Na floresta, quando a noite desce sob o céu, e as estrelas mais distantes podem ser vistas cintilando como vagalumes, e os vagalumes piscam aqui e acolá, e o vento frio sopra por entre árvores centenárias e imensas, somos tomados por aquele sentimento do sobrenatural, um outro mundo paralelo invade o nosso e nos comunicamos com espíritos e entidades que fogem quando brilha a luz do sol, mas emergem das sombras quando a noite cai.
Mas não temos esta mesma sensação do estranho e do incógnito quando somos atendidos no caixa do supermercado, embora ali estejam as maiores mágicas de desde quando o Homem habita a Terra, milhares de dados incompreensíveis circulam por cabos e até mesmo pelo ar, invisíveis, e as imagens aparecem nas telas, e dessa forma adquirimos o que comemos, vestimos e utilizamos em nosso cotidiano. Pura magia. Mas acreditamos que tudo é lógico, racional, real, palpável, compreensível e sob a nossa vontade. E nem sequer pressupomos forças poderosas invisíveis controlando a existência, os passos que damos, quando o semáforo determina que paremos ou andemos, quando os dispositivos guardam e transferem quando operamos valores nos quais confiamos o presente e o futuro.
Mas quando saímos dessa rotina diária e adentramos florestas ou mares, naas montanhas e desertos, e a natureza ergue-se numa força descomunal e incontrolável e cai a chuva com trovões e relâmpagos, em estrondos que fazem vibrar o chão e as pedras, vem o medo mais primevo e irracional e nos iguala aos primeiros humanos.
E tudo volta ao normal quando retornamos à vida urbana.
Ledo engano.
Aquelas máquinas, pequenas e grandes, carregam a mesma força e o mundo desconhecido e indomável que as movem. Nada é diferente daquele das florestas sombrias e profundas. Apenas nos convencemos e acreditamos de que o cotidiano é controlável, confortável. Não, observe quando vem de lá uma um carro, seus faróis acesos contra nossos olhos. Quem nos garante que não há dentro daquela máquina, bem lá em suas estranhas, as forças que fazem uivar o ar quando o vento sopra entre as árvores na escuridão completa? Por que nos tornamos tão crédulos?