28.10.13

A VIAGEM




Pegamos nossas coisas, pouca coisa, tudo de última hora, jogamos no porta-malas do carro e ganhamos a estrada. Ainda era cedo, muito sol no rosto, um dia bom pra viajar. Ligamos o som do carro e sorrimos felizes. Ela dizia que seria nosso melhor final de semana em anos. Eu estava acreditando no que ela dizia, tal era a expressão em seu rosto - o sorriso aberto e franco, iluminado pelos olhos azuis muito claros. Tinha uma pele branca, e as bochechas estavam muito rosadas, parecendo uma pintura. Tocava uma coisa qualquer de uma banda inglesa, e o carro ia bem. Estrada vazia e reta até onde se poderia ver no horizonte. E fomos assim, até o final da tarde.

Atravessamos uma ponte sobre um rio muito largo, caudaloso, imenso. E o fizemos em baixa velocidade, enquanto admirávamos a bela paisagem, o rio abaixo, a correnteza e sua força esmagando-se contra as rochas.

Paramos na primeira cidade que encontramos e procuramos uma pousada. Nos hospedamos com facilidade, mas lá não servia janta. Fomos até uma pequena pizzaria. Dali podíamos observar as pessoas divertindo-se no que parecia ser a praça principal. Dominando o cenário, uma Igreja Matriz, alta e branca. À frente dela, crianças corriam de um lado para o outro. De dentro, vinha uma cantoria que nos chegava quase inaudível.

Pedimos pizza de uma mistura variada. Não tínhamos a menor pressa. A garçonete, muito jovem, disse que estavam no Mês de Maria e logo a missa acabaria e os fiéis lotariam a praça, mas não por muito tempo, quando ficaria praticamente deserta. Sempre assim, ela disse.

Apreciamos a comida. E ficamos por ali. E os casais, saindo da igreja, tomaram conta da praça e do seu belo jardim florido. As crianças para lá correram, pulando e gritando. Os adolescentes permaneceram numa zona própria, próxima a uma lanchonete, irradiando aquela fase da vida. Aquilo era bom e divertido de se assistir.

Pouco depois, a praça ficou vazia. A pizzaria fechou as portas, os bares também, e tivemos que ir embora, quando começou a cair uma chuva fina acompanhada de um vento forte e frio. E as nuvens cobriram as estrelas.

No dia seguinte, continuou chovendo. Choveu muito. Disseram que não poderíamos sair da cidade. Como não? - Rio, riachos, pontes, coisas assim. E ficamos, fomos ficando. Os dias chuvosos se prolongaram, passando de mais de uma semana. Não havia como sair dali, é o que eles diziam.

No quarto, quase sem poder sair, assistimos a uma boa variedade de séries de TV e suas reprises. Numa noite, já um pouco nervosos e apreensivos, quando a chuva deu um pouco de trégua, nos arriscamos caminhar até a praça da Matriz. Não havia um pé de gente nas ruas. A pizzaria estava fechada, os bares, o mesmo com a lanchonete dos adolescentes. Havia terminado o Mês de Maria, pelo que ficamos sabendo quando voltamos para a pousada. A chuva voltou. E durou o dia seguinte inteiro.

- O que está havendo aqui?! - minha mulher gritou para o gerente da pousada, numa dessas noites em que a chuva havia piorado. Ela desceu do jeito que estava, vestida para dormir. Gritou e gritou de novo. Ele tentou acalmá-la, trazendo um copo d´água, meio sem jeito. Perguntou se queríamos utilizar a sala de jogos. O coitado, diante da minha mulher, não sabia bem o que dizer. Obviamente que ela estava nervosa, muito nervosa. Seu rosto estava pálido, a voz trêmula. Afinal, seu passeio havia se transformado num pequeno pesadelo, trancada numa pousada do interior. Sem respostas, ela subiu as escadas, em prantos. Desculpei-me perante o gerente, ao que ele aceitou as desculpas gentilmente pagando um vinho.

No dia seguinte, finalmente, veio sol. E muitos novos hóspedes começaram a chegar. Todos aparentando disposição, parecendo conosco quando chegamos por lá, felizes, alegres, sorrisos abertos.

Pagamos e fomos.

Em alta velocidade, atravessamos a ponte imensa sobre o rio largo e caudaloso. À nossa frente,  todos os anos por vir.

Marco Antonio, 2013.

11.12.12

O LAGO DO DESAPONTAMENTO



Chegamos cedo. Abrimos portas e janelas, e retiramos os lençóis que cobriam os móveis. No final da tarde, tudo feito - casa varrida, banheiro lavado, malas desarrumadas, janelas e portas abertas -, da grande janela de nosso quarto no primeiro andar, contemplamos a imensa lâmina azul do lago, calma e iluminada, a se perder no horizonte.

Soprava um vento leve e frio, trazendo o cheiro das árvores próximas; e o cansaço fazia-nos deitar os olhos sobre a paisagem. Parecia outro mundo que não este.

No dia seguinte, nadamos um pouco e caminhamos sobre as pedras negras. Antes do meio-dia, já de volta e sentados na varanda, tomamos cerveja. Minha mulher preparou alguma coisa rápida e almoçamos, antes de ir deitar. A tarde passou.

Perto do anoitecer, os outros chegaram.

Hermes e sua mulher, Clara, saíram para um passeio sob o luar. Liguei o som. Dali, da varanda, dava pra ver os vultos do casal amigo às margens do lago. Eles pareciam brincar como duas crianças, um correndo do outro, um jogo infantil de corre-e-pega. A música tocava, indo embora, nem chegava perto deles, enquanto a minha mulher preparava o jantar.

- Eu tinha certeza de que iria colocar essa música, meu bem, quando viesse pra cá. - minha mulher veio me dizer, sorrindo, numa rápida saída da cozinha. -  É muito estranha, viu?. Mas, Deus do céu, até que combina bem com esse lugar. Eu não viveria aqui por muito tempo, sabia? Certo que é uma  boa casa. É o lago, meu bem, muita água.  Deus!, quanta água!. Incomoda ter algo tão grande por perto...

Ela Tinha um belo sorriso, cabelos negros e longos. Quase sempre parecia serena e doce. Nunca tivemos filhos. Ela não era dali, viera de longe, de uma região bem diferente. Mas dava-se bem com todos e conquistara especialmente a simpatia do casal que estávamos a hospedar naquele final de semana prolongado.

- Que coisa horrível! - disse Hermes sobre a música, em tom de galhofa, subindo as escadas que dava acesso à varanda. - Não temos nada mais alegre pra tocar, meu amigo? Algo pra dançar?

Clara o recriminou. O vestido molhado deixava ver as formas de seu corpo, mesmo ela passando rápido, quase correndo. Hermes pegou uma cerveja e sentou-se ao meu lado. Começou a bater as mão nas pernas, firme e quase festivo, acompanhando o ritmo da faixa seguinte que começara a tocar.

- Isso é bem melhor - disse ele. Hermes alegrou-se, tomando um gole, balançando o corpo ao som do saxofone. - Que lago, meu amigo... - falou, espichando-se na cadeira. E ficamos em silêncio, enquanto o ritmo da orquestra tomava o ambiente.


No outro dia, fomos os quatro ao lago. Clara deixava antever um corpo muito bonito desenhado sob o maiô vermelho. Minha mulher usava um de cor verde. Lá adiante,  depois de uma boa caminhada, começou a chover. Estávamos um pouco longe de casa. Foi uma coisa de uma hora pra outra, uma chuva torrencial, raios e trovões. Distraídos, não percebemos a formação de nuvens. Corremos para nos abrigar nas árvores que margeavam uma pequena faixa de praia. Aquilo parecia não ter fim. A chuva batia forte sobre a copa das árvores e na superfície do lago, produzindo um som constante, quebrado aqui e ali pelo bater dos trovões intensos. Clara começou a chorar. Tomada de pavor, ela revelou que, antes da viagem, havia pressentido algo e, por isso, preferiria ter ficado em seu apartamento na cidade.

 - Você sabe que eu não queria vir - disse para o marido, irritada.

Minha mulher cruzou os braços em volta do peito, apertando os seios. Hermes correu  para o lago e mergulhou. Clara gritou. Eu a segurei. Chamei por Hermes, mas o som da tempestade enchia o ar. Minha mulher permanecia do mesmo jeito, braços apertados contra o peito, tremendo de frio, enquanto eu segurava Clara, evitando que ela fosse para o lago. Aquilo durou um pouco, um ou dois minutos, e todos ficamos preocupados e apreensivos, sem nada poder fazer. Logo depois, lá estava ele, vindo em nossa direção, balançando o corpo, sorrindo, fazendo caretas e gestos infantis.

- Seu idiota - Clara gritou. Mas ele não ouviu o que ela disse, pois chovia muito forte ainda. Eu a soltei e abracei a minha mulher.

Quando começamos a voltar pra casa, após a chuva ter passado, o Sol ainda não havia aparecido de todo. O céu estava encoberto por nuvens de chumbo. Clara andava na frente. Hermes puxou conversa. Minha mulher soltou a minha mão e foi fazer companhia à amiga.

Tanto Clara quanto Hermes eram mais novos do que nós, uns sete anos. Foi aí que ele disse que estavam em processo de separação. Eu o olhei de relance e disse apenas que estava surpreso. E mantive o passo.

- Você a acha bonita, não é? Eu sei disso - ele sorriu. - Mas você não a conhece, viu? As pessoas nunca são como se apresentam - filosofou -, e Clara esconde muito mais do que o resto de nós. Pode acreditar em mim, meu amigo. Ela esconde.
- Você não pensa que está exagerando, Hermes? Pare de falar assim de sua mulher...
- Tente conhecê-la então. Faça isso... Estamos nos separando, ora essa! Depois você me diz o que achou, certo?

As duas começaram a correr, e ficamos bem pra trás. Quando chegamos à casa, elas já estavam de roupa trocada, sentadas na varanda, tomando alguma bebida forte. Passei, meio que correndo, para tomar um banho, e evitei olhar para Clara. Hermes pegou uma lata de cerveja e juntou-se às duas. Quando voltei, estranhei o fato de estarem os três a conversar alegremente sobre passos de dança. Hermes puxou a mulher pelo braço e começou a fazer uma demonstração sobre passos de bolero. Clara parecia estar bem, recuperada do susto, jogava seu corpo contra o do marido, ambos bastante sorridentes. Minha mulher entoava uma canção, batucando no braço da poltrona. Hermes olhou pra mim e sorriu, nem mais que num breve instante, e logo voltou-se para elas.


X X X



Dois anos depois, eu e Clara voltamos para a casa do lago, já casados. Ela estava com a barriga crescendo, de cinco meses. Dois anos sem ninguém havia deixado a casa com um aspecto de abandono, e não foi fácil limpar tudo aquilo, lavar o banheiro, varrer o chão, limpar a cozinha. O cheiro não era muito bom, mas Clara havia insistido muito para virmos, e estava disposta a limpar tudo e assumir seu lugar de direito. Não fizemos outra coisa durante três dias a não ser trabalhar para deixar o lugar com um aspecto aceitável. Clara tinha um jeito bem peculiar de fazer as coisas, cantando e balançando levemente o corpo, pra lá e pra cá. Era engraçado vê-la varrendo a casa daquele jeito alegre, com a barriga saliente.

Tudo feito, tudo limpo, numa tarde de sol, da grande janela do andar de cima, contemplamos o céu azul e claro sobre o lago, banhados por uma brisa constante e morna. E, de lá do andar de baixo vinha o som melodioso do segundo movimento da Nona Sinfonia de Philip Glass. Barcos a vela de cores as mais diferentes singravam a água pra lá e pra cá, como uma festa de brinquedos. Era Fim de Ano e todos pareciam alegres e esperançosos quanto ao futuro.

 A nossa casa ficava num elevado, do qual podia-se ver tudo lá embaixo, as outras casas, crianças brincando à beira d'água, mulheres jovens estendidas sobre toalhas coloridas, casais caminhando de mãos dadas, rapazes fazendo disputa de nado. Clara perguntou se  nosso filho, quando adulto e já casado, visitaria aquele lugar com a família, nossa nora e nossos netos. Claro que sim, respondi.

- Meus pais visitavam o lago nas férias escolares anuais, construíram e amaram esta casa. Deve ser passada para as gerações seguintes, assim como nós aqui neste momento. - eu disse pra ela.

Ela falou, bem baixinho, uma coisa que não deu pra entender. E afastou-se.

Como se num passe de mágica, interrompida a brisa, não havia mais barcos no lago, nem crianças correndo, nem casais enamorados, nem mulheres estendendo seus corpos brancos na areia escura. Nem o reflexo do sol na água. E as ondas batiam fortes nas pedras próximas. Do sul, uma nuvem escura trazia um vento frio e em rajadas fortes. Como num piscar, o céu estava encoberto, e veio a chuva, forte e estrondosa. Anoiteceu. E não estávamos mais lá.

Marco Antonio, Dezembro de 2012.

21.10.09

SANTA MARTA


Atympal trabalha na companhia de abastecimento de água e rede de esgoto de Santa Marta, como chefe da contabilidade. Tudo muito organizado, as faturas emitidas rigorosamente na data, sem erros, sem inadimplência, vez ou outra um atraso no pagamento, por conta de um esquecimento qualquer, coisa tão fácil de resolver.

A água da cidade, desde sempre, é retirada do subsolo, de um aqüífero profundo e imenso, sugada por bombas enormes e possantes. Exceto, quando por algum problema de vazamento numa tubulação, há a rara interrupção temporária do fluxo. Afinal, a água é o orgulho desse lugar. Água mineral e limpa, com os teores certos de sais minerais, é o que atestam os estudos de laboratório. Água limpa - uma cidade limpa e uma vida limpa -, é o que todos esperam de um bom lugar para se morar, criar os filhos e envelhecer com tranqüilidade.

No final de cada mês, fechada a contabilidade mensal, os livros, as faturas, duplicatas e relatórios devem ser enviados para o lugar certo. Tudo no prazo, com exatidão e eficiência. Atympal não sabe dizer para qual lugar vão a papelada e o dinheiro. Não há motivos aparentes para se preocupar com isso – pensa ele -, pois a água jorra permanentemente, e isso é tudo o que importa para a companhia e seus empregados.


Contudo, mesmo a contragosto, ele indaga secretamente sobre a existência de algum lugar fora de Santa Marta... "algum lugar, sabe lá Deus, além do deserto e das montanhas". Imagina pessoas que ele não conhece a analisar o seu trabalho e a conferir os balanços. Mesmo porque, embora pouco se comente a esse respeito, fica evidente a impossibilidade de se produzir em Santa Marta tudo que nela se consome - enlatados, medicamentos, filmes, roupas de malha e perfumes. Mas se os balanços e o dinheiro vão para algum lugar – ele conclui -, secretamente a cidade é abastecida. Por outro lado, se tudo corre normalmente e o sistema nunca falhou; se a vida é tranqüila e dócil com todos, por que insistir em saber mais do que é dado a saber?

Em sendo assim, Atympal desempenha bem o seu papel como chefe da contabilidade, mantendo seus subordinados ocupados apenas em registrar, organizar e conferir, mesmo sabendo que eles podem fazer o mesmo tipo secreto de indagação sobre a realidade. Por sua vez, os seus superiores o mantém alheio e protegido dos demais detalhes e aborrecimentos sobre o completo funcionamento da empresa. O funcionamento da companhia de água e esgoto é o reflexo do restante da vida em Santa Marta, da sorveteria à loja de cosméticos.

Em seu círculo de relacionamentos, apenas Luiza, sua esposa, exterioriza com o ponto de interrogação para a existência. Ela vive a perguntar sobre isso e sobre aquilo, até mesmo irrelevâncias de como e onde são feitos os filmes. E ele, como bom burocrata da companhia de água da cidade, procura mantê-la longe dos desvarios e do vício do inconformismo, de forma semelhante ao método utilizado para manter seu departamento contábil em ordem.

Não fosse o hobby da pintura - ele lamenta consigo-, seria impossível a convivência com a esposa. Ela não trabalha fora e tem tempo de sobra para sonhar. Como eles não têm filhos, ela dedica-se a pintar quadros, dia após dia. Os temas se repetem – o deserto, as montanhas, paisagens verdes além das montanhas e do deserto, vilas longínquas, outras formas de viver – tudo isso encarado por todos como fruto da imaginação fértil de artista amador, aceitável apenas como passatempo de uma dona de casa ociosa.

Ele a conhece bem e a protege. Estão juntos desde a escola primária. Naquela época, já distante, mas ainda presente na lembrança, foi ele quem desviou seu olhar de um imenso balão prateado que tão logo sumiu no horizonte.
Marco Antonio, 2009.

4.7.09

Eu Não Saberia Dizer ao Certo Como Tudo Começou.


Eu não saberia dizer ao certo como tudo começou. Já passava das três da tarde e fazia um calor desgraçado, o ar seco, o sol batia no rosto e eu tinha que apertar os olhos porque doía muito aquela luz intensa e abundante vinda do alto, da frente e dos lados. No verão, não é fácil viver por aqui. O sangue esquenta, a gente se irrita fácil, os nervos à flor da pele. Um calor desgraçado, de dia e de noite. E aí passa um carro, bem pertinho, raspando a minha roupa e buzinando alto. Um susto enorme. Acho que foi assim que aconteceu.
Quando dei conta, já estava no hospital. Quando acordei, horas depois, disseram que havia sofrido um pequeno derrame. Um braço estava meio largado e eu não lembrava de muita coisa. Lembro da minha mulher ali em pé, abatida, olhos vermelhos, aquele olhar assustado voltado para mim. Fiquei internado por uns dias, fazendo um monte de exames, disso e daquilo, e finalmente voltei para casa. Penso ainda que aquela buzina me deixou assim, e a vida não foi mais a mesma de antes.

Mas, antes disso, houve outra coisa. Devo contar. Foi quando abri aquele bilhete escrito com letra de homem. Ainda não entendo como em um mundo de computadores, e-mails, celulares e mensagens eletrônicas alguém ainda escreve bilhetes para a mulher de um outro homem. “A... Você vai ser minha hoje. Ás 3 horas. No mesmo lugar, ok?. P...”. Fosse uma mensagem de celular, tudo poderia ser diferente. Mas aquele bilhete teve de ser lido.
No mesmo lugar, ok?”. Eu pensei: - Não é a primeira vez. Eles têm um lugar, um lugar deles. Eu deixei o bilhete ali, fechado, do jeito que encontrei, na mesinha ao lado da cama. Deixei acontecer. Eu sabia que as coisas não andavam bem entre nós e não encontrei forças para impedir. “No mesmo lugar, ok?”. Ora, já havia acontecido e pronto. Se não fosse naquele dia, seria em outro. Aliás, já tinha acontecido antes, no mesmo lugar.

Fui para a rua e fiquei por ali, zanzando, sem saber para onde ir, imaginando qual seria “o mesmo lugar”. Foi quando aquele motorista fez o carro passar raspando em mim e buzinou o mais que pôde. Talvez eu estivesse no caminho dele, sei lá, talvez a culpa tenha sido minha. Em certas situações, nunca se sabe de quem é a culpa. O certo é que estou aqui, desse jeito, um braço largado.

Eu poderia ter evitado, bastando não sair de casa, ou ter tomado cuidado ao atravessar a rua, ou não abrir aquele bilhete. Ou talvez, bem antes, muito antes, ter evitado que a vida tivesse tomado o rumo que tomou. Mas não há com se prevenir do imprevisto. Não há como saber qual será a consequência de certas ações e de um gesto, de uma ou outra palavra que a gente fala para alguém. O médico argumentou sobre a minha má alimentação, o sedentarismo, o cigarro que não havia parado de todo. Nada é uma coisa só. Uma coisa junta com outra e você nem sabe por que veio parar onde está. Eu não saberia dizer como tudo começou.

Até então, não havíamos falado no assunto. Afinal, havia mais o que a pedir se eu perguntasse sobre o bilhete? Poderia ser o fim. Ela teria ido embora e eu ficaria sozinho, com um braço largado. Quem iria impedir aquele motorista de buzinar do modo como fez?

Então eu abordei de outra maneira, indagando sobre ela estar com um marido meio aleijado, sendo ela uma mulher ainda bonita, vistosa e atraente. A reação dela foi chorar. Num piscar de olhos, derramou a chorar como uma criança. E eu fiquei olhando, comovido, esperando ela poder falar. Depois eu disse a ela que deixasse pra lá aquela bobagem minha. Mas aí ela começou a falar e a se lamentar. Você sabe como é, quando se quer colocar um mundo inteiro acumulado para fora. A minha mulher começou a contar uma história comprida de infelicidade e de uma vida de desilusão. Conversa de mulher, é verdade... Uma história compridba, mesmo, cheia de detalhes, detalhes vindos de não sei lá de onde, de um passado distante, de um namoradinho do colégio, de quem gostava tanto, quando ainda era uma garota bem nova e cheia de sonhos bonitos. Se ela não contasse, eu não saberia nunca daquele mundo desconhecido que havia dentro dela, das decisões erradas, de ter me conhecido, da infelicidade de não termos um filho. Fiquei ali, parado e olhando para ela, com meu braço largado e solto ao lado da poltrona, ouvindo e sem me mover, apenas ouvindo. Deu vontade de levantar e dar um abraço forte na minha mulher, mas não tive energia.

 Também não toquei no assunto do bilhete. Apenas praguejei, não com certa dose de fingimento, amaldiçoando o calor e a hora em que aquele carro, do qual nem me lembro a cor, passou por mim e buzinou tão alto.
Marco Antonio, 2009.

8.2.07

CRÔNICA DE UMA AUSÊNCIA


Aconteceu no mesmo dia em que uma estação de rádio anunciou, tarde da noite, um acidente de ônibus. O locutor enfatizou a proporção, detalhou sobre o local e as circunstâncias, prometendo divulgar, antes mesmo dos primeiros raios da manhã, os nomes dos envolvidos e a situação de cada um. Permaneci então ao lado do pequeno rádio, aguardando a lista dos acidentados e dos prováveis mortos. Decerto sabia que o desastre houvera acontecido numa outra região; a rádio, por sinal, era de longe; o sotaque do locutor, de gente do sul. E eu estava à espera daquela listagem, nada além dos nomes que me soariam todos iguais e sem identidade.

Eu imaginei a cena, o ônibus caído no fundo de um despenhadeiro, luzes na pista, ambulâncias, carros da polícia, um homem sentado no chão negro do asfalto. Imaginei poder ver, num jornal do sul, uma foto do acidente estampada numa página interna. Mas uma fotografia, já tirada durante o dia, de nada me faria lembrar da sensação daquela noite.

Na manhã seguinte, as nuvens se adensaram. A meteorologia anunciou uma frente fria. Choveu muito naquelas duas semanas. Foram dias ruins, úmidos, embaçados e frios. A minha rua foi invadida por uma lama vermelha que descera das encostas e, no entrar e sair, sujava-se facilmente as roupas e a casa. A TV anunciou que a frente fria havia estacionado, explicando aquela invernagem em pleno verão. Na Segunda-feira, choveu durante vinte e quatro horas e o rio transbordou, provocando uma enchente só comparável à de 62. A água subiu setenta centímetros dentro de casa e, na Terça-feira, ficou lama sobre o sofá, cadeiras, camas e por dentro das gavetas.

Não consigo bem descrever o que se sente numa situação como aquela, quando se descobre, no dia seguinte, sob a implacável luz de um sol que ainda não se vê, em meio à toda sujeira, todas as coisas perdidas. Enquanto a água não desce, não se percebe exatamente o que está acontecendo, como se a nossa compreensão estivesse também submersa.

Após quinze dias, a chuva se foi de todo; e a cidade, de um jeito ou de outro, foi lentamente voltando à normalidade. O passado objetivo foi divulgado nas estatísticas dos prejuízos, perdas e mortes, arquivando-se em números. Nas mentes, a perplexidade. Mas quando o sol volta a encher de luz o espaço, e o céu azul se abre, somos obrigados a aceitar que não se pode viver como se ainda houvesse água barrenta do rio penetrando em tudo.

No mês seguinte, voltei ao mar e revi os amigos. Da praia, avistei um enorme navio branco navegando em águas tranqüilas. E, numa dessas noites quentes, Helena voltou.


Marco Antonio, 1991

18.4.06

INCIDENTE


Ontem foi um dia chuvoso. Na rua, um cachorro mordeu a perna de uma criança, e o pai saiu com um porrete, mas o cão fugiu, dobrando a esquina, mais rápido do que os olhos puderam perceber. E todos ficaram ali, observando o pai do menino com um porrete na mão, dando voltas em torno de si, em busca do cachorro, enquanto estava lá a criança sentada e chorando na calçada, a palma da mão sobre a ferida. O dono da padaria pulou o balcão, pegou o menino nos braços e o levou para dentro, porque logo começou a chover de novo.

Mas o pai ficou rodando como um tonto, tentando em vão encontrar o animal fujão. Uma pena, a criança chorando nos braços do padeiro, pois a mãe dele não estava lá, dizem que estava viajando. Ninguém sabe ao certo o que ela foi fazer e nem para onde foi. Comenta-se que fugiu com outro, faz quase duas semanas, com um antigo amante, é o que se diz por aí. Mulher outrora muito bonita, casou-se cedo e teve esse único filho. O marido, um homem sereno e trabalhador; e por isso mesmo ninguém sabe explicar por que ela tem esse tal amante, bem como nunca se viu os dois juntos ou coisa que o valha, talvez coisa das más línguas do lugar. Mas o certo é que ela não estava lá quando a criança foi atacada pelo animal; apenas o pai, com um porrete na mão, olhos perdidos a mirar coisa alguma, à procura de um cão para não se sabe mais o quê.

O dono da padaria puxou o pai do menino pelo braço e o levou para dentro. Precisava que alguém o fizesse, pois a chuva engrossou muito de uma hora pra outra. Coitado do pobre, todo molhado, porrete na mão, sem saber o que fazer. Foi dona Esmeralda, uma mulher muito gorda, quem o fez perceber que a criança estava com a perna sangrando e a chorar, precisando ser levada para fazer um curativo, tomar vacina, algo assim, coisas que só o pai poderia fazer. - Onde já se viu um pai ficar tão perdido numa situação como aquela, sem ação. E qual serventia teria o cachorro naquele momento para fazer aplacar a dor do menino? Foi aí que ele parece ter retomado a razão, pegou o filho nos braços e o colocou no carro, saindo em disparada para o hospital.

Hoje é domingo. No meio da tarde do sábado, o pai voltou, mas sem o filho. Deixou a criança de 7 anos na casa de uma parente e apareceu sozinho. Mas tão logo estacionou o carro na garagem, foi direto para a casa amarela e daí o desentendimento com o dono do cachorro, agora que já se sabia de quem era o animal. O filho provavelmente contou tudo, que estava atravessando a rua e, sem mais nem menos, o cachorro da casa amarela veio em disparada atacá-lo.

Não se sabe como foi a discussão, pois estavam apenas os dois - o viúvo, dono do cachorro, e o pai do menino. O velho da casa amarela veio a falecer no meio da noite, vítima de um derrame. Hoje, pela manhã, chegaram os parentes do falecido, um monte deles, todos estranhos, saídos não se sabe de onde. Um deles, muito nervoso e aborrecido, jurou vingança, mas nada de pior aconteceu, haja vista a presença de dois outros mais ajuizados que o levaram embora. Sorte do pai do menino não estar ali na hora, pois havia ido buscar o garoto.

Já é noite, mas ainda não voltaram, nem o pai e nem o menino. Já são quase oito horas e a casa do garoto continua fechada. Um vizinho passou por aqui, faz uns quinze minutos, e comentou que provavelmente não irão voltar por esses dias, pois recebera uma ligação de alguém pedindo que tomasse conta da casa por uns tempos, até tudo se acalmar novamente. A mãe do menino também ainda não voltou.

Marco Antonio, 2005