16.7.14

DIA DE PRAIA



Ela estava sentada à beira d´água. As ondas vinham, batiam em seus pés e voltavam, num movimento constante e repetitivo. De vez em quando, uma mais forte chegava até o meio das coxas, e ela dava um grito e ria alto. Mais acima, na areia, eu a observava tomando coca-cola. Era uma tarde nublada e a água estava mais fria do que de costume.

Nós íamos juntos àquela praia desde quando namorávamos. Mas naquela época era diferente, éramos jovens e praticávamos jogos de várias modalidades, esses jogos típicos de beira de praia. E foi ali que nos vimos pela primeira vez. Num fim de tarde, todo mundo sentado na areia morna, cansados após uma partida de vôlei, ela passou com umas amigas. Não que fosse a mais bonita, mas foi ela quem sorriu pra mim. Logo, no dia seguinte, no mesmo horário do dia anterior, quando estávamos novamente cansados após uma longa partida de futebol na areia fofa, ela novamente passou com as amigas e, mais uma vez, deu-me um sorriso.

Desde aquele dia, que se vai longe, do qual nos recordamos com doçura dos sonhos e da beleza da juventude em sua plenitude, festejamos voltar todos os anos para a mesma praia onde nos conhecemos.

- Vamos! - Eu gritei - Já está bem frio aqui.

Então ela veio de lá, após levantar-se com um pouco de dificuldade, andando lentamente com pisadas fortes e afundando os pés na areia seca. Chegou ofegante e tomou um gole de refrigerante. Pegamos nossas coisas e subimos o aclive bem devagar. Mais acima, num gramado, havia uma bica de água doce e nos lavamos, tomamos água mineral e entramos no carro.

Ela resolveu dirigir. A estrada estava movimentada, era uma sexta-feira, e muita gente afluía para aquela região. Acomodei-me no banco do carona e pus uma musiquinha pra tocar. Abaixei o volume e peguei um cochilo leve e sem esforço, num misto de sonho e vigília.

Não sei quanto tempo se passou. Acordei com um som forte de freios, seguido de um outro som de impacto potente mais à frente do nosso carro. A minha mulher diminuiu a marcha rapidamente. O cinto-de-seguranca apertou-me o peito. Abri os olhos e vi, logo adiante, carros atravessados na pista. Ela disse ter visto tudo, pois estava atenta ao trânsito intenso.

Ficamos mais de uma hora parados. Carros de um lado e do outro, uma fila bem longa. E uma longa espera.

Nesse meio tempo, minha mulher calou-se e entrou em sono profundo. Aproveitei e fui até o ponto onde ocorrera o acidente. Três carros envolveram-se na batida, mas sem vítimas fatais, felizmente. Quando a pista foi liberada, voltei ao nosso veículo e a acordei. Pedi a ela para passar para o banco de trás, de modo a continuar dormindo mais confortavelmente. Ela pulou para a traseira sem protestar.

Liguei o rádio do carro e botei o som baixo, como fizera antes. Já era noite e luzes intensas de faróis cruzavam a minha visão. O locutor, sob um fundo musical romântico, começou a ler uma uma carta de uma ouvinte, na qual dizia estar profundamente triste e solitária, pois o namorado havia ido trabalhar fora numa mineradora lá no fim do mundo. Então eu aumentei um pouco o volume para poder acompanhar melhor a leitura da cartinha. O locutor tinha uma voz empostada e realçava as partes mais tocantes com a sua curva melódica romântica; fazia pausas longas, como se meditativas e solenes, enquanto abaixava o volume da música; e então recomeçava num tom mais leve e tranquilo o parágrafo seguinte. A moça dizia que esperaria o seu amor por quanto tempo fosse necessário, nem que se passassem cem anos. Ela dizia ter 22 anos, 1,70m, morena clara, cabelos castanhos, católica carismática, segundo grau completo, uma moça do interior com um emprego de caixa num supermercado.

Logo depois, a minha mulher  acordou e perguntou sobre as horas. E disse, em seguida:

- Tive um sonho. Tão pouco tempo cochilando, e um sonho tão longo, pareceu durar horas, um pesadelo, na verdade. Sonhei ainda estarmos na praia, quando começou, do nada, uma tempestade, chuva forte, raios e trovões, e não dava para enxergar um metro à frente. As ondas vinham e batiam fortes. E eu me perdi de você.  Gritava alto, chamando por seu nome, mas o som dos trovões e da chuva eram mais altos. Eu corria das ondas que vinham, mas ela não cansavam de voltar, cada vez mais fortes, e eu era obrigada a correr mais e mais numa areia que parecia não ter fim, para não ser tragada pelas ondas. A última delas chegou a cobrir meus pés, embora tenha corrido muito. E, do mesmo jeito que veio, a tempestade se foi, e o sol iluminou tudo novamente. O mar estava novamente calmo, e a praia deserta. Você não estava mais lá. Para onde eu olhava, só havia água e areia.

- Já estamos perto de casa - eu a interrompi -, talvez a menos de cinco minutos.

- Que bom... chegue logo....-  e voltou a adormecer.


Marco Antonio, 2014.

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