Eu os vi
pela primeira vez naquele bar, numa mesa bem próxima
à nossa. Em número de quatro. Lembro que os achei estranhos. Comentei com
meu amigo, e ele disse não ter notado nada de anormal,
nem nas roupas, na aparência ou nos gestos. Inclusive
consumiam a mesma marca de cerveja que estávamos bebendo, disse ele, em
tom de gozação. Eu e meu amigo estávamos ali para trocarmos ideias
sobre a compra de um imóvel, pois ele entendia bem do
ramo, e eu o convidara para essa consulta. Compre agora - deu a
opinião de profissional -, pois os preços vão subir. Vão subir, pode acreditar em
mim. O mercado imobiliário está aquecido, e quem tem dinheiro está comprando. Se esperar, meu amigo, pode perder essa ótima oportunidade ou vir a comprar mais caro daqui a um mês. Ele era bom naquilo, inteligente, bem informado,
sempre certeiro. E eu me decidi de imediato. Além
disso, era confiável, e éramos amigos, bons amigos. Terminamos o jantar na certeza
de que faria o negócio logo na manhã seguinte. Na saída, passamos pela mesa dos
caras estranhos, e nenhum deles deu pela nossa presença. Alguma coisa os fazia diferente de nós.
A manhã seguinte foi a daquele dia fatídico em que os EUA fecharam seu espaço aéreo, proibindo todos os vôos comerciais, seguidos pelo Canadá, Reino Unido, México, União Europeia, Rússia, China, Israel, Austrália,
Índia, Egito, Irã e, na rabeira, quando os satélites
já estavam fora de ação, e nem mais tínhamos internet ou celulares,
foram acompanhados pelo Brasil e demais da América
do Sul. Sem falar na horripilante queda e fechamento das bolsas e das agências bancárias.
Logo
antes do almoço, quando cheguei em casa,
depois de pegar um trânsito totalmente caótico, encontrei a minha mulher tentando, em vão, selecionar algum canal de TV.
- Só chuvisco, você viu? Todos estão assim - ela comentou com ar de interrogação, parada no meio da sala, mostrando o controle remoto pra mim.
- Ligue o
rádio - eu sugeri.
- Fechou
o negócio? - ela perguntou. Exibia
um belo sorriso de esperança no rosto.
- Não deu...
- Deus do
Céu... - Ana lamentou,
sentando-se no sofá da sala, deixando cair o
controle remoto no chão - perdemos a maior
oportunidade de nossas vidas... – E com ar de desolação, perguntou: - E o que está
acontecendo, afinal? Estamos sem TV...
Nenhum de
nós sabia o que estava acontecendo,
nem quanto tempo duraria, ou que pioraria muito logo depois. No início da noite, carros da polícia fecharam as avenidas principais da cidade e houve anúncio, pelas estações de rádio, de toque de recolher. As emissoras também não diziam nada além do necessário. Estávamos no escuro, como se diz. Uma nota presidencial, também pelo rádio, anunciou o fechamento das
escolas, dos estabelecimentos comerciais e shoppings, pediu que ninguém saísse de casa, nem mesmo para
trabalhar. Apenas os hospitais ficariam abertos, sob forte proteção da polícia e do Exército. Não deu explicação nenhuma. E terminou
pedindo a todos confiança em Deus e na humanidade.
- Você viu o que disse aí?! - Ana explodiu com essa
frase - Você sabe o que significa o presidente pedir confiança na humanidade, enquanto os bancos não abrem, não temos supermercados e nem
TV?
- Isso é retórica de político, pediu confiança em Deus. Todos fazem isso,
em qualquer circunstância - tentei acalmá-la -, é de praxe, os caras que escrevem
os discursos já têm isso de cabeça pra qualquer fechamento.
- Pediu para termos fé na Humanidade, meu bem... qual a última vez em que você ouviu algo assim de uma autoridade?!- ela ficou olhando pra mim. Calei.
Os dias
seguintes foram como um rolo compressor de notícias
e boatos ruins. Falta de energia, de água, saques, caos nas ruas.
Pavor absoluto. Para nossa sorte, por um tempo teríamos um bom estoque de
comida e enlatados, e só havia nós dois em casa. Mas tínhamos medo de que os vizinhos
viessem. Não ousávamos sair, não abríamos as portas do apartamento
e nem as janelas, apesar do calor sufocante. Não
foi fácil permanecer ali daquele
jeito. Mas qual seria a alternativa?
A minha
mulher deixou de lado aquele seu nervosismo inicial, talvez
por perceber mais do que eu a respeito do poço
onde nos encontrávamos naquele momento, embora não soubesse nada, nada mesmo, sobre o que de fato havia causado tudo aquilo.
Mantinha uma serenidade nos gestos e nas palavras, preparava a comida, respeitava os
horários das três refeições, arrumava a mesa e a nossa cama, colocava os objetos no
lugar. Vê-la varrendo a casa dava um pouco de esperança. O mundo e a civilização lá fora desmoronando e deixando de existir, e ela varrendo a
casa. As últimas imagens daquele mundo a que estávamos acostumados desde criança, e que ainda carrego na mente, é a de Ana tentando manter as
coisas em ordem dentro de casa.
Depois não teve mais jeito. Saímos à procura de água e comida. Fazer isso e fugir
do inferno da cidade. Nessa fuga de todos, grupos perseguiam grupos, um mundo de pessoas
fugindo e com medo de tudo. Para nossa infelicidade maior, Ana e eu nos perdemos
um do outro. Nem mais uma vez a vi, e nem lembro o momento e como ela se
afastou e sumiu. Qualquer traço de esperança se esvaiu.
Agora,
anos depois, dizem que já temos alguma normalidade, se é que isso pode ser chamado de normalidade, na verdade um caos ao qual nos acostumamos mais. Nos últimos tempos, tenho notado
cada vez mais a presença deles. Estão em toda parte, indo e vindo, misturados. De vez
em quando, numa ou noutra parada, comento com alguém sobre o jeito certo de olhar e identificá-los. Mas poucos dão atenção, medo também. Determinadas pessoas parecem saber exatamente o que eu sei, mas logo se afastam, como se pessoas como nós não pudessem estar perto uma das outras.
E o tempo foi passando. Do mesmo modo, fui deixando pra lá. Nada há a fazer, o passado é irrecuperável em si. Não alimento nem mesmo a menor esperança de que o nosso mundo volte a ser como antes algum dia. De vez em quando, raramente, tenho um sonho bom, as cidades erguidas novamente, a casa arrumada, e Ana sorrindo pra mim.
E o tempo foi passando. Do mesmo modo, fui deixando pra lá. Nada há a fazer, o passado é irrecuperável em si. Não alimento nem mesmo a menor esperança de que o nosso mundo volte a ser como antes algum dia. De vez em quando, raramente, tenho um sonho bom, as cidades erguidas novamente, a casa arrumada, e Ana sorrindo pra mim.
Marco Antonio, 2013.

Um comentário:
"Vê-la varrendo a casa dava um pouco de esperança. O mundo e a civilização lá fora desmoronando e deixando de existir, e ela varrendo a casa. As últimas imagens daquele mundo a que estávamos acostumados desde criança, e que ainda carrego na mente, é a de Ana tentando manter as coisas em ordem dentro de casa."
Um conto e' pouco. O que eu quero é um livro… :o)
muito bom!
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