no meio da noite, coisa que vinha acontecendo com frequência de uns dias pra cá. Ninguém reclamaria por ele, por certo.

Ela seguiu e, cinquenta metros à frente, entrou na mercearia. Estava vazia de clientes, apenas o proprietário arrumando a prateleira de produtos de higiene. Deu um bom-dia e recebeu um sorriso de volta. Pegou uma lata de molho de tomate, uma outra de ervilhas, uma garrafinha de vinagre, um pacotinho disso e outro daquilo, e foi em direção ao balcão de folhas verdes. Tendo comprado tudo o que desejava, dirigiu-se ao caixa. O proprietário foi atendê-la e deu-lhe um sorriso, limpando as mãos uma na outra. Ela falou sobre o cão morto, perguntou se ele havia visto.

"Não" - ele disse - "Mas tem acontecido de matarem cães de um tempo pra cá."

"E  ninguém descobre quem está fazendo isso?" - ela pegou o dinheiro na bolsa, pagou, e recebeu o troco.

"Tem gente que imita. Podem ser vários, gente louca que mata cães, grupos de malucos. Tem gente assim. Pode ser coisa da internet, gente maluca e desocupada da internet que se junta pra matar cães." - ele olhou pra ela após dizer essas palavras, e mirou-a fixamente, até deixá-la desconcertada. Então pegou o dinheiro e pôs na gaveta, fechou a caixa-registradora com uma chave pequena, fez a volta em torno do balcão e foi saindo. Ela o acompanhou.

O dono da mercearia tomou a dianteira. Ela o seguiu e, de longe, o viu parar ao lado do animal e se abaixar por uns segundos e depois ficar novamente ereto, permanecendo ali por pouco tempo. Quando passaram um pelo outro, ele já de volta, o dono da mercearia a olhou fixamente mais uma vez, e prometeu ligar para o pessoal da prefeitura, mas afirmando não ter lembranças de ter visto aquele cão pelas redondezas.

Ela caminhou sem interrupção até chegar à sua residência. Não sem antes passar por um outro cão morto e, ao lado dele, ajoelhada, uma velha senhora chorando. Não parou, fez como se não tivesse visto. Apressou o passo. Chegou em casa com a respiração ofegante. Colocou a sacola de  compras na mesa da cozinha e deitou-se no sofá da sala.

Quando a respiração acalmou, já havia caído no sono.


* * *

Lá pelas doze e meia, o marido chegou do trabalho e a encontrou dormindo no sofá. Ela não havia feito o almoço e nem nada, e a casa estava do mesmo jeito de quando ele havia saído para trabalhar.

Quando ela abriu os olhos, desorientada ainda, sonolenta, ele a esbofeteou. Ele o fez mais uma vez, quando ela tentou levantar do sofá. Tudo muito rápido. Não deu pra pensar e nem para entender nada, só colocar instintivamente os braços como proteção. A mulher cambaleou depois de chocar-se e bater a cabeça contra a parede, tentando em vão correr dali, enquanto o sangue escorria-lhe, um fio saindo do canto da boca.

Então ele aproximou-se dela, mais violento e rápido, decidido, o punho fechado, e a esmurrou mais vezes, batendo forte e sem parar. Em seguida, afastando-se menos que um passo, tomou uma pequena distância e chutou-lhe a barriga. Ela finalmente desmoronou de dor. Ele deu-lhe um chute na cabeça. E a pancada fez um som surdo. Ela tomou uma lufada repentina de ar, emitiu um ruído estranho e jogou sangue pra fora, muito sangue. O peito arfava, indo e voltando, indo e voltando.

A mulher tentou puxar ar, fez um ruído forte, e parou de vez.

Então ele saiu. Entrou no carro que estava estacionado em frente da casa. Mas não deu partida na ignição. Ficou parado, as mãos ainda manchadas de sangue e repousadas sobre o volante, como que esperando alguém chegar, ou sei lá o quê na cabeça dele, as pernas inertes, os braços quietos, o sol entrando pelo pára-brisas. E ficou ali. Era bom, morno, pois lá fora estava frio. E dava para olhar serenamente as nuvens de chuva se aproximando.

Marco Antonio.

DREAMS


Estreou no Brasil o novo filme de Ted Kholman. Dreams (2016). Com um elenco praticamente desconhecido, com a aparente exceção da excelente Amy Adams (do filme A Chegada), esta produção canadense de médio custo marca a volta de Kholman após quase uma década longe das telas. 

Ambientado numa pequena cidade do interior, o filme começa mostrando a vida pacata de Mary (interpretada por Amy Adams), uma mulher de uns 40 anos casada com um professor do ensino médio e grávida de 7 meses do seu terceiro filho. As imagens se alternam em preto e branco e em cores. Aos poucos, vamos compreendendo a trama e a sua relação com o uso de imagens coloridas ou em P&B. A realidade, em preto e branco. Os sonhos, em um colorido quase sobrenatural. 

Quando o espectador já consegue interpretar corretamente este artifício de cores e sua ausência nas cenas de sonho e vigília, somos apresentados a uma passagem, obviamente um sonho, em que Mary está numa cidade grande, solteira, sem filhos, ainda na faixa dos vinte e poucos anos e trabalhando numa lanchonete, onde ela conhece Philip (interpretado por um dos atores desconhecidos do elenco), um belo jovem estudante de negócios e finanças em uma prestigiosa universidade.

As cores estouram diante dos nossos olhos, mais e mais intensas a cada segundo, tornando-se irreais quando Philip a convida para um jantar. Kholman utiliza filtros, beirando ao psicodélico, para dar maior percepção de irrealidade quando ambos  estão num muito refinado restaurante, decorado em estilo do século XIX, para o qual o rapaz  a leva.  Em seguida, uma breve cena de amor no pequeno apartamento onde ela mora, mas já em preto e branco, não o colorido intenso dos sonhos.

Daí em diante, temos a vida de Mary casada com Philip, um jovem rico e promissor. Passagens com os filhos, a linda casa onde moram, as festas, o grupo de amigos, ilustrando a ideia de um mundo de riqueza, conforto, luxo e felicidade, na ausência completa de cores. Ou seja, a realidade. A ideia da realidade sem cor não é nova e já foi experimentada por vários cineastas, e parece ser mais convincente, alegam alguns, do que quando em cores. 

Chegamos a nos acostumar com tal mundo onde as diferenças se dão apenas no contraste entre mais claro e mais escuro, nas gradações do cinza em combinação com o negro e o branco. Mesmo porque torcemos pela boa vida da protagonista. Por que estragá-la? Contudo, como em outros filmes de Kholman, temos um salto, uma virada. Mary, já uma mulher de quarenta anos, toma chá com uma amiga.

 - Eu queria que a minha vida tivesse mais cores - diz a amiga, uma grã-fina da roda de ricos que frequenta. 

A câmera mostra a expressão de Mary e, neste momento em particular, enche a tela com o belo rosto de Amy Adams, em preto e branco, um pequeno sorriso em seus lábios, a dizer que ama sua vida, os filhos, a estabilidade, o esposo e tudo que ele a proporciona. 

- Desde quando o conheci, minha vida parece um lindo sonho - ela diz. 

Em seguida, sem aviso, as cores estouram diante dos nossos olhos, já desacostumados, quando o celular dela toca e é avisada de que o marido havia sofrido um infarto.  Kholman, um mestre no uso da câmera, mostra a agitação das ruas intensamente coloridas, sons de buzinas, a protagonista dentro de um táxi, a tensão e as lágrimas em seu rosto (Amy Adams, numa atuação primorosa, consegue passar aquela mesma tensão das expressões sutis do filme A Chegada). Lá fora, na avenida larga, as placas e seus letreiros luminosos chamativos das lojas. 

Ao chegar ao hospital, corredores em cinza, o branco dos médicos, as paredes alvas, não há cor alguma. O melhor amigo do esposo se aproxima. Entretanto, tal personagem é alguem mostrado apenas no início do filme, num pequeno jantar, quando Mary está grávida e traz à mesa  uma tigela de macarronada, a barriga imensa da gravidez do terceiro filho. Mary é logo avisada por uma médica sobre o marido dela estar fora de perigo, pois havia sido apenas um mal-estar repentino.

Enquanto a médica a tranquiliza numa voz muito doce a chamar a nossa atenção, a câmera enquadra o rosto da protagonista enchendo a tela. Mary parece destruída, sem vida, sua expressão é de total desapontamento. O olhar não mira a câmera, desvia-se para o lado, como se não pretendesse ouvir explicação alguma, sua vontade é a de não estar ali naquele mundo onde não Philip. O som doce da voz da médica torna-se aos poucos inaudível, muito tênue e sem resolução, permanecendo apenas a imagem nítida e em preto e branco do rosto de Amy Adams na cena final. E termina. 

Antes dos créditos, lê-se a dedicatória de Ted Kholman à sua querida esposa recentemente falecida. 

Eu indico.



Marco Antonio.

PERMANÊNCIA


"Você nunca está só"  - Hubmann.


Pediu uma bebida e recostou-se em um balcão recuado. Minutos depois, ela chegou. Ela e mais três amigas. Chamou-lhe a atenção o azul do vestido e o verde dos olhos. Das quatro moças, somente ela sorria; e, mesmo sob o som alto da música que tocava bem ritmada, dava para ouvir a risada aberta e ampla que dela vinha. Passado um quarto de hora, ela não parecia tê-lo notado de modo algum, mesmo quando seus olhos abarcavam o balcão onde ele se debruçara.

Depois foram só pensamentos.

Começou quando ele, ao entrar numa livraria, pegou um livro e mirou a capa, o título e o nome do autor. Em seguida, abriu-o numa página interna e, ainda no primeiro parágrafo, imaginou o que ela pensaria sobre o que estava escrito ali na folha aberta. Após o que, comprou o volume e o leu lentamente, intercalando frases e pensamentos, um processo vagaroso e constante de breves leituras e longas paradas. Não aquele pensamento reflexivo sobre o que se lê, ou a refutação da ideia exposta ou ainda a busca de alguma correlação com a realidade e com outras obras lidas. Um diálogo, não com o autor, mas com um segundo leitor imaginário a ler em paralelo as mesmas palavras, seguindo a mesma marcação das vírgulas e o ritmo das frases, uma após a outra, páginas após páginas, até o final. No fim de tudo, a certeza de que ambos haviam lido e comentado aquele livro singular.

Mas não parando por aí. Também muitos outros, por meses, uma variedade de autores, músicas, compositores, obras de arte, experiências as mais diversas, desde as meramente intuitivas e espirituais, indo até os desdobramentos de natureza religiosa, passando pelas percepções visuais, por um cabedal de viagens, amizades, relações pessoais e amorosas, sentimentos os mais diversos, sonhos, mentiras, frustrações e insucessos, alegrias e os pequenos momentos doces de vida.

Não foi sobrando sequer um pequeno espaço onde houvesse somente ele e sua alma única neste mundo. Nada daquele isolamento próprio que recai sobre cada um de nós desde o nascimento. Nem resquícios da solidão particular à todo ser humano jogado no seio da Criação. Ao seu lado, sempre presente aquela mulher de azul, olhos verdes e sorriso largo. Sempre acompanhado, antes mesmo do raiar do dia, desde o sono mais profundo e confuso das noites pesadas; desde a manhã do dia anterior;  desde muitos dias anteriores.

Estava à beira de, por nunca estar a sós consigo, isolar-se de tudo o mais.

Até o dia em que a viu novamente e de verdade. Foi quando virou o rosto na rua movimentada. O sinal lá adiante fechou -  e lá estava ela atravessando sozinha a larga avenida na faixa de pedestres, somente ela, como naqueles filmes em que se pretende marcar e alongar uma breve cena.

O momento transcorreu em câmera lenta -  pesado em seu ritmo, longo e denso em sua duração. O vento forte batia no vestido solto, não o azul da festa, mas um de várias cores alegres e misturadas em desenhos geométricos. Soprava em curtas rajadas nos cabelos negros pesados à altura dos ombros. Por detrás da cena, uma fila de carros alinhados na faixa, todos parados, um ao lado do outro, os faróis acesos, luzes intensas, os motores em baixa rotação fazendo aquele zumbido grave e constante de potência contida, e os motoristas paralisados ao volante na longa espera, enquanto ela passava, tendo para isso todo tempo que restasse neste mundo.

Quando já perto do outro lado rua, ela virou o rosto para ele;  e o mirou por um instante breve e limitado, mostrando que o  reconhecia, desejando que a visse. E, pela primeira vez, ele pode ter para si o belo sorriso a ele dirigido, agora a sua alma  liberta.

Marco Antonio.

TERRA PRIMATA ESTRÉIA NO NETFLIX



Chegou ao Netflix o filme Terra Primata (1974), a única obra de ficção científica do diretor Ted Kholman, o mesmo do famoso Canção do Oeste. A história se passa ali mesmo, no ano em que o filme foi rodado, quando a humanidade faz seu primeiro contato com uma espécie alienígena. Eles, os extraterrestres, chegam numa nave gigantesca e de formato estranho. Não são humanóides. E Ted Kholman não os mostra em momento algum. Os visitantes permanecem no interior da nave a orbitar o planeta, e tentam se comunicar através de sinais de rádio. As tentativas são em grande parte frustrantes, dada a dificuldade de se conseguir decifrar as mensagens enviadas por uma civilização totalmente distinta da nossa, apesar do enorme esforço da comunidade científica mundial em decodificar os sinais.
Mas o enredo não fica só nisso. Um pouco antes da chegada dos extraterrestres, o mundo já havia entrado numa crise econômica sem precedentes, ruína do sistema financeiro, crash das bolsas, queda brutal do consumo, desemprego, colapso da indústria, desabastecimento, saques, fome, caos.
Não podemos esquecer que, em 1974, a União Soviética ainda existia. Os russos posicionam tropas e tanques na fronteira com a Alemanha, com o argumento de que precisam proteger sua esfera de influência de uma eventual invasão daqueles que fogem da fome no Ocidente. Em resposta, a OTAN coloca suas bases de mísseis em estado de alerta máximo.

A chegada dos alienígenas acrescenta mais instabilidade ao cenário. Não se pode descartar a possibilidade de invasão. Mas, por outro lado, acima da atmosfera, a nave gigantesca permanece pacificamente enviando continuamente sinais, apenas sinais que nos são obscuros e incompreensíveis, quase beirando o ruído.

A personagem principal é interpretada por Caroline Peterson, a musa dos filmes de Kholman. Assim como em Canção do Oeste, ela é uma dona de casa, e assiste a tudo pela TV, não ousando sair. Lá fora é caos e violência. O marido saiu para tentar comprar mantimentos e ainda não voltou. E nem voltará. Kholman faz várias tomadas em "close" do belo rosto de Peterson, seus olhos e cabelos negros. As cenas externas de convulsão nas ruas são magistrais. Tem aquela famosa de uma mulher sendo violentada num supermercado, as prateleiras totalmente vazias.
O filme vai se tornando, passo a passo, cada vez mais estreito em sua narrativa, e minimalista na forma. Se, no início, se desenrola amplo com a chegada de uma imensa nave interestelar em meio a um caos global de proporções bíblicas, vai aos poucos descendo para os detalhes e dramas pessoais.

Os últimos 20 minutos são de tomadas internas no interior da casa de Samantha (Caroline Peterson). O foco está nela e em seu filhinho de 3 anos, ambos diante da TV à espera do marido que não voltará. A TV alterna imagens da nave, fotografias tiradas de telescópios e satélites, declarações de autoridades civis e comandantes militares, apelos de líderes religiosos, multidões em fuga, choques brutais e sangrentos entre forças da ordem e a turba nas ruas.
Em determinado momento, a TV perde o sinal, só chuvisco. E permanece ligada por um tempo, só mostrando chuviscos, mãe e filho diante dela, na esperança de que volte a transmitir notícias sobre o mundo lá fora. Em seguida, falta energia. Na escuridão, a criança começa a chorar, também de fome e medo. Samantha cantarola uma canção de ninar. Ela vai até a janela, na tentativa de mostrar a nave para seu filho.

E o filme termina nesse ponto exato, a câmera mostrando o céu negro, vazio, e sem estrelas; e, em seguida, mudando para o belo rosto de Caroline Peterson, em uma de suas melhores interpretações, só perdendo para o papel na pele de uma personagem de mesmo nome em Canção do Oeste.
Em Canção do Oeste, Kholman faz as duas ou três muito conhecidas reviravoltas na trama, uma técnica de narrativa integrante dos melhores manuais de cinema. Já aqui, em Terra Primata, temos um contínuo estreitamento do foco de visão. Há quem diga ser uma metáfora sobre o que de fato interessa ao ser humano - o indivíduo lutando pela sua vida, a rotina doméstica, mesmo que lá fora o mundo seja uma confusão total; mesmo que, um pouco acima, uma civilização avançada, um viajante interestelar, esteja tentando nos dizer algo e talvez no tirar do pó.
Eu indico.

Marco Antonio.

NOITES BRANCAS



No dia seguinte, ela procurou-me e disse que iria embora e não voltaria mais. No sábado, pegou as roupas e se foi. Desapareceu. Eu também não fiquei naquele lugar. Mudei-me, em seguida. E a vida tomou um rumo diferente. No entanto, por mais que o tempo fosse lavando a estrada que fica para trás e jogando lembranças no esquecimento, ela não cessava de aparecer nos meus sonhos.

Noite após noite, meses sem fim - não falava, nada dizia, apenas sua imagem, como uma cena gravada sem áudio. Sempre a mesma coisa, o vestido florido, ela dando voltas, rodando e sorrindo, até cair sobre a grama verde sob um imenso céu azul e iluminado até onde ia o horizonte. Não havia o que eu fizesse para afugentá-la, nem bebidas, remédios, nem mesmo o trabalho extenuante. Até que, num dia qualquer, já acostumado com o irremediável, o sonho se foi de todo, e nunca mais voltou. E, com ele, qualquer outro.

Vieram as noites brancas, vazias, o sono como uma ausência completa deste mundo. Tentei até mesmo mentalizar a imagem dela, na esperança de voltar a sonhar, mas sem sucesso.

Hoje, moro em frente para o mar. Na maré alta, as ondas são fortes, pesadas, violentas; batem nas pedras e os respingos se elevam metros acima. É um lugar muito bom, eu acho, há uma vizinhança espaçada e discreta, as pessoas caminham diariamente na areia da praia e não incomodam. Há cães também. Eles correm de um lado para o outro, pulam, latem e nadam.  Eu os observo da minha varanda, conheço até seus nomes

Nas noites sem nuvens, as estrelas preenchem completamente o céu, um mar de estrelas; e é fácil identificar constelações, se você tem algum conhecimento sobre tais coisas. Nas minhas noites, sem sonho algum, acordo em horários espaçados, e fico ouvindo o som das ondas na praia, olhando enxames de estrelas, até elas começarem a esmaecer sob o sol, e adormeço ali, sentado na varanda.

Ontem, no meio da noite, acordado, ouvi o som de uma voz. Era ela dizendo que voltaria. Não  teria como me enganar, apesar do tempo que já se passara desde aquele dia. Quando ouvi, a minha mente logo a identificou. Não poderia ser a de outra pessoa. Era ela. Era a voz dela.

Pela manhã, na cidade próxima, fui ao supermercado e comprei suprimentos de cozinha, além de vinho e cerveja. No final da tarde, preparei um jantar, e aguardo ainda a hora de servi-lo. Coloquei na varanda duas cadeiras em frente para a praia. Ouço o som das ondas esmagando-se contras as pedras. Mas já são quase onze horas.

Sei que ninguém virá. Ora, eu sei.

Qualquer pessoa racional, e com o mínimo de juízo, sabe que a voz da noite anterior fora fruto da imaginação e de certas coisas que o cérebro faz por si só, uma máquina independente da vontade, uma parte do corpo dada a produzir sensações, visões, sons, esperanças, a reprisar memórias, como se fosse uma outra pessoa ocupando uma parte de nós. É assim que somos.

Há pouco, de repente, aparentemente do nada, veio-me uma lembrança da mocidade, algo do qual não lembrava mais, de quando a vi pela primeira vez, de quando vi pela primeira vez os seus olhos verdes, o sorriso aberto, os cabelos loiros brilhando ao sol. Ela usava um vestido azul claro e curto, as unhas estavam pintas de vermelho. Como se nunca tivesse saído da memória - no pulso direito, ela usava uma pulseira de plástico cor-de-rosa com detalhes em dourado.

Marco Antonio.

EU AMO VOCÊ, JULIANA.



O taxista deu a volta em torno do carro e abriu a porta do passageiro. De dentro saiu uma mulher carregando uma criança grande nos braços. Ela dizia, repetidamente, que o marido viria logo e pagaria a corrida, enquanto o taxista a ajudava a carregar a criança para dentro da clínica. Havia sangue escorrendo e ficou uma trilha vermelha no chão. Ao voltar, o taxista olhou para dentro do veículo e balançou a cabeça. Teria que lavar tudo aquilo. Fechou a porta do passageiro, limpou as mãos numa flanela que pegou lá dentro, ajeitou o boné, cruzou os braços, deu a volta e entrou pelo outro lado. Estacionou o táxi embaixo de uma árvore e esperou.

Vinte minutos depois, o pai chegou. Estacionou o carro meio atravessado e entrou correndo na clínica. Nessa correria, errou a porta, deu meia-volta e acertou o lugar. Retornou com passos lentos e recurvado. Tinha um ar meio perdido, enquanto tentava localizar o táxi. O taxista colocou o braço pra fora e acenou. O pai tirou uma cédula de cem reais da carteira e disse que ficasse com o troco. O taxista agradeceu e não quis perguntar nada, ligou o motor e saiu. O pai deu a volta, sentou-se num banco de ferro sob uma árvore imensa e começou a chorar.

Era um fim de de tarde e o céu ainda estava claro e muito azul. O vento arrancava flores das árvores e o piso do estacionamento estava cheio delas. Eram flores amarelas, flores daquela época. Aquelas flores vinham de ano em ano, em todos os anos, um espetáculo bonito, as pétalas sendo carregas pelo vento e forrando o chão. Mas o pai estava com os olhos voltados para baixo e só fazia passar uma das mãos na cabeça, indo da testa e descendo até o pescoço. 

Ele ficou repetindo esse gesto, parecia um robô fazendo a mesma coisa, programado pra passar a mão direita nos cabelos.

Mas algo o fez parar. Do outro lado da rua, um grupo de mocinhas vestidas com uniforme escolar passou cantarolando e rindo - riam muito e alto, e seus sorrisos e brincadeiras, umas com as outras, preencheram o espaço. Ele levantou o olhar e ficou ouvindo a algazarra que elas faziam.

Nisso, veio de lá um médico. Muito alto e jovem, jaleco branco. Por baixo do jaleco, usava uma gravata vermelha sobre uma camisa azul. Ele aproximou-se do pai, sentou-se ao lado,  no mesmo banco de ferro pintado de branco. Falou qualquer coisa pra começar, deu uma explicação rápida e simples e silenciou. Ficou ali por uns minutos, e começou a prestar atenção na algazarra e nas brincadeiras das meninas voltando da escola. Quando elas já estavam longe,  o médico levantou-se. Nesse tempo, o pai não olhou para ele, não teve coragem, nem disse uma palavra sequer. Só repetia o gesto automático de passar as mão nos cabelos, sempre começando pela testa e indo até a parte de trás do pescoço.

Uma enfermeira aproximou-se trazendo um copo d´água. Ele não notou a presença dela de imediato, deixando-a, sem querer, parada com um copo plástico na mão e sem dizer nada. Uma flor caiu em sua cabeça e ele levantou a vista, limpou o rosto, deu um sorriso e estendeu a mão para pegar o copo. Uma outra flor pequena caiu, só que, dessa vez, dentro do copo. Ele a tirou com um dos dedos. Mas não bebeu nada, ficou apenas segurando o copo.

A enfermeira esperou um pouco e afastou-se, em seguida. Já estava no meio do imenso estacionamento, quando ouviu um ruído grave e que foi se tornando mais intenso a cada segundo. Vinha de cima, do alto, de trás do prédio da clínica, mais para o lado esquerdo. E foi ficando muito alto, como se estivesse ali ao lado deles. A enfermeira parou no meio do estacionamento e vasculhou o céu tentando encontrar a fonte daquele som potente. O pai levantou o rosto e limpou as lágrimas para enxergar melhor, e deixou o copo cair. A luz do céu intensamente iluminado o cegou por um instante. Mas logo pode enxergar bem e nitidamente, quando apareceu, por cima do prédio, um pequeno avião de duas cores, amarelo e laranja, contrastando com o azul do firmamento, e voando bem baixo, puxando atrás de si uma faixa ondulante onde se lia em letras vermelhas: EU AMO VOCÊ, JULIANA.

LUÍZA


Atympal trabalha, como chefe da contabilidade, na companhia de abastecimento de água e rede de esgotamento sanitário de Santa Marta. Tudo muito organizado e registrado em detalhes, as faturas emitidas rigorosamente na data, sem erros, sem inadimplência, vez ou outra um atraso no pagamento, por conta de um esquecimento qualquer, coisa tão fácil de resolver.

A água da cidade, desde sempre, é retirada do subsolo, de um aqüífero profundo e de grande extensão, sugada por bombas enormes e possantes. Exceto, quando por algum problema de vazamento numa tubulação, há a rara interrupção temporária do fluxo. Afinal, é o orgulho do lugar. Água mineral e limpa, com os teores certos de sais minerais, é o que atestam os estudos de laboratório. Água limpa - e uma vida limpa -, é o que todos esperam de um bom lugar para se morar, criar os filhos e envelhecer com tranqüilidade.

No final de cada mês, fechada a contabilidade mensal, os livros e relatórios devem ser enviados para o lugar certo. Tudo no prazo, com exatidão e eficiência. Atympal não sabe dizer para qual lugar vão a papelada e o dinheiro. Não há motivos aparentes para se preocupar com isso – é o argumento convincente -, pois a água jorra permanentemente, as faturas e os salários são pagos, enfim, o que importa para a companhia e seus empregados.

Contudo, apenas para si, indaga sobre a existência de algum lugar fora de Santa Marta, "algum lugar, sabe lá Deus, além do deserto e das montanhas". Imagina pessoas que ele não conhece a analisar o seu trabalho e a conferir os balanços. Mesmo porque, embora pouco se comente a esse respeito, fica evidente a impossibilidade de se produzir em Santa Marta tudo que nela se consome - enlatados, medicamentos, filmes, carros, roupas de malha e perfumes.

Mas se os balanços e o dinheiro vão para algum lugar – ele conclui -, secretamente a cidade é abastecida. Por outro lado, se tudo corre normalmente e o sistema nunca falhou; se a vida é tranqüila e dócil com todos, por que insistir em saber mais do que é dado a saber?

Em sendo assim, Atympal desempenha bem o seu papel como chefe da contabilidade, mantendo seus subordinados ocupados em registrar, organizar e conferir, mesmo sabendo que eles podem fazer o mesmo tipo secreto de indagação sobre a realidade. Por sua vez, os seus superiores o mantém alheio e protegido dos demais detalhes e aborrecimentos sobre o completo funcionamento da empresa. O funcionamento da companhia de água e esgoto é o reflexo do restante da vida em Santa Marta, da sorveteria à loja de cosméticos.

Em seu círculo de relacionamentos, apenas Luiza, sua esposa, exterioriza o ponto de interrogação para a existência. Ela vive a perguntar sobre isso e sobre aquilo, até mesmo irrelevâncias de como e onde são feitos os filmes. E ele, como bom burocrata da companhia de abastecimento de águas, procura mantê-la longe dos desvarios, do vício do inconformismo e dos perigos do pensamento sem freios, de forma semelhante ao método rigoroso utilizado para manter seu departamento contábil em ordem.

No hobby da pintura, sempre uma tela nova a terminar, Luiza expressa sua interrogação sobre o mundo. Ela não trabalha fora e tem tempo de sobra. Como não tem filhos, dedica-se a pintar quadros, dia após dia. Os temas se repetem – o deserto, as montanhas, paisagens verdes de campos e florestas além das montanhas e do deserto, oceanos, vilas longínquas, cidades enormes, avenidas compridas e largas repletas de carros, edificações grandiosas em praças iluminadas por luzes intensas penduradas em postes muito altos, pessoas reunidas em eventos esportivos com animais nunca vistos, fábricas a produzir filmes em máquinas estranhas, multidões em conflito e pessoas sorridentes em balões sobrevoando Santa Marta – tudo isso encarado por todos como fruto da imaginação fértil de artista amador, aceitável apenas como passatempo de uma dona de casa ociosa.

Atympal a conhece bem e a protege. Estão juntos desde a escola primária. Naquela época, já distante, mas ainda presente na lembrança de ambos, foi ele quem desviou o olhar de Luiza de um imenso balão prateado que tão logo sumiu no horizonte.

Marco Antonio.