9.8.25

INVASÃO

Quando os alienígenas chegaram, ninguém estava minimamente preparado. Não houve aviso prévio algum, as estações astronômicas que monitoravam asteroides não detectaram qualquer objeto em aproximação. Foi um vexame para agências de vigilância espacial, sociedades científicas e toda a sorte de observadores do espaço. Como eles chegaram sem ser minimamente notados? Aliás, até ali, era quase um consenso a impossibilidade de sermos visitados por objetos advindos de outra civilização, haja vista que não há nenhuma em nosso sistema solar e nem na vizinhança estelar. Mais ainda, de qual lugar vieram, o que comem e respiram? O que se sabe é que chegaram, suas naves ou assemelhadas, fossem o que fossem, aportaram em pontos ao redor do planeta, dava para vê-las, a olho nu, coisas enormes no céu, e havia umas menores, bem rápidas, praticamente invisíveis, movendo-se entre as maiores. As redes de TV de então passaram a cobrir a invasão vinte e quatro horas por dia, além dos canais da internet, uma imensidão daqueles antigos podcasts de palpiteiros, toda a sorte de opiniões sobre os invasores, que poderiam ser agressivos máximo da aniquilação total da vida na Terra, até o outro extremo, pacíficos e  amigáveis para nos salvar. As gravações pelos celulares da época, onipresentes, de qualquer vôo das menores movendo-se entre as gigantes eram acompanhados de especialistas que traçavam hipóteses e explicações as mais diversas e  mirabolantes. Aqui, no rés das ruas, caos, saques e violência. E essa primeira fase durou exatos quatro dias.

No quinto dia, enxames de objetos menores desgarraram-se das gigantes e começaram a fazer vôos de baixa altitude sobre as cidades. Como as coisas começaram a desmoronar nos dias anteriores, desde o primeiro, no quinto dia pouco havia de força policial ou militar organizada para dar algum suporte ao nosso modo de vida.

No sexto dia, eles sumiram, tão rapidamente como chegaram, não deixando rastros e nem mensagens. Mas a presença dos visitantes, fossem quem fossem, marcou-nos tão poderosamente, no estabelecimento do caos generalizado, que os dias seguintes foram muito piores num crescente de selvageria talvez nunca vista. Tornamo-nos incapazes de controlar e conter o medo de que retornem.

Foram assim os primeiros acontecimentos do novo mundo.

Agora somos a consequência deles. Os sinais do passado recuam no tempo. Liberdade, redes sociais, comunicações instantâneas em grande escala, negócios globais, satélites, exploração espacial, desenvolvimento de tecnologias,  qualquer coisa que possa precipitar um retorno do inimigo é combatida pelo senso comum e  proibida pelas autoridades de defesa.

Tenho um bar.

Vendo cervejas produzidas aqui na região, pouquíssimas mercadorias vêm de fora. Submeti-me a um processo rigoroso para poder comercializar o produto, e a um outro e ainda mais complicado para ser autorizado a armazenar utilizando um refrigerador. Equipamentos, por mais antigos que sejam, são considerados itens de segurança. Nada é fácil, o da refrigeração levou um ano.

As pessoas gostam do meu bar, somos discretos, amigáveis e simpáticos, abrimos crédito para aqueles que não podem pagar logo após o consumo. Mas não tenho autorização para oferecer carnes. Faço um arranjo com tomates desidratados, queijo e pão. E as conversas? São reservadas. Como já passou muito tempo desde aquela fatídica semana, há versões as mais diferentes e conflitantes entre si. Um grupo defende que eles vieram, desceram das naves e nos disseram para viver assim, da forma como estamos hoje. Um outro, mais radical, diz que tudo não passou de uma farsa, os chamados negacionistas, negam a possibilidade de vida alienígena e argumentam que estamos apenas cumprindo uma agenda criada por uma elite que nos controla nos mínimos detalhes. Mas eu finjo que não ouço. As mais aceitáveis têm a ver com o tempo, as colheitas, casamentos, funerais e festas paroquianas, 

Como tenho esse bar e vivo dele para o meu sustento, não posso deixar que grupos organizados utilizem o meu estabelecimento para conspirar. Já expulsei vários indivíduos inconvenientes e brigões. Dono de bar é  assim, desde o início tempos, você é obrigado a impedir tudo aquilo que irá prejudicar o seu negócio. E confesso que cresci no ramo de vendas de cervejas geladas por saber, além de tudo, manter a harmonia em meu estabelecimento, sou o único num raio de duzentos quilômetros. Pensei em expandir para outra freguesia, mas já há um outro concorrente com autorização e que não irá abrir mão dos seus privilégios.

Todo este nosso modo de vida tem como objetivo evitar a mínima ameaça aos invasores e, para isso, é necessário manter uma rotina que denote uma atividade pacata, de baixa prosperidade e de baixo avanço tecnológico, a estagnação. Seja certo ou não, eles nunca mais voltaram. Aqueles que a defendem,  argumentam que é fato inquestionável o não retorno dos invasores. E essas pessoas se autodenominam defensores da ordem, da paz, do bem-estar e da manutenção da própria existência humana no futuro, mesmo que incerto. 

As novas gerações, aqueles que não viveram o passado e já nasceram num mundo habituada à forma de como procedemos  atualmente, validam esses argumentos, pois todos, velhos ou novos, recusam o caos e a anarquia que se seguiram após os primeiros anos da vinda dos forasteiros.

A repressão é feroz. Recentemente, caiu aqui na América do Sul um meteorito, o bólido cruzou o céu e veio a se espatifar na floresta. Trezentas pessoas foram presas. Cinco mortos. Julgamentos sumários. Os poucos jornais deram essa notícia em poucas linhas e sem detalhes.

Há um grupamento, embora não identificado, muito em voga nas conversas de pé-de-ouvido, o dos reacionários. Eles advogam um modo de vida ainda mais simples e antigo que remonta à Idade Média. Se bem que já vivemos em feudos, a autoridade regional, inquestionável, pessoas invisíveis e cujos nomes nos são desconhecidos, mantém as alternativas de pensamento sob controle, e nem desejamos qualquer substituição de poder de um grupo por outro. A minha autorização para refrigerar cervejas e comercializar o produto é o meu interesse imediato. Não irei trocá-la por nada e, muito menos, por aventuras. A democracia é algo impensável.

Um caixeiro-viajante, com autorização para circular entre freguesias, compareceu certo em dia ao meu estabelecimento contando que a cerveja de um outro lugar era mais leve e de fácil digestão. Aquilo gerou uma discussão, muitos vieram me questionar. Em proteção à minha atividade comercial, fui obrigado a denunciar às autoridades locais, burocratas cujos ganhos dependem dos lucros por nós obtidos. E não demorou para que se resolvesse facilmente o imbróglio, com o tal caixeiro-viajante sendo obrigado a negar tudo o que dissera, proibido de exercer suas atividades por abuso de confiança.

Agora já um tanto envelhecido, longe das facilidades médicas de outrora, conduzo o meu primogênito para as boas práticas da refrigeração e comercialização de bebidas. Ele parece gostar, e demonstra habilidades, especialmente no trato com os clientes. Ele tentou obter licença para venda de água engarrafada, o que foi imediatamente negado por um intendente local. Houve há pouco um boato de que vão dividir a atividade, uma para refrigeração, e outra, para comercialização ao consumidor final. Mas por enquanto mantenho as duas sob meu controle na freguesia, e espero que não ocorram mudanças.

Ele fez uma visita, especial e raríssima, a uma fábrica de cervejas, voltando de lá encantando, mas sob a promessa de não revelar o que vira. O negócio das cervejas é estável, sem crescimentos ou quedas anuais, e isso já faz um bom tempo. Estabilidade, equilíbrio, permanência, paz e durabilidade. Todos agora apreciamos e louvamos práticas que garantam uma vida sem sobressaltos e uma rotina desacelerada, o rompimento com aqueles padrões estressantes e desnecessários de outros tempos.

Os visitantes do espaço são lembrados anualmente em cerimônias oficiais compulsórias para todos, quando choramos sinceramente os mortos devido ao caos originado dentro do seio da própria sociedade humana de antes e somos duramente avisados de que estamos em permanente guerra, uma guerra não somente de espera, mas de firme recuo, mais do que contra um inimigo que se esconde nos confins do espaço, a batalha diária contra um modo de vida que os atraiu em hordas contra nós. 

A literatura mofada em antigas bibliotecas carcomidas e abandonadas fala em índices de inovação do passado. Que louca arrogância foi aquela que se nos apossou? Há uma política estabelecida e aceita de não destruir tais livros, mas simplesmente relegá-los ao esquecimento, o oblívio do saber que avança e desbrava, afastando o que somos daquilo que poderíamos ser caso essa depravação de igualar-se a deuses pudesse continuar nos levando na rota da insensatez.

A rota da insensatez. A euforia da descoberta. A soberba do destemor sem freios e de não temer o pavor por trás do desconhecido e do proibido.

Mas há um certo incômodo, algo de irracional e covarde em agachar-se cada vez mais. Quem são eles, o que pensam e por qual razão estarão mais inclinados a nos poupar se nos humilharmos mais e mais, revertendo curso natural do avanço humano? Não há respostas, esta é apenas uma tentativa, talvez vã, mas opõe-se ao fato de que vieram quando a altiva sociedade humana alardeava suplantar o próprio Homem. Embora possa não impedir o retorno do inimigo, supostamente impiedoso, também não alimentamos a esperança vã de uma vitória, pois já sabemos estar derrotados caso houvesse um retorno deles com a determinação de nos aniquilar.

Voltemos às cervejas. A marca que vendemos é Amicto. Espuma densa, pesada, rústica, sabor levemente amargo. O rótulo, de papel, colado à garrafa, traz a imagem de um peixe, em tom amarelado,  imóvel em seu nado quase artístico e plácido em águas cristalinas. 

Agosto de 2025